
A Redenção do Nosso Amor
Capítulo 2
O cheiro de fumaça ainda estava nas minhas narinas, o calor do fogo queimando minha pele. Eu podia ouvir os gritos da minha mãe, um som que rasgava a noite e a minha alma, e depois, o silêncio. Um silêncio terrível, pesado, que significava que eu estava sozinha.
No meio do caos, flutuando na escuridão antes da morte, eu vi o rosto dela.
Minha prima, Bruna.
Ela não estava chorando. Estava sorrindo. Um sorriso frio, vitorioso, enquanto as chamas dançavam em seus olhos, refletindo a destruição da minha casa, da minha família, da minha vida.
"Finalmente" , ela sussurrou, a voz dela um veneno no ar carregado de cinzas. "Tudo isso. Tudo que era seu. Agora é meu."
A dor era insuportável, mas a traição era ainda pior. Nós a acolhemos. Minha mãe, com seu coração de ouro, a tratou como uma filha. Meu pai, sempre tão protetor, abriu as portas da nossa casa e do nosso cofre para ela. E eu… eu a tratei como uma irmã.
E ela nos pagou com fogo e morte. Para herdar nossos bens. Para roubar a vida que ela tanto invejava.
O teto desabou. A escuridão me engoliu.
E então…
"Sofia? Filha, você está me ouvindo?"
Abri os olhos com um sobressalto, meu coração batendo descontroladamente no peito, o ar entrando nos meus pulmões com uma urgência desesperada. Eu não estava queimando. Não havia fumaça, nem gritos, nem o sorriso cruel de Bruna.
Eu estava na sala de estar da minha casa. A casa que eu vi queimar até o chão.
Minha mãe, Dona Lúcia, estava sentada no sofá à minha frente, o rosto dela cheio de preocupação. Seus olhos gentis, a expressão de compaixão que a tornava tão vulnerável.
"Você está pálida, querida. Aconteceu alguma coisa?"
Meu pai, Seu Carlos, estava em pé perto da janela, os braços cruzados. Ele me olhava com seu jeito pragmático, observador. Ele estava vivo. Eles estavam vivos.
"Estamos discutindo sobre a Bruna" , disse meu pai, a voz dele firme, exatamente como eu me lembrava. "Sua mãe acha que deveríamos trazê-la para morar conosco."
Bruna.
O nome caiu como uma pedra no meu estômago. Olhei ao redor da sala, a decoração familiar, o cheiro de café que minha mãe sempre passava à tarde. O calendário na parede. A data me atingiu como um soco.
Eu tinha voltado. Tinha voltado no tempo.
Para o dia exato. O dia em que a tragédia começou. O dia em que decidimos acolher a cobra no nosso ninho.
Há uma semana, a casa da família de Bruna pegou fogo. Um incêndio terrível que levou seus pais. Bruna foi a única sobrevivente. Agora, a família estava decidindo quem ficaria com ela.
"Eu sei que é uma situação delicada" , minha mãe continuou, a voz suave, cheia de uma piedade que, na minha vida passada, nos custou tudo. "Mas ela é nossa família, Carlos. Perdeu tudo. Não podemos virar as costas para ela."
Meu pai suspirou.
"Eu entendo, Lúcia. Mas é uma responsabilidade enorme. E a outra tia dela, a Márcia?"
"Márcia?" , minha mãe bufou com desdém. "Aquela mulher só pensa em dinheiro. Ela vai fazer da vida da Bruna um inferno. Aqui conosco, ela teria amor, teria uma família de verdade."
A campainha tocou, interrompendo a conversa. Meu coração gelou. Eu sabia quem era.
Minha mãe se levantou para atender a porta, o rosto já se abrindo em um sorriso de boas-vindas. E lá estava ela.
Bruna.
Ela parecia exatamente como na minha memória daquele dia. Pequena, frágil, vestindo roupas emprestadas que eram grandes demais para ela. Seus olhos estavam vermelhos e inchados de tanto chorar, o cabelo bagunçado. A imagem perfeita de uma vítima trágica.
Uma loba em pele de cordeiro.
"Tia Lúcia…" , ela soluçou, e se jogou nos braços da minha mãe, que a abraçou com força, afagando suas costas.
"Oh, minha querida. Calma, calma. Vai ficar tudo bem. Estamos aqui para você."
Bruna levantou o rosto do ombro da minha mãe e seus olhos encontraram os meus por cima do ombro dela. Por uma fração de segundo, a máscara de dor vacilou. Eu vi um brilho de cálculo, de avaliação. Ela estava medindo o terreno, testando a compaixão que planejava explorar até as últimas consequências.
Então, a máscara voltou ao lugar, e ela desabou em mais lágrimas.
Meu pai se aproximou, o desconforto evidente em seu rosto. Ele nunca foi bom com demonstrações exageradas de emoção.
"Bruna, sinto muito pela sua perda" , ele disse, formalmente.
Bruna se afastou da minha mãe e olhou para meu pai, e então para mim. Ela caminhou lentamente em nossa direção, os ombros encurvados, a cabeça baixa. Quando chegou na nossa frente, ela fez algo que chocou a todos.
Ela se ajoelhou.
"Tio Carlos, Tia Lúcia… Sofia…" , ela choramingou, agarrando a barra da calça do meu pai. "Eu não tenho para onde ir. Tia Márcia não me quer. Ela disse que sou um fardo. Por favor… por favor, me deixem ficar. Eu faço qualquer coisa. Eu limpo a casa, eu cozinho… eu não vou dar trabalho, eu juro. Só não me deixem ir com ela. Por favor."
Era uma atuação de mestre. Digna de um Oscar. Minha mãe já estava com os olhos marejados novamente, completamente conquistada.
"Levante-se, menina, pelo amor de Deus!" , disse minha mãe, tentando puxá-la para cima. "Você não precisa implorar. Esta é sua casa."
Ela olhou para o meu pai, um apelo silencioso. Meu pai olhou para mim. Na minha vida passada, esse foi o momento em que eu cedi. Eu, com minha ingenuidade e meu desejo de agradar, disse: "Claro, mãe. A Bruna pode ficar comigo no meu quarto" .
Minhas palavras selaram nosso destino.
Desta vez, as coisas seriam diferentes.
"Sofia?" , minha mãe me chamou, a voz cheia de expectativa. "O que você acha? Você e a Bruna sempre se deram bem."
Todos os olhos se voltaram para mim. Bruna, ainda de joelhos, me olhava de baixo para cima, o rosto molhado de lágrimas falsas, os lábios trêmulos. A imagem da predadora esperando o golpe final.
Eu respirei fundo, sentindo o poder daquela segunda chance correndo nas minhas veias. A memória do fogo, da dor, do sorriso dela. Tudo isso me deu uma força que eu não sabia que possuía.
Olhei diretamente nos olhos dela, passando por toda a encenação, e vi a escuridão que se escondia ali.
Protegerei minha família. Desta vez, eles não vão conseguir.
Minha voz saiu firme, clara e sem um pingo de hesitação.
"Não."
O silêncio que se seguiu foi mais chocante do que qualquer grito. Minha mãe ofegou. Meu pai ergueu as sobrancelhas. E Bruna, por um instante, esqueceu de chorar. Seus olhos se arregalaram, a surpresa e a raiva brilhando neles antes que ela pudesse esconder.
Eu tinha acabado de declarar guerra. E eu não ia perder.
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