
"A Secretária do Alfa"
Capítulo 3
O silêncio que tomou o corredor após o uivo pareceu sufocar o prédio inteiro.
Algo pesado.
Denso.
Mórbido.
Como se o som tivesse despertado alguma coisa escondida dentro daquela empresa.
Helena continuava parada ao lado da própria mesa, incapaz de desviar os olhos de Dante.
Dourados.
Os olhos dele estavam realmente dourados.
Não era reflexo da iluminação fria do escritório. Não era efeito da chuva atravessando os vidros. Não era possível.
Mas ela tinha visto.
Claramente.
Por alguns segundos, ninguém se moveu.
Os funcionários mantinham a cabeça baixa como se olhar diretamente para Dante fosse proibido. O ar parecia pesado demais, carregado por uma tensão invisível que Helena não conseguia compreender.
O homem perto da impressora sequer respirava direito.
A garota da recepção apertava os dedos ao redor da própria bolsa.
E Megan...
Megan parecia aterrorizada.
Então Dante piscou.
E o dourado desapareceu.
Os olhos voltaram ao tom cinzento frio de antes.
Controlado.
Humano.
Mas o estrago já estava feito.
Helena sentiu o coração bater forte demais dentro do peito.
Dante virou lentamente o rosto em sua direção.
Ela teve a sensação absurda de que ele conseguia ouvir cada batimento acelerado.
O maxilar dele se tensionou.
Algo perigoso atravessou sua expressão por menos de um segundo antes de desaparecer novamente atrás daquela máscara fria.
— Todos podem ir embora.
A voz grave ecoou pelo andar imediatamente.
Ninguém hesitou.
Cadeiras foram afastadas depressa.
Pastas recolhidas.
Computadores desligados às pressas.
O som dos saltos contra o piso parecia nervoso demais.
Helena não se moveu.
Observava tudo tentando entender por que todos agiam daquela forma.
Como se aquilo já tivesse acontecido antes.
Em menos de dois minutos, os corredores começaram a esvaziar. Funcionários recolhiam bolsas e documentos sem trocar palavras, como pessoas acostumadas a obedecer ordens rápidas.
Acostumadas a fugir.
Megan passou pela mesa de Helena visivelmente nervosa.
O rosto dela estava pálido.
— Você também deveria ir.
— Megan...
— Vá pra casa.
A insistência na voz dela parecia quase desesperada.
Helena franziu a testa.
— O que está acontecendo aqui?
Megan abriu a boca.
Mas não respondeu.
Os olhos dela deslizaram imediatamente até Dante.
Medo.
Aquilo era medo.
Antes que Helena pudesse insistir, Dante voltou a falar:
— Helena. No meu escritório.
O que???
O tom não soou como convite.
Soou como ordem.
Ela engoliu seco.
Sentiu dezenas de olhares rápidos recaírem sobre ela antes de desaparecerem junto dos funcionários saindo às pressas do andar.
Como se todos tivessem pena dela.
Ou soubessem alguma coisa que ela não sabia.
Quando entrou novamente naquela sala escura, sentiu a pressão retornar imediatamente.
O escritório parecia diferente à noite.
Mais frio.
Mais claustrofóbico.
A iluminação baixa deixava sombras espalhadas pelas paredes de madeira escura, e a floresta além das janelas parecia viva sob a névoa.
Dante permanecia de pé diante da enorme janela ao fundo, observando as árvores.
A chuva havia parado.
A névoa, porém, parecia ainda mais densa entre os troncos.
Grossa.
Quase sobrenatural.
Helena fechou a porta atrás de si.
O clique da fechadura pareceu alto demais.
— O que foi aquilo?
Dante não respondeu imediatamente.
Ela percebeu os dedos dele pressionando o peitoril da janela com força excessiva.
Forte demais.
Os nós dos dedos pareciam rígidos.
Como se estivesse contendo alguma coisa.
Ou alguém.
— Hollow Creek tem animais selvagens — respondeu por fim.
Mentira.
Helena reconheceu aquilo imediatamente.
A resposta veio rápida demais.
Calculada demais.
— Seus olhos mudaram de cor.
O silêncio seguinte foi perigoso.
Pesado.
Dante virou o rosto lentamente.
A expressão dele endureceu.
— Você deve estar cansada da viagem.
— Eu vi.
Ele caminhou na direção dela.
Devagar.
Controlado.
Os passos eram silenciosos demais para alguém do tamanho dele.
Helena tentou ignorar o instinto estranho que gritava para recuar.
Mas não recuou.
Alguma coisa dentro dela se recusava a demonstrar medo.
Mesmo quando todo o resto dizia que deveria.
Dante parou perto o suficiente para fazê-la prender a respiração.
O perfume amadeirado dele misturava-se ao cheiro frio da chuva.
Intenso.
Perigoso.
— Escute com atenção, Helena — disse ele em voz baixa. — Existem coisas nesta cidade que você não entenderia.
O tom grave atravessou a pele dela como um aviso.
Os olhos cinzentos permaneceram presos aos dela.
Intensos demais.
Como se tentassem ler seus pensamentos.
— Então me explique.
Algo brilhou no olhar dele.
Irritação.
Ou surpresa.
Talvez ambos.
Provavelmente ninguém o confrontava daquela forma.
— A curiosidade pode colocar você em perigo.
— Isso deveria me tranquilizar?
O canto da boca dele pareceu se mover por um segundo.
Não exatamente um sorriso.
Algo mais sombrio.
— Não estou tentando tranquilizar você.
Helena sustentou o olhar dele.
— Então o que está tentando fazer?
Silêncio.
Longo demais.
