
A SERENIDADE DO AMOR REAL
Capítulo 3
Lisley Coby
Dias atuais
Hoje é o aniversário de uma amiga, e o grupo está decidido a ir comemorar em um lugar novo que abriu, parece que é bem bacana, vai ter música ao vivo, parece que a comida de lá é muito boa, então vamos, amo sair assim, me divertir, dançar, cantar, dar boas risadas, todo mundo fala que eu resgatei meu brilho após o divórcio, minhas amigas de adolescência sempre falam isso comigo, Lis, fico tão feliz de ver você com aquele brilho e energia da nossa época de adolescente, ouço muito coisas nesse sentido, e nossa você está linda, parece que rejuvenesceu 10 anos.
Nesses dois anos eu de fato me remodelei, perdi quase 15 quilos, pensa numa baixinha de 1,60 com quase 75 quilos, cabelo caindo, sem energia para nada, auto estima lá no chão, aprendi a me cuidar com o mesmo carinho e amor que eu entregava para os outros.
Só que mesmo nessa minha transformação, há feridas que não são tão fáceis de serem cicatrizadas e sumir totalmente, elas permanecem ali, o medo de me relacionar novamente era uma delas, não queria viver aquilo que vivi antes, não permitia que ninguém entrasse em minha vida, em meu coração, virou meu mantra dizer ‘meu coração estava forjado no aço e que ninguém adentraria nele mais’.
Há quem dizia sempre pra mim, "Ah mas uma hora você vai ter que se relacionar com alguém", "ninguém fica sozinha a vida toda", ou "mulher precisa de um homem", eu dava risada, mas isso me irrita um pouco, confesso, porque não preciso de homem para ser, e estive sozinha, mesmo estando dentro de um relacionamento, então não, eu não precisava de ninguém, e não queria ninguém na minha vida, não faz diferença alguma, manter alguém na vida da gente, a julgar pela maioria das relações das pessoas à minha volta, só serve para causar transtorno e mal estar, então não, não quero isso para minha vida de modo algum.
Passei a olhar as relações de uma forma mais clínica, eu diria, consigo mapear os problemas das pessoas, dos relacionamentos, dava conselhos para serem melhores juntos, mas simplesmente não consigo me ver com ninguém.
Estava ali tomando meu café distraída, eu amo essa cafeteria da Beck, o aroma, o gosto do café, a torta de maçã dela eu acho simplesmente incríveis, sempre que tenho uma brecha, em meu horário, corro ali para me sentar e me deliciar com esse momento e com minha companhia, amo fazer isso, reorganizar minhas ideias, há quem julgue que me tornei uma solitária triste, mas na verdade amo é minha solitude, minha liberdade, entender que sou suficiente comigo mesma, me tornou alguém mais forte.
Perdida ali no meu momento nem me dei conta que a Cora havia chegado ali, "haha aí está você, aqui hoje é o aniversário da Camila, vamos comemorar lá naquele restaurante novo, vê se não me atrasa tá?!"
Revirei os olhos pra essa última colocação dela, sim eu sempre chego tarde nos eventos, elas ficam bravas comigo, em partes porque eu acabo garrada em algum trabalho e até que me arrumo para ir, e às vezes até posso ir mais cedo, mas confesso que prefiro ir depois, senão muitas das vezes, elas ficam tentando me empurrar algum cara, mesmo eu falando para não fazerem isso.
"Pode deixar que irei estar lá antes de vocês, satisfeita?"
"Ah não Lis, não me venha com ironia ou deboche, só quero que você chegue mais cedo, para aproveitarmos ao máximo antes que estejamos loucas, porque geralmente você chega e nós já estamos tontas, e hoje é o aniversário da Camila, e ela já falou que quer extravasar."
Ai céus, por isso não me relaciono mais, pergunto o que já tenho certeza:
"Ela brigou mais uma vez com o André, e na véspera do aniversário dela, como pode isso? É dia de celebrar aí ficam brigando por besteiras, e acaba os dois magoados, aff, e depois vocês me julgam não querer me relacionar com ninguém mais, tem base isso."
Eu suspiro, sei que eles se gostam muito, mas sinceramente não entendo porque brigam e acabam se magoando tanto, mas como a vida é deles, eles que se entendam, mas quando for mais tarde, eles dois vão ficar bêbados e se juntam novamente, de praxe isso.
A Cora então pontua de forma séria:
"Parece que dessa vez a coisa foi mais séria, quase duas semanas que eles nem se falam."
Um adendo aqui, sou uma amiga ausente, sempre que precisarem de mim estarei lá, mas não sou do tipo, que liga, ou envia mensagens todos os dias para saber o que está se passando, nesses últimos dois anos isso virou um traço mais forte em mim, mas conheço bem a Camila e o André, são meus amigos, acompanho sempre essa novela deles, mas eles sempre se resolvem rápido.
"Mas eles não estão se comunicando de modo algum? Você falou com ele? Ele vai no aniversário dela?"
