
A Segunda Opção Nunca Mais
Capítulo 3
A acusação do Diogo pairou no ar, pesada e injusta.
A minha mãe enrijeceu, a sua expressão passando de tristeza para uma raiva fria.
"Diogo, a tua noiva sofreu um acidente grave. Ela podia ter morrido. E a tua primeira preocupação é acusar-me de a manipular?"
A voz da minha mãe era baixa, mas cortante.
"Tia Sofia, eu não quis dizer isso... Eu só estou preocupado. O pai dela disse que ela estava a falar em cancelar tudo. Isso não faz sentido."
"O que não faz sentido, Diogo, é que a tua noiva está numa cama de hospital e tu estiveste a noite toda a cuidar da tua prima."
"A Cláudia estava presa! O que é que eu devia fazer? Deixá-la morrer?"
A sua voz subiu de tom, cheia de uma justificação que me revirou o estômago.
"Ninguém te pediu para a deixares morrer. Mas talvez pudesses ter ligado. Talvez pudesses ter mostrado um pingo de preocupação pela mulher com quem vais casar."
"Eu estava ocupado! Não consegues entender isso? Foi uma emergência!"
Peguei no telemóvel da mão da minha mãe.
"Diogo."
A minha voz saiu surpreendentemente calma.
"Ana! Meu amor, estás bem? Eu estava tão preocupado! O teu pai assustou-me. O que é essa conversa de cancelar o casamento?"
"É exatamente isso, Diogo. Está cancelado."
"O quê? Porquê? Por causa da Cláudia? Eu já te expliquei, foi uma emergência! Eu salvei a vida dela!"
"Eu sei. E eu fico feliz que ela esteja bem. Mas tu fizeste uma escolha."
"Escolha? Que escolha? Não havia escolha a fazer!"
"Havia sempre uma escolha, Diogo. E tu não me escolheste a mim."
Desliguei a chamada antes que ele pudesse responder.
Entreguei o telemóvel à minha mãe e bloqueei o número dele. Depois o do meu pai. E o da Cláudia, para garantir.
Um silêncio pesado instalou-se no quarto.
A minha mãe apenas me observava, os seus olhos a transmitirem uma mistura de dor e orgulho.
"Tens a certeza, filha?", perguntou ela suavemente.
"Nunca tive tanta certeza de nada na minha vida."
Ela assentiu lentamente, um pequeno sorriso a formar-se nos seus lábios pela primeira vez naquele dia.
"Então vamos para casa. Assim que tiveres alta, vamos para a minha casa."
A ideia de ir para a casa da minha mãe, o pequeno apartamento onde cresci, trouxe-me um conforto inesperado. Longe do apartamento que eu e o Diogo partilhávamos, cheio de planos e promessas agora vazias.
Longe do meu pai e da sua nova família.
O meu pai, Rui, casou com a Helena, a mãe da Cláudia, poucos anos depois de se divorciar da minha mãe.
Para ele, a Helena e a Cláudia eram a sua família perfeita. Eu e a minha mãe éramos apenas um lembrete de uma vida anterior que ele preferia esquecer.
O Diogo, sendo o seu protegido no trabalho e o noivo da sua única filha, sempre se esforçou para agradar ao meu pai. E a melhor maneira de o fazer era cuidar da Cláudia.
A "frágil" Cláudia.
A raiva borbulhou dentro de mim, quente e amarga.
Não era a primeira vez. Lembrei-me de aniversários esquecidos, de jantares importantes cancelados, tudo porque a Cláudia tinha uma "crise".
E eu, como a "compreensiva" Ana, sempre desculpei. Sempre entendi.
Mas não mais.
O acidente de carro não partiu apenas a minha perna. Partiu a venda que eu tinha nos olhos.
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