
A Sobrevivente e o Jogo Fatal
Capítulo 2
A música alta do salão de festas parecia abafar o zumbido nos meus ouvidos, mas ele continuava lá, uma lembrança constante do acidente. Do primeiro acidente. Ou talvez do segundo. Eu já não tinha mais certeza.
Todos os rostos na festa da empresa se viraram para mim quando entrei. O choque era visível, bocas abertas, olhos arregalados. Joana, a sócia que todos acreditavam estar morta num incêndio trágico, estava ali, de pé, usando um vestido vermelho que contrastava com a palidez da minha pele.
Eles não sabiam que eu já tinha "morrido" uma vez antes, num acidente de carro que me deixou em coma, um acidente que meus queridos sócios, Pedro e Lucas, chamaram de "infeliz".
Meu olhar varreu a multidão, ignorando os sussurros e os dedos apontados, até encontrar o dele.
Pedro.
Ele estava no centro de um grupo, um copo de uísque na mão, o sorriso charmoso congelado no rosto. O copo escorregou de seus dedos e se estilhaçou no chão de mármore. O som agudo cortou a música por um instante.
Ele caminhou na minha direção, seu passo normalmente confiante agora era hesitante, quase incrédulo.
"Joana?", sua voz era um sussurro rouco. "Não é possível."
Eu mantive meu rosto sem expressão.
"Por que não, Pedro? Sentiu minha falta?"
Ele parou a um passo de mim, o cheiro de álcool e do perfume caro dele me atingiu, me enjoando. Seus olhos percorreram meu corpo, como se procurassem por cicatrizes, por provas de que eu era real.
"Você... você estava no incêndio. O prédio desabou."
"Eu sou uma mulher de muitos talentos", respondi com frieza, "inclusive o de sobreviver."
Os murmúrios ao nosso redor aumentaram, uma onda de fofocas se espalhando pelo salão.
"É ela mesma? A sócia que morreu?"
"Eu ouvi dizer que o corpo estava irreconhecível..."
"E o Pedro e o Lucas? Eles herdaram a parte dela na empresa, não foi?"
"Que situação estranha. Ela aparece justo na noite em que eles anunciam a nova expansão."
Pedro estendeu a mão para tocar meu rosto, mas eu recuei.
"Não me toque", minha voz saiu firme.
Ele franziu a testa, a confusão dando lugar à raiva.
"O que está acontecendo, Joana? Onde você esteve? Por que voltou assim?"
Eu dei um pequeno sorriso, o primeiro da noite. Era um sorriso sem qualquer calor.
"Eu vim corrigir alguns erros. E, a propósito, não é mais Joana. É Senhora Albuquerque."
A confusão no rosto dele se aprofundou. Albuquerque não era um nome que ele conhecia.
"Do que você está falando?"
"Estou falando do meu marido", anunciei, minha voz clara e alta o suficiente para que todos ao redor ouvissem. "Eu me casei."
A declaração caiu como uma bomba no salão. Pedro me olhava como se eu tivesse acabado de confessar um crime. Ele balançou a cabeça, um riso amargo escapando de seus lábios.
"Você não pode ter se casado. Você... você pertence a nós."
Sua raiva explodiu. Com um movimento rápido e violento, ele se virou e socou um painel de vidro na parede, onde a logo da nossa antiga empresa estava gravada. O vidro se quebrou com um estrondo, cacos voando para todos os lados. As pessoas gritaram e se afastaram.
"Chega de joguinhos, Joana!"
Uma voz fria e calculista cortou o caos. Lucas.
Ele emergiu da multidão, ajeitando seu terno impecável, seu rosto calmo contrastando com a fúria de Pedro. Ele se aproximou, seus olhos escuros fixos em mim.
"Ela não é a Joana", disse Lucas, sua voz baixa, mas carregada de uma certeza assustadora. Ele olhou para Pedro e depois para mim. "Ela finalmente voltou para nós. Nossa paixão de infância."
Ele se virou para a multidão atônita e anunciou, com uma autoridade arrepiante:
"Esta mulher não é esposa de ninguém. Ela é uma farsa. E ela veio para casa."
Pedro e Lucas agora estavam lado a lado, me encarando. Dois predadores que pensavam ter encurralado sua presa. Eles não perceberam que a presa que eles conheciam já tinha morrido duas vezes. E a mulher que estava ali agora não era mais uma ovelha, mas uma loba esperando para atacar.
"Você não vai a lugar nenhum", disse Pedro, sua voz baixa e ameaçadora.
"Você vai ficar conosco", completou Lucas, com um sorriso gelado. "Para sempre."
Você pode gostar





