
A Rejeitada Que Se Reergueu
Capítulo 2
Quando a polícia me encontrou, eu estava sentada no meio da lama, segurando o meu telemóvel com força. A chuva torrencial tinha parado, mas o céu continuava cinzento.
O meu carro estava meio submerso na água barrenta da estrada desabada, a poucos metros de distância.
Um dos polícias aproximou-se, envolvendo-me num cobertor.
"Senhora, está bem? Consegue dizer-me o seu nome?"
"Sofia. Sofia Marques." A minha voz saiu rouca. "O meu marido... Ele está a caminho?"
O polícia hesitou, o seu olhar desviou-se por um segundo. "A senhora conseguiu contactá-lo?"
Eu não respondi. Claro que não consegui. Liguei-lhe mais de vinte vezes.
Nesse momento, o rádio do polícia crepitou com uma voz. "Confirmado, o incêndio no armazém da Rua das Flores está controlado. A equipa do Capitão Miguel Alves fez um trabalho excelente. A proprietária, Clara, e o seu gato foram resgatados sem ferimentos."
Clara. O nome atingiu-me.
Miguel, o meu marido, era o capitão dos bombeiros.
O incêndio ficava na direção oposta à minha. A mais de uma hora de distância.
Senti um frio que não vinha da chuva.
"Senhora Marques," disse o polícia suavemente, "vamos levá-la para o hospital para um check-up. A senhora está grávida, precisa de ter cuidado."
Eu olhei para a minha barriga. O bebé que tínhamos esperado durante três anos.
A ironia era dolorosa. O meu marido, um herói para a cidade, não estava lá para a sua própria família.
No hospital, depois de confirmarem que eu e o bebé estávamos, por um milagre, bem, deram-me um quarto para descansar.
Peguei no meu telemóvel outra vez. Uma notificação. Era uma publicação de Clara nas redes sociais, com uma foto.
Nela, Miguel segurava o gato de Clara, o pelo do animal chamuscado. Clara estava ao lado dele, a mão a tocar-lhe levemente no braço, o rosto cheio de adoração.
A legenda dizia: "O meu herói, Miguel. Arriscou tudo por mim e pelo meu pequeno Floco. Não tenho palavras para agradecer."
Senti o meu estômago revirar.
Finalmente, o meu telemóvel tocou. Era Miguel.
"Sofia? Estás bem? Soube do deslizamento de terras. Estava numa emergência, não consegui atender."
A voz dele era apressada, quase mecânica.
"Estou no hospital," disse eu, a voz sem emoção.
"O quê? O bebé está bem?" Havia um pingo de pânico na voz dele agora.
"Sim. Estamos bem."
"Graças a Deus. Olha, desculpa. A Clara ligou-me em pânico, o armazém dela estava a arder. Eu tinha de ir."
"A Clara." Repeti o nome dela, sem inflexão. "A tua ex-namorada."
Houve um silêncio. "Sofia, não comeces. Foi um incêndio. É o meu trabalho."
"O teu trabalho era na zona leste hoje. O incêndio foi na zona oeste. Tu abandonaste a tua área de responsabilidade, Miguel."
"Eu fiz uma escolha! A vida dela estava em perigo!"
"E a minha não estava? Eu liguei-te vinte vezes, Miguel. Vinte. Eu estava presa num carro a encher-se de água."
A voz dele endureceu. "Estás a ser dramática. Estás viva, não estás? A Clara precisava de mim. Ela não tem mais ninguém."
Ri, um som seco e feio. "Então é isso. Vamos divorciar-nos, Miguel."
Ele explodiu. "Divórcio? Estás a falar a sério? Por causa disto? Estás grávida do nosso filho! Vais deitar tudo fora por um ataque de ciúmes?"
"Não é ciúme, Miguel. É uma escolha. Tu fizeste a tua. Agora eu estou a fazer a minha."
"És inacreditável! Estás a ser egoísta! Pensa no nosso filho!"
"Eu estou a pensar nele," respondi, a minha voz surpreendentemente firme. "Ele merece um pai que escolha a sua família em primeiro lugar."
Desliguei a chamada antes que ele pudesse responder.
Bloqueei o número dele.
Olhei para a minha barriga. Ele tinha razão, eu amava este bebé mais do que tudo.
E era precisamente por isso que eu não podia ficar. Eu não podia criar o meu filho num lar onde ele seria sempre a segunda opção.
A porta do quarto abriu-se e a minha sogra, Helena, entrou a correr, o rosto pálido de preocupação.
"Sofia! Meu Deus, estás bem? O Miguel acabou de me ligar, ele estava em pânico."
Antes que eu pudesse responder, o telemóvel dela tocou. Ela atendeu, colocando no altifalante por hábito.
A voz de Miguel, cheia de fúria, ecoou no quarto silencioso.
"Mãe! A Sofia enlouqueceu! Ela quer o divórcio! Podes acreditar? Depois de tudo o que fiz para salvar a Clara! A Sofia não tem um pingo de compaixão? A Clara podia ter morrido!"
Helena olhou para mim, os olhos arregalados, sem saber o que dizer.
A minha decisão solidificou-se. Já não havia volta a dar.
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