
A Redenção do Nosso Amor
Capítulo 3
O "não" ficou pairando no ar da sala, pesado e definitivo. Minha mãe me olhava como se eu tivesse acabado de falar em outra língua.
"O quê?" , ela disse, a voz um sussurro incrédulo. "Sofia, o que você disse?"
"Eu disse não" , repeti, mantendo meu olhar fixo em Bruna, que agora tinha voltado a baixar a cabeça, os ombros tremendo como se estivesse soluçando de verdade. "Ela não pode ficar aqui."
Dona Lúcia se aproximou de mim, o rosto uma mistura de confusão e decepção.
"Filha, por que? O que deu em você? Nós acabamos de conversar sobre isso. Bruna é sua prima, ela precisa de nós."
A mão dela tocou meu braço, e senti o apelo desesperado em seu gesto.
"Olhe para ela, Sofia. A menina está destruída. Como você pode ser tão fria?"
A palavra "fria" me atingiu, mas não me abalou. Fria? Eu vi o que a "bondade" dela nos causou. Eu senti na pele.
"Mãe, eu tenho meus motivos" , respondi, a voz mais baixa, mas ainda firme.
"Que motivos? Que motivos poderiam ser mais importantes do que ajudar um membro da nossa família em desespero?" , a voz da minha tia-avó, Helena, soou da porta. Ela devia ter chegado com Bruna e esperado o momento certo para entrar.
Tia Helena era a matriarca da família, uma mulher que valorizava as aparências acima de tudo. O "o que os outros vão dizer" era seu lema de vida.
Ela entrou na sala, seguida por seu marido, Tio Roberto, ambos com expressões de reprovação.
"Lúcia, Carlos, que cena é essa? A menina de joelhos no chão? E Sofia…" , ela se virou para mim, o olhar duro. "Eu não esperava essa falta de compaixão de você. Sua prima acaba de passar pela pior tragédia que se pode imaginar, e você a rejeita? Que tipo de pessoa isso faz de você?"
Tio Roberto acrescentou, com sua voz pomposa: "Vocês têm a casa mais espaçosa, as melhores condições. É obrigação moral de vocês acolhê-la. O que o resto da família vai pensar se vocês a mandarem para a casa da Márcia?"
A pressão estava aumentando, exatamente como eu sabia que aconteceria. Eles estavam me encurralando, usando a culpa e a obrigação social como armas. Na minha vida anterior, eu teria desmoronado sob esse peso.
Mas agora, o peso da minha memória era muito maior.
Bruna, percebendo que tinha aliados, intensificou o drama.
"Não, tia Helena, a culpa não é da Sofia…" , ela disse com a voz embargada. "Eu sou um fardo. Eu entendo. Eu só causo problemas. Melhor eu ir embora…"
Ela fez menção de se levantar, um movimento calculado para gerar ainda mais pena.
Minha mãe, claro, caiu na armadilha.
"De jeito nenhum!" , ela exclamou, segurando o braço de Bruna. "Você não vai a lugar nenhum. Esta é sua casa."
Ela olhou para mim, os olhos suplicando. Depois olhou para meu pai, que até agora tinha permanecido em silêncio, observando tudo.
"Carlos? Diga alguma coisa."
Meu pai me encarou por um longo momento. Ele me conhecia. Sabia que eu não era cruel ou impulsiva. Havia algo no meu olhar, na minha determinação, que o fez hesitar. Ele viu que não era um capricho de adolescente.
Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo.
"Lúcia, Helena… esta decisão afeta a Sofia diretamente. Ela teria que dividir o quarto, o espaço dela. Se ela tem uma objeção tão forte, não podemos simplesmente ignorar."
Ele se virou para mim.
"Sofia. A decisão final é sua. Mas você precisa entender as consequências do que está dizendo. Se você disser não, sua prima vai para a casa da Márcia. E todos nós sabemos como a Márcia é."
A responsabilidade caiu sobre meus ombros. Era a última chance deles de me fazerem ceder. O ultimato.
Eu olhei para minha mãe, cujo rosto implorava por um "sim" . Olhei para meus tios, cujos rostos me julgavam. Olhei para Bruna, que escondia um sorriso de antecipação por trás de suas mãos. E olhei para meu pai, que me dava o poder da escolha, mas também o fardo dela.
Eu escolhi minha família. A minha família de verdade.
"Minha decisão não mudou" , falei, olhando diretamente para meu pai. "A segurança e a paz da nossa casa vêm em primeiro lugar. Bruna não pode ficar aqui."
Um suspiro coletivo de choque encheu a sala. Tia Helena abriu a boca para protestar, mas eu continuei antes que ela pudesse falar, mudando o rumo da conversa.
"Mas isso não significa que não vamos ajudá-la."
Todos me olharam, confusos.
Eu me virei na direção da porta, onde eu sabia que outra pessoa estava ouvindo, esperando sua deixa.
"Tia Márcia? Pode entrar, por favor?"
Tia Márcia, a irmã da mãe de Bruna, entrou na sala. Ela era uma mulher magra, de rosto azedo, cujos olhos brilhavam com ganância. Ela não tinha vindo com os outros. Eu tinha ligado para ela mais cedo, antes de descer para a sala, assim que "acordei" . Eu sabia que ela seria minha peça-chave.
"O que está acontecendo aqui?" , ela perguntou, fingindo confusão.
"Tia Márcia" , comecei, com uma voz calma e de negócios. "Nós estávamos discutindo sobre o futuro da Bruna. Sei que sua situação financeira não é fácil, e cuidar de uma adolescente tem seus custos."
Os olhos de Márcia se estreitaram, o interesse despertado.
"E daí?" , ela resmungou.
"E daí que meu pai e minha mãe estão dispostos a oferecer uma generosa ajuda de custo mensal para você cuidar da Bruna" , anunciei. "Um valor para cobrir todas as despesas dela, e mais um pouco pela sua dedicação e tempo. Digamos… dois salários mínimos por mês?"
O queixo de Tia Márcia caiu. Dois salários mínimos era mais do que ela ganhava no seu emprego de meio período. O rosto dela se transformou. A azedume deu lugar a um sorriso largo e ganancioso.
"Dois salários? Por mês? Para cuidar da minha própria sobrinha?" , ela disse, a voz subitamente doce. "Mas é claro! Eu faria isso de graça, ela é meu sangue! Mas já que vocês insistem em ajudar… eu aceito. Seria um prazer cuidar da pequena Bruna."
A dinâmica na sala mudou instantaneamente. A crise moral tinha se tornado uma transação comercial.
Bruna olhou para Tia Márcia, o pânico genuíno aparecendo em seu rosto pela primeira vez. Ela conhecia a tia. Sabia que aquele dinheiro não seria usado para seu bem-estar, mas para os luxos de Márcia. E sabia que a tia a controlaria com mão de ferro para garantir que a fonte de renda não secasse.
Ela tinha caído na minha armadilha. Eu não a trouxe para debaixo do meu teto, mas a coloquei em uma gaiola dourada, longe de mim e da minha família.
Meu pai me olhou com uma nova expressão. Uma mistura de surpresa e… respeito. Ele entendeu o que eu tinha feito. Eu não fui apenas cruel, eu fui estratégica.
A primeira batalha estava ganha.
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