Ela deixa o ar sair com cara de frustração e me responde:
"Ai Lis, aí que está o problema, eu liguei pra ele, e ele disse que está viajando e que mesmo se estivesse aqui, não iria, que dessa vez a coisa foi mais séria, e eu sei que a Camila tá mal, e que no fundo ela espera que ele vá, aargh!"
É então deve ter sido sério, não é porque é minha amiga que passo pano, mas a Camila é de um temperamento bem difícil, e o André não fica para trás, mas às vezes eu até falo com ela, que ela precisa fazer terapia, ser menos controladora, ninguém deve controlar ninguém, ainda mais em uma relação amorosa, você vai acabar sufocando o outro, e sendo bem sincera, se a pessoa tiver que errar contigo, não vai ser você sendo ciumenta, ou talvez boazinha demais que irá coibir, é do caráter da pessoa, se tiver que trair, ela vai trair, não importa o como você seja, então, se não puder confiar em seu par, é necessário rever essa relação.
"Vou conversar com ele e com ela, para tentar entender isso, e pode deixar que não irei ir tarde, já programei meu último cliente com tempo de sobra para eu poder me arrumar e ir, já combinei com a Cláudia para cuidar do Emanuel para mim, então tudo encaminhado para eu não me atrasar. Você precisa que eu leve alguma coisa ou alguém?"
Ela respira meio que aliviada, mas ainda com uma certa tensão:
"Na verdade ia te pedir carona, porque preciso passar pra pegar o bolo, e depois iríamos direto."
"Entendi, pode ser então, te pego às 19 horas, porque daí passamos na confeitaria pegamos o bolo e depois vamos para lá, eu acho que poderíamos ter olhado uma confeitaria lá por perto para não sair daqui até lá carregando bolo..."
Ela me responde prontamente, porque iremos em um restaurante de uma cidade vizinha.
"Ah relaxa dão só 40 quilômetros, é pertinho, vou indo então, fica combinado, te aguardo lá em casa às 19 horas."
Ela saiu apressada, olhei o horário ainda tenho 10 minutos até meu próximo atendimento, então fui até o caixa como sempre, paguei minha conta, e a Beck falou comigo "Lis, preciso de uma orientação sua, o Luciano mandou as exigências dele para o divórcio" ela revira o olho descontente, é impressionante, como conhecemos a verdadeira natureza das pessoas no ato de separação, todo aquele conto de fadas dos primeiros encontros, na maioria se dissipa total, e você parece que está conhecendo outra pessoa, alguém totalmente repulsivo.
"Está bem Beck, se quiser adiantar me enviando os termos dele, e depois sentamos e conversamos sobre, vou reservar um horário para te atender lá no escritório, assim podemos tratar isso com calma e sobriedade."
Antes do divórcio eu trabalhava em uma empresa, havia cursado direito aos trancos e barrancos, mas não trabalhava na área, meu ex sempre colocava para baixo, fazia eu me sentir insegura, então eu acabava que suprimindo minhas qualidades, depois que me separei, acabou havendo cortes na empresa, e eu mãe solo, não podia me dar o luxo de paralisar, resolvi integrar na minha área, mas não que seja fácil, a maioria dos meus clientes não tem condições de me pagar os honorários no ato da consulta, maioria geral só recebo no ato de conclusão do processo, o que acaba me gerando algumas demandas maiores, e às vezes passo apertos, mas nem por isso explano isso para ninguém, porque se tem uma coisa que aprendi ao longo desses anos é que ninguém além de ti mesma vai te desejar estar melhor, na verdade as pessoas na grande maioria, pode até querer nos ver bem, mas não melhores que elas, e muitas se sentem felizes por nos ver passando dificuldades, então não permito que ninguém acesse minhas fragilidades, eu lido e luto com elas sozinha.
E Eu não costumo advogar para familiares e amigos, fiz muita coisa por familiares (principalmente do meu ex) mas, depois de lidar com tanta ingratidão, decidi que não faria mais, ajudo, no que puder, mas sobre trabalho não misturo mais, prefiro indicar algum colega do que deixar que as coisas se misturem, mas no caso da Beck como de alguns outros era diferente, então eu até fazia questão de me envolver.
Tive um dia agitado, entre atendimentos, corri para almoçar com o Emanuel, e deixar ele na escola, voltei correndo porque tinha audiência, e depois finalizei algumas pendências, quando me dei conta da hora já era quase 18 horas, precisava correr para me arrumar e ir buscar a Cora e o bolo.
Nessa hora pensei pra que me comprometi a ir buscar ela às 19 horas, agora terei que me ajeitar na correria, corri para casa para tomar um banho, tinha que lavar meu cabelo, sequei rapidamente, eu sempre uso maquiagem no meu dia a dia, faz parte dessa nova Lisley que construí nesses últimos dois anos, estou sempre arrumada, cabelo, unhas, e mesmo que uma maquiagem leve, para não parecer cara de cansada, eu uso, me sinto bem, fazendo isso, terminei de me arrumar já era 18 horas e 55 minutos, dei um beijo no Emanuel, falei com a Cláudia que qualquer coisa me ligasse, peguei meu telefone, disquei pra Cora, avisando que estava saindo de casa e que chegaria lá uns minutinhos atrasada.
