
"A Secretária do Alfa"
Capítulo 2
Os corredores da Blackwood Corporation continuavam silenciosos demais.
Helena percebeu aquilo ao longo do restante do primeiro dia. Não importava o horário - manhã, almoço ou fim de expediente - ninguém falava alto naquele lugar. As conversas aconteciam em murmúrios rápidos, quase cautelosos, como se qualquer som excessivo pudesse incomodar alguém perigoso.
Ou despertar alguma coisa.
Megan, a assistente do setor financeiro, foi encarregada de mostrar o prédio para Helena depois da reunião inicial com Dante.
Era simpática, mas claramente nervosa.
- O senhor Blackwood gosta de organização - explicou enquanto caminhavam pelo terceiro andar. - Então tente evitar atrasos, mudanças de agenda e... bem... erros.
Helena soltou uma pequena risada.
- Ele parece um pouco rígido mesmo.
Megan não riu de volta.
Aquilo bastou para o desconforto retornar.
A sala de Helena ficava ao lado direto do escritório principal de Dante. Pequena, elegante e fria como todo o restante do prédio. Havia uma mesa preta impecavelmente organizada, um computador novo e uma parede inteira ocupada por arquivos físicos.
Ela deixou a bolsa sobre a cadeira.
- Alguma dúvida? - perguntou Megan.
Helena hesitou por um segundo.
- O senhor Blackwood sempre trata todo mundo daquele jeito?
A mulher pareceu escolher cuidadosamente as palavras.
- Dante exige muito dos funcionários.
O uso do primeiro nome chamou atenção imediatamente.
Não "senhor Blackwood".
Dante.
Como se dentro daquela empresa existissem regras diferentes.
- Ele mora aqui na cidade? - perguntou Helena.
- Na mansão Blackwood. Fica depois da floresta.
Outra vez a floresta.
Tudo naquela cidade parecia girar ao redor dela.
- E ele tem família?
Megan congelou por um instante.
Foi rápido.
Mas Helena percebeu.
- Você vai aprender que Hollow Creek não gosta de perguntas pessoais.
Aquilo soou mais como advertência do que conselho.
Antes que Helena pudesse insistir, Megan mudou completamente de assunto e começou a explicar a rotina administrativa da empresa.
Mesmo assim, a curiosidade permaneceu crescendo.
Durante o restante da manhã, Helena organizou documentos, respondeu e-mails atrasados e atualizou agendas corporativas. O trabalho em si era simples. Estranhamente simples para um cargo tão bem pago.
O problema era Dante Blackwood.
A presença dele parecia ocupar o andar inteiro.
Toda vez que a porta do escritório principal abria, os funcionários imediatamente ficavam tensos. O som dos teclados diminuía. As conversas morriam.
E Dante atravessava os corredores como se absolutamente tudo lhe pertencesse.
Talvez porque pertencesse mesmo.
Perto do almoço, Helena finalmente voltou a vê-lo mais de perto.
Ela carregava algumas pastas quando a porta do escritório dele se abriu repentinamente. Dante surgiu falando ao telefone, a expressão rígida.
- Não me importa o que o conselho decidiu - dizia ele em voz baixa. - O território continua fechado.
Território.
A palavra soou estranha.
Antes que Helena pudesse pensar melhor sobre aquilo, Dante ergueu os olhos.
E parou.
O silêncio no corredor pareceu imediato.
Os olhos cinzentos percorreram Helena lentamente.
Muito lentamente.
Ela sentiu o corpo inteiro enrijecer.
Havia alguma coisa errada naquele olhar.
Alguma coisa intensa demais.
Dante encerrou a ligação sem desviar os olhos dela.
Então se aproximou.
Helena tentou manter a postura profissional enquanto ele diminuía a distância entre os dois.
De perto, era ainda pior.
Ou melhor.
Dependendo da perspectiva.
O homem era absurdamente bonito de forma quase agressiva. Alto, ombros largos, movimentos controlados demais. Como alguém constantemente segurando a própria força.
O cheiro dele voltou a atingir Helena.
Madeira molhada.
Terra.
Frio.
E algo perigosamente masculino.
- Está se adaptando? - perguntou ele.
A voz grave atravessou Helena de maneira desconfortável.
- Sim.
Dante inclinou levemente a cabeça.
Como se analisasse não apenas suas palavras, mas sua respiração, seus batimentos, suas reações.
Helena apertou as pastas contra o peito.
- Precisa de alguma coisa, senhor Blackwood?
O maxilar dele tensionou discretamente.
Outra vez aquela estranha mudança de expressão surgiu.
Quase irritação.
Quase fome.
Então desapareceu.
- Não me chame assim.
Ela piscou.
- Como?
- "Senhor Blackwood."
A forma como ele pronunciou o próprio sobrenome parecia carregada de desprezo.
- Aqui dentro, todos me chamam de Dante.
Helena estranhou imediatamente.
Aquilo parecia íntimo demais.
- Certo... Dante.
O silêncio seguinte durou segundos longos demais.
Os olhos dele escureceram.
Literalmente.
Por um instante, Helena teve certeza de que as pupilas de Dante haviam se dilatado de forma anormal.
Então ele recuou um passo abruptamente.
Como se tivesse se forçado a isso.
- Termine os relatórios da sala leste até o fim do expediente - ordenou em tom frio novamente.
E foi embora.
Simples assim.
Helena permaneceu parada no corredor tentando entender por que aquela interação aparentemente banal havia deixado seu coração acelerado.
Ela voltou para a própria sala tentando ignorar a sensação.
Não conseguiu.
Durante a tarde inteira, percebeu olhares constantes vindos dos outros funcionários.
Principalmente depois que Dante passou a chamá-la diretamente pelo interfone pessoal em vez de enviar mensagens internas.
Megan apareceu perto das cinco horas trazendo café.
- Você chamou atenção rápido.
Helena ergueu os olhos do computador.
- O quê?
A mulher hesitou antes de responder.
- Dante raramente mantém secretárias por muito tempo.
Aquilo não ajudou.
- Por quê?
- Porque ele perde a paciência.
Helena soltou um suspiro cansado.
- Ótimo.
Mas Megan continuava séria.
- Só... tome cuidado.
- Com o quê exatamente?
A mulher demorou para responder.
- Com ele.
O tom baixo fez um arrepio atravessar Helena.
Antes que pudesse perguntar mais alguma coisa, a energia do prédio mudou abruptamente.
Foi quase físico.
Os funcionários ficaram tensos ao mesmo tempo.
Alguns levantaram os olhos em direção às janelas escuras.
Megan empalideceu.
- O que aconteceu? - perguntou Helena.
Então ouviu.
Um uivo.
Distante.
Vindo da floresta.
O som atravessou o prédio inteiro.
Profundo.
Animal.
Helena sentiu o sangue gelar.
E naquele mesmo instante, a porta do escritório principal de Dante se abriu violentamente.
Ele surgiu imóvel no corredor.
Os olhos presos na janela.
O rosto completamente transformado por uma expressão brutal.
Predatória.
Os funcionários imediatamente desviaram o olhar.
Mas Helena não conseguiu.
Porque pela primeira vez viu aquilo claramente.
Os olhos dele não eram cinzentos.
Sob a luz fria do corredor, brilhavam dourados.
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