Os olhos dele percorreram lentamente o rosto dela, como se avaliassem alguma decisão interna.
Como se estivesse lutando contra o próprio impulso de dizer alguma coisa.
Então se afastou abruptamente.
— Vá para casa.
Helena cruzou os braços.
— Você não respondeu minha pergunta.
— E você continua insistindo em perguntas erradas.
A resposta fria despertou irritação imediata nela.
— Certo. Então talvez eu devesse começar a fazer perguntas para outras pessoas.
O efeito foi instantâneo.
O ambiente pareceu congelar.
Dante ergueu os olhos devagar demais.
Predatório outra vez.
Aquela palavra atravessou a mente dela imediatamente.
Predador.
— Não faça isso.
A intensidade na voz dele arrancou um arrepio involuntário de Helena.
Não parecia apenas um pedido.
Parecia ameaça.
Ou aviso.
Talvez os dois.
— Está me ameaçando?
Dante ficou em silêncio.
Os olhos dele escureceram levemente.
— Estou tentando manter você viva.
O coração dela falhou uma batida.
Por um segundo, o medo superou a irritação.
Porque ele não parecia exagerando.
Parecia sério.
Muito sério.
Helena sustentou o olhar dele por mais alguns segundos antes de pegar a própria bolsa.
Tentava ignorar o fato de que as mãos estavam levemente trêmulas.
— Boa noite, Dante.
Saiu da sala antes que ele respondesse.
Mas conseguiu sentir os olhos dele acompanhando cada passo.
Pesados.
Fixos.
Como se ele ainda estivesse observando mesmo depois da porta se fechar.
Do lado de fora, o estacionamento da empresa estava praticamente vazio.
A noite caíra rápido sobre Hollow Creek, cobrindo a cidade inteira com sombras azuladas e névoa baixa.
Os postes iluminavam apenas pequenos círculos no asfalto molhado.
O resto parecia engolido pela escuridão da floresta.
Helena apertou o casaco contra o corpo enquanto caminhava até o carro alugado.
Tentava racionalizar tudo.
Olhos dourados.
Funcionários assustados.
Uivos.
Advertências estranhas.
Nada daquilo fazia sentido.
Era absurdo.
Ridículo.
Sobrenatural demais para ser real.
Mesmo assim...
Ela sabia o que tinha visto.
Quando entrou no carro, percebeu outra coisa.
O silêncio.
Não havia sons da cidade.
Nenhum movimento.
Nenhuma voz.
Nenhum carro.
Nada.
Apenas o vento atravessando as árvores distantes.
Como se Hollow Creek prendesse a respiração durante a noite.
Helena ligou o motor rapidamente.
As mãos apertavam o volante com força maior do que deveria.
Durante o trajeto até o apartamento, teve a sensação constante de estar sendo seguida.
Não por um carro.
Por alguma coisa na floresta.
Várias vezes enxergou movimentos rápidos entre as árvores enquanto os faróis cortavam a estrada escura.
Sombras grandes demais.
Rápidas demais.
Em certo momento, algo correu paralelo ao carro por poucos segundos.
Helena apenas viu o vulto.
Alto.
Animal.
Ou humano.
Ela não conseguiu distinguir.
O coração disparou violentamente.
Acelerou imediatamente.
A estrada parecia longa demais.
Escura demais.
E a sensação de estar sendo observada não desapareceu nem por um segundo.
Só conseguiu respirar melhor ao estacionar diante do prédio pequeno onde morava.
Subiu as escadas depressa.
As chaves quase caíram de seus dedos nervosos enquanto destrancava a porta.
Entrou rápido.
Trancou novamente.
Depois mais uma vez.
E permaneceu alguns segundos imóvel dentro do apartamento silencioso.
Tentando ouvir a própria respiração desacelerar.
Então ouviu o som.
Um arranhão.
Vindo da janela da sala.
O coração dela disparou imediatamente.
Outro arranhão.
Lento.
Como unhas deslizando contra o vidro.
Helena caminhou até a cortina com cuidado.
Cada passo parecia alto demais no apartamento silencioso.
A racionalidade dizia que provavelmente era apenas um galho.
Mas o medo crescia mesmo assim.
Porque ela sabia que não havia árvores perto o suficiente da janela.
Ela afastou a cortina de uma vez.
Nada.
Apenas a rua vazia.
Neblina.
Silêncio.
Helena soltou o ar lentamente.
Ridículo.
Estava ficando paranoica.
Virou o corpo de volta para a sala.
E congelou.
Porque do lado de fora do prédio, parcialmente escondido pela sombra das árvores, havia um homem observando sua janela.
Alto.
Imóvel.
Mesmo à distância, Helena reconheceu imediatamente.
Dante Blackwood.
Ela prendeu a respiração.
O vento atravessou a rua silenciosa enquanto ele continuava parado ali.
Observando.
Sem piscar.
A expressão dele era impossível de distinguir daquela distância.
Mas havia alguma coisa errada na postura dele.
Tensa.
Alerta.
Como se não estivesse observando apenas ela.
Como se estivesse escutando alguma coisa além da floresta.
Então, lentamente, Dante virou o rosto em direção às árvores atrás dele.
O corpo inteiro dele pareceu tensionar.
Helena viu o instante exato em que aquilo aconteceu.
Como um animal percebendo perigo.
E por um segundo...
Os olhos dele voltaram a brilhar dourados na escuridão.
Um arrepio atravessou Helena inteira.
Então, sem qualquer explicação lógica, Dante desapareceu na floresta.
Rápido demais.
Impossível demais.
Como se a própria escuridão tivesse engolido ele.
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