
A Sobremesa Amarga do Amor
Capítulo 2
O restaurante estava lotado, o zumbido de conversas animadas e o tilintar de talheres criavam uma sinfonia de celebração. Sofia, com seu impecável dólmã branco, sentia o coração bater forte no peito, uma mistura de ansiedade e felicidade. Esta noite era sobre ela, sua conquista. A sobremesa que ela criou, "Coração de Rubi", tinha acabado de ser eleita a melhor do ano pela mais prestigiada revista de gastronomia do país.
Mas a noite era sobre algo mais. Gabriel, seu namorado desde a adolescência, o famoso jogador de futebol, estava ali. Ele raramente aparecia em seus eventos, sempre ocupado com treinos ou jogos, mas hoje ele estava presente, sentado na primeira fila, sorrindo para ela. Ele prometeu que esta noite seria inesquecível.
Depois do discurso de agradecimento, onde Sofia mal conseguiu conter as lágrimas de alegria, Gabriel subiu ao palco. O murmúrio na plateia aumentou, câmeras de celulares se ergueram como um mar de vaga-lumes.
Ele pegou o microfone, o sorriso em seu rosto era radiante, o mesmo sorriso que fazia milhões de fãs suspirarem.
"Sofia e eu estamos juntos há muito tempo," ele começou, sua voz ressoando pelo salão. "Ela é a mulher mais doce, mais dedicada que eu conheço. E esta noite, enquanto ela celebra seu sucesso, eu quero celebrar o nosso futuro."
O ar ficou rarefeito. Sofia prendeu a respiração. Era isso. O momento que ela esperou por anos.
Gabriel se ajoelhou.
Um suspiro coletivo percorreu o restaurante. Ele tirou uma pequena caixa de veludo do bolso.
"Sofia," ele disse, olhando em seus olhos.
As lágrimas de Sofia agora eram de pura felicidade. Ela assentiu, incapaz de falar.
Ele abriu a caixa, revelando um anel de diamante que brilhou sob as luzes. Mas então, seu sorriso mudou. Tornou-se algo frio, cortante.
"Eu gostaria de agradecer a Sofia," ele continuou, sua voz agora com um tom de escárnio que só ela pareceu notar no início. "Por ser uma substituta tão maravilhosa."
O quê? A mente de Sofia ficou em branco.
Ele se levantou, sem colocar o anel em seu dedo. Ele se virou para a plateia, que agora estava em silêncio, confusa.
"Vocês veem, enquanto Sofia estava ocupada fazendo seus doces, eu estava ocupado amando outra mulher. A verdadeira paixão da minha vida."
Ele estendeu a mão para uma mesa no canto escuro do salão. As câmeras se viraram. De lá, Isabella, uma ex-modelo deslumbrante, se levantou e caminhou em direção ao palco, um sorriso vitorioso no rosto. Ela usava um vestido vermelho que abraçava cada curva de seu corpo.
"Isabella e eu vamos nos casar," Gabriel anunciou, colocando o braço ao redor da cintura dela. "Na verdade, este noivado com a Sofia foi uma ideia genial para despistar a mídia. Obrigado a todos por participarem da nossa pequena farsa."
A humilhação atingiu Sofia como uma força física. O ar foi arrancado de seus pulmões. O zumbido em seus ouvidos era ensurdecedor. Ela olhou para a multidão, para os rostos chocados, os celulares agora gravando seu colapso. Ela sentiu o mundo inteiro desmoronar sob seus pés. Sem pensar, ela se virou e correu, empurrando as pessoas para fora de seu caminho, fugindo do palco, do restaurante, de sua vida em ruínas.
Ela correu pelas ruas, a chuva fina começando a cair, misturando-se com suas lágrimas. Ela não sabia para onde estava indo, apenas sabia que precisava fugir. Ela acabou na porta do apartamento que dividia com Gabriel, o lugar que ela chamava de lar. Suas mãos tremiam tanto que ela mal conseguiu colocar a chave na fechadura.
A primeira coisa que a atingiu foi o cheiro. Um perfume floral, doce e enjoativo, que não era o dela. Era o perfume de Isabella. O cheiro estava por toda parte, impregnado no sofá, nas cortinas.
