
A Sobrevivente do Plano Cruel
Capítulo 3
"Esse anel é bonito," eu disse, a minha voz sem emoção.
A Ana retirou a mão rapidamente, escondendo-a atrás das costas.
"Oh, isto? Comprei-o numa feira. Gostas?"
O seu rosto ficou pálido.
Mentirosa.
Léo voltou com a água. Ele sorria, o marido atencioso.
"Aqui estás, Sofia. Bebe devagar."
Ele ajudou-me a sentar e a beber. O seu toque fez a minha pele arrepiar-se.
Eu olhava para ele e via um estranho.
"Léo, ligaste aos meus pais?" perguntei.
"Ainda não," ele disse. "Não queria preocupá-los. Pensei em esperar até teres alta."
"Não," eu disse firmemente. "Liga-lhes agora. Quero que eles venham."
Léo e Ana trocaram um olhar rápido. Um olhar que eu nunca tinha notado antes.
"Claro," disse Léo, pegando no seu telemóvel. "Vou ligar ao teu pai."
Ele saiu para o corredor para fazer a chamada.
Fiquei sozinha com a Ana.
O silêncio era pesado.
"Sofia, eu sinto muito," ela sussurrou. "Por tudo."
"Pelo quê, exatamente?" perguntei, olhando diretamente para os seus olhos.
Ela desviou o olhar. "Pelo Léo. Eu sei que te magoei. Mas eu amo-o. E ele ama-me a mim."
A confissão saiu, simples e cruel.
"E o acidente?" perguntei. "Também faz parte do vosso amor?"
O rosto da Ana perdeu toda a cor. "O quê? Não! Como podes pensar isso? Foi um acidente horrível!"
"Foi?"
A minha calma parecia perturbá-la mais do que qualquer grito.
Léo voltou a entrar. "Falei com o teu pai. Eles estão a caminho. Estão muito preocupados."
Ele olhou da Ana para mim, sentindo a tensão no ar.
"Está tudo bem aqui?"
"Está tudo ótimo," eu disse com um sorriso frio. "A Ana estava apenas a dizer-me o quanto te ama."
O rosto de Léo endureceu. "Sofia, não é altura para isto."
"Não? E quando é a altura certa, Léo? Depois do meu funeral?"
O choque no seu rosto foi quase cómico.
"Do que estás a falar?"
"Eu sei dos travões, Léo."
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Ana engasgou-se. Léo ficou imóvel, como uma estátua.
A porta do quarto abriu-se.
Eram os meus pais. A minha mãe correu para mim, a chorar. O meu pai seguia-a, o seu rosto uma máscara de preocupação.
"Minha filha! O que aconteceu?"
Antes que eu pudesse responder, a Ana atirou-se para os braços do meu pai.
"Pai! Foi horrível! A Sofia salvou-me! Ela é uma heroína!"
Ela chorava histericamente.
O meu pai, que sempre a protegeu, abraçou-a com força.
"Calma, minha querida. O importante é que estão as duas seguras."
Ele olhou para o Léo. "Léo, obrigado por cuidares delas."
Léo forçou um aceno de cabeça, ainda pálido.
A minha mãe segurava a minha mão, alheia a tudo.
"Precisamos de agradecer a Deus. Podia ter sido muito pior."
Oh, mãe. Não fazes ideia.
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