Quando ela entrou no carro e estávamos para sair a primeira coisa que ela me perguntou foi:
"Você ligou para o André?!"
Nossa, esqueci! Foi o que pensei, não verbalizei, mas minha expressão denotou isso.
"Ah Cora, acabei me esquecendo, tu ligou pra ele novamente?"
"Tentei, mas deu só caixa postal, e as mensagens nem estão chegando pra ele, então, ou ele desligou o telefone, ou está sem rede, pelo jeito a coisa foi séria, a Camila vai estar arrasada bem no dia de celebrar o aniversário dela, teremos que dar o nosso máximo pra deixar ela bem."
"Sim, teremos, mas vamos torcer pra tudo se ajeitar, e não vamos pintar um cenário negativo não, deixa as coisas fluírem..."
Ela deu uma risada, e eu fiquei sem entender, até ela abrir a boca, "deixa as coisas fluírem, falou a pessoa que não deixa nada fluir fora do cenário"
Revirei os olhos, lá vem querer fazer ponte em minha vida amorosa.
"Não começa, aliás, porque você não está indo com seu namorado, peguete, ficante Premium, ou algo assim?"
A Cora vive idealizando relações com o que ela chama de ficante Premium, que é basicamente o cara pra quem ela dá todo benefício de um namoro, mas passados quase sempre, o período de três meses, a coisa simplesmente desanda.
"Golpe baixo esse seu, não é peguete e já é quase um namoro sim, ele só não teve coragem suficiente ainda pra me pedir, mas para seu governo já estamos juntos há praticamente 3 meses, tenho certeza que o pedido vai vim, mas hoje ele tinha compromisso com a família dele, então ele não pode se juntar com nós."
"Hum, entendi"
Não sou alguém pessimista ou algo do gênero, quero ver ela feliz, mas sendo sincera, acredito que ele só a está enrolando, das duas últimas vezes que ela ia apresentar ele para nós, ele sempre deu desculpas, logo eu presumo, que ele não está depositando o mesmo que ela, e isso na verdade me incomoda bastante, porque a conhecendo bem, já sei o quanto isso irá mexer com ela e a desestabilizar.
"Já sei o que você está pensando Lis, mas pode ficar tranquila, eu não vou me magoar dessa vez, ele é um cara bacana."
"Tá bom Cora, você sabe que só quero te ver bem, não vamos comentar nada sobre mais não, e desculpa pela minha fala. Agora sobre o André e a Camila, vamos tentar fazer a noite dela o mais especial possível, porque com ele não indo, sabemos bem o quanto que isso vai magoar ela."
"Sim, vai, na verdade já está, hoje ela já chorou, quando passei lá para conversar com ela, a peguei com os olhos vermelhos e inchados."
"Oh céus! Relacionamentos causam desgastes, e vocês ainda ficam querendo que eu arrume um, misericórdia, quero nem saber, nunca mais, quero distância desses problemas!"
"Ah Lisley, o dia que o amor bater a sua porta, você me conta."
"Não Cora, ele pode até bater, mas a porta aqui, está sumariamente trancada, emperrada, muito bem fechada, ninguém entra aqui não."
Ela deu um suspiro de resignação, e seguimos para nossa tour da noite.
Conheci alguns caras, muitos por impulso delas, mas não passava de conhecer superficialmente, porque eu simplesmente não me permito ir além de uma conversa trivial, até fiz amizade, mas foi apenas isso, amizade com uns dois, eu não consigo me deixar envolver, e sendo bem sincera, estou tão calejada, que não me toco pelas cantadas baratas, e para mim, tudo que me dizem para flertar é só pra tentar me conquistar, tentar me seduzir, e depois se vangloriar que fui mais uma pra lista de conquistas deles, então, eu fechei meu coração e meu corpo para qualquer tipo de envolvimento.
"Aff, tem dois anos que você separou, e até hoje não se envolveu com ninguém, Lis, você tem que permitir alguém, você só ficou com aquele bosta do seu ex desde os seus 18 anos, ele te traiu, mas você tem o direito de ser feliz, de se envolver, de ter prazer com outros caras."
"Já cansei de falar que não preciso, de homem para ser, ou me sentir completa, e também não vou sair me entregando pra qualquer homem, só para ter umas horas de prazer, isso se tiver né, você sabe como sou em relação a isso, e não consigo e nem quero, deixar que qualquer um tenha acesso a mim, a minha energia..."
Ela me interrompe "qualquer um não né?! Você não deixa ninguém, poxa, no máximo você dá uns beijinhos e já corta os caras e coloca eles pra correrem."
"Ah porque simplesmente não faz diferença pra mim, por isso, digo que não quero me envolver com ninguém, e não vou, ponto."
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