Com o coração pesado, ela caminhou até o quarto. A cama, a cama deles, estava desfeita. Lençóis de seda, que ela nunca tinha visto antes, estavam amarrotados. Sobre o travesseiro do lado de Gabriel, havia uma mancha de batom vermelho vivo. O mesmo tom que Isabella usava.
A náusea subiu por sua garganta. Ela correu para o banheiro e vomitou, o corpo tremendo incontrolavelmente. A dor da traição era uma ferida aberta, crua. Não era apenas uma traição, era um plano elaborado, uma humilhação pública calculada.
Sentada no chão frio do banheiro, ela começou a juntar as peças. As viagens "de negócios" de Gabriel, suas ausências constantes, os presentes caros que apareciam e ele dizia que eram de patrocinadores. Tudo fazia sentido agora, um quebra-cabeça doentio de mentiras. Ele nunca a amou. Ela era apenas uma fachada, um disfarce conveniente para proteger sua imagem pública enquanto ele vivia seu "verdadeiro amor".
Uma raiva fria começou a substituir o choque. Ela não ia ficar ali, chorando em meio à sujeira da traição deles. Ela se levantou, o rosto manchado de lágrimas, mas com uma nova determinação nos olhos. Ela precisava sair. Sair de verdade.
Ela pegou o celular e discou o número de sua gerente, Candice. Candice não era apenas sua gerente, era a única pessoa que sempre acreditou em seu talento, sua mentora e amiga.
"Sofia? O que aconteceu? Meu telefone não para de tocar, as notícias..."
"Candice," Sofia a interrompeu, a voz rouca. "Você se lembra daquela proposta da academia de Paris? Aquela vaga para o curso de especialização?"
Houve uma pausa do outro lado da linha. "Sim, eu lembro. Sofia, você está bem?"
"Eu quero ir," disse Sofia, com uma firmeza que surpreendeu a si mesma. "Eu quero ir para a Europa. Agora."
Candice não hesitou. "Deixa comigo. Arrume suas coisas. Eu cuido do resto."
Desligando o telefone, Sofia sentiu uma pequena faísca de esperança. Paris. Um novo começo. Longe de Gabriel, longe de tudo isso.
Ela começou a fazer as malas, jogando suas roupas de qualquer maneira dentro da mala. Seu olhar caiu sobre a moldura digital na mesa de cabeceira, que passava fotos felizes do casal. Ela a pegou e a jogou contra a parede. O vidro se estilhaçou, o som ecoando no silêncio do apartamento.
Ela estava prestes a sair do quarto quando algo chamou sua atenção. Um pequeno dispositivo piscando sob a cômoda. Era uma câmera de segurança. Gabriel a instalou semanas atrás, dizendo que era para a segurança deles. Ele disse que ela poderia acessar as imagens pelo tablet dele.
Movida por um impulso sombrio, ela pegou o tablet. Com os dedos trêmulos, abriu o aplicativo da câmera. Ela rolou para trás, para os dias em que ela estava trabalhando até tarde em sua confeitaria.
As imagens que ela viu a quebraram em um milhão de pedaços.
Lá estava Gabriel, trazendo Isabella para o quarto deles. Eles riam, se beijavam na cama dela. Em uma gravação, Isabella pegou um dos vestidos de Sofia do armário.
"Nossa, ela realmente acha que esse estilo combina com você?", Isabella zombou, segurando o vestido contra o próprio corpo. "Tão sem graça. Tão... Sofia."
Gabriel riu. "É por isso que ela é o disfarce perfeito. Ninguém nunca suspeitaria. Ela é tão ingênua, acredita em tudo que eu digo."
Ele a puxou para a cama. "Agora, esqueça ela. Vamos falar sobre o nosso casamento de verdade."
Sofia deixou o tablet cair no chão. O som da voz dele, o desprezo, a crueldade casual. Ela não era apenas uma substituta, ela era uma piada para eles. Todo o seu amor, sua dedicação, sua vida inteira com ele, era uma mentira que eles contavam rindo.
Ela fechou a mala. Não havia mais lágrimas. Apenas um vazio gelado e uma determinação de ferro. Ela não ia apenas fugir. Ela ia se reerguer. E um dia, ele se arrependeria.
---
Você pode gostar





