
A Sombra da Infidelidade
Capítulo 3
O ódio era como um motor roncando dentro de mim, mas eu precisava desligá-lo. Ana precisava de mim. A raiva podia esperar. O choro, a dor, tudo podia esperar.
Forcei meu corpo a sair do carro e voltei para o hospital. Cada passo era pesado. Eu era um homem caminhando para a própria execução, mas a única coisa que importava era ver minha filha.
Quando cheguei ao corredor da UTI, uma barreira de pessoas bloqueava meu caminho. Repórteres. Câmeras. Microfones foram empurrados na minha cara.
"Senhor Pedro, é verdade que você agrediu sua filha?"
"Fontes policiais dizem que você era um pai abusivo!"
"Sua esposa deu uma declaração?"
Os flashes das câmeras eram como explosões, me cegando, me desorientando. E então, no meio da multidão, eu o vi. João. Ele estava parado ao lado de Maria, com uma expressão de profunda tristeza no rosto. Um ator perfeito. Ele colocou um braço protetor ao redor dos ombros dela.
Aquele gesto, aquela posse, quebrou meu autocontrole.
Aquele motor de raiva dentro de mim explodiu.
"SEU MONSTRO!" , eu gritei, abrindo caminho entre os repórteres como um animal selvagem.
Eu me lancei sobre ele. Minhas mãos encontraram o colarinho da sua camisa cara e o joguei contra a parede. O baque surdo do seu corpo ecoou pelo corredor.
"FOI VOCÊ! VOCÊ MACHUCOU A MINHA FILHA!" , berrei na cara dele, a saliva voando da minha boca.
João arregalou os olhos, fingindo pânico e dor. "Pedro! O que é isso? Você enlouqueceu? Socorro!"
Maria agiu instantaneamente. "Seguranças! Polícia! TIREM ELE DAQUI! ELE ESTÁ DESCONTROLADO! VEJAM! É ISSO QUE ELE FAZ!"
Ela se colocou entre mim e João, defendendo-o. Defendendo o homem que quase matou nossa filha, enquanto me acusava na frente do mundo inteiro. A ironia era tão cruel, tão grotesca, que eu ri. Uma risada seca e desesperada.
"Eu tenho a prova!" , gritei para os policiais que agora me agarravam, torcendo meus braços para trás. "Eu tenho a gravação! No meu carro! A conversa de vocês!"
Maria me olhou com desprezo. "Do que ele está falando? Ele está delirando. Provavelmente é alguma gravação que ele mesmo forjou para se safar. Meu marido é desenvolvedor de jogos, ele entende de tecnologia. É fácil para ele manipular um áudio."
João, recompondo-se, ajeitou a camisa e falou com a voz trêmula de uma vítima. "Nós... nós estávamos discutindo um caso, Maria. Eu estava interpretando um cliente. Pedro deve ter ouvido fora de contexto. Ele está desesperado."
Era a desculpa perfeita. Rápida, plausível para quem não sabia a verdade. A palavra de uma advogada respeitada e de um empresário influente contra a de um pai acusado de um crime hediondo.
Então, o golpe final.
"Ele está mentindo!" , uma voz gritou da multidão. Um homem e uma mulher se apresentaram aos policiais. "Nós o vimos. Perto do beco, naquela noite. Ele parecia nervoso, estava seguindo a garota."
Testemunhas falsas. Compradas. Olhei para Maria, e ela me devolveu um sorriso sutil, um brilho de vitória em seus olhos.
Ela tinha pensado em tudo.
Os policiais apertaram as algemas em meus pulsos. O clique do metal se fechando foi o som da minha liberdade acabando. Fui arrastado pelo corredor, passando pelo quarto de Ana. Pela janela de vidro, eu a vi, imóvel, alheia à destruição da nossa família que acontecia do lado de fora.
Eu estava completamente sozinho, engolido por uma teia de mentiras tecida pela mulher que eu amava.
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