
A Sobrevivente do Plano Cruel
Capítulo 2
Quando acordei, a primeira coisa que vi foi o rosto do meu marido, Léo.
Ele parecia preocupado, mas os seus olhos não estavam em mim.
Estavam fixos no meu braço, no meu ombro, na minha perna.
Ele verificava cada centímetro, procurando por hematomas, por qualquer marca.
"Graças a Deus, estás bem," ele suspirou, mas o seu alívio parecia estranho.
"A Ana está bem?" perguntei, a minha voz rouca.
Ele hesitou, apenas por um segundo.
"Ela está bem. Um pouco assustada, mas segura."
Eu estava no hospital. O cheiro de desinfetante era forte. A minha cabeça doía por causa do acidente de carro.
Lembrei-me do som do metal a rasgar, do vidro a estilhaçar-se.
Eu estava a conduzir, a minha irmã mais nova, Ana, estava ao meu lado. Um carro atravessou o sinal vermelho.
"Eu preciso de ver a Ana," eu disse, tentando sentar-me.
Uma dor aguda atravessou as minhas costelas e eu gemi.
Léo empurrou-me gentilmente de volta para a almofada. "Não te mexas. Os médicos disseram que precisas de descansar. Eu vou buscá-la."
Ele saiu do quarto.
Eu confiava no meu marido. Léo sempre foi o homem perfeito.
Até que, há um mês, descobri os seus segredos.
Mensagens. Fotografias. Encontros.
Não comigo. Com a minha irmã, Ana.
Confrontei-a. Ela chorou, disse que foi um erro, que o amava, que ele era a sua alma gémea.
Ela implorou-me para não contar aos nossos pais. O nosso pai tem um problema de coração. A notícia podia matá-lo.
Então, eu calei-me. Planeei o divórcio em silêncio, juntei provas.
Hoje, eu ia contar-lhe. Depois de deixar a Ana na universidade.
Mas o acidente aconteceu.
O meu telemóvel estava na mesa de cabeceira. Peguei nele.
Havia uma mensagem de um número desconhecido.
"Não foi um acidente. Verifica os travões do teu carro. E a apólice de seguro de vida que o teu marido fez para ti."
O meu coração parou.
Léo voltou a entrar no quarto, com a Ana a segui-lo.
Ela não tinha um único arranhão. Perfeita.
Ela correu para o meu lado, os seus olhos cheios de lágrimas. "Sofia! Fiquei tão preocupada! Pensei que te ia perder!"
Ela abraçou-me. Senti o seu corpo tremer.
Mas eu só conseguia pensar na mensagem.
"Léo," a minha voz saiu fria, "podes ir buscar-me um copo de água?"
"Claro, meu amor."
Assim que ele saiu, olhei para a Ana.
"O que aconteceu exatamente, Ana?"
"Foi tudo tão rápido," ela soluçou. "Um carro veio do nada. Tu viraste o volante com força... salvaste a minha vida."
A sua gratidão parecia tão real.
Mas a sua mão, que segurava a minha, estava a usar um anel.
Um anel de prata com uma pequena pedra da lua.
O mesmo anel que eu vi numa caixa de joias na mala do ginásio do Léo na semana passada.
Ele disse que era um presente para a sua mãe.
O meu sangue gelou.
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