
A Redenção de Orium
Capítulo 2
Odessa acordou assim que o sol raiou, como de hábito, porém, não tinha nada para fazer na choupana. Estava a vários ciclos lunares naquela pacata vila onde viveram os seus ancestrais.
Seu pai, Alfa Rules, era teimoso demais, nunca lhe dera ouvidos e a mandou para longe, o que não era, de forma alguma, uma solução que ela aprovasse.
Com poderia ter paz numa pequena vila mestiça, enquanto o seu povo corria perigo em meio a uma guerra que nem sequer era deles?
" Filha, você é uma Luna de nascimento, ficar aqui é perigoso para você. Quando a guerra acabar, mandarei te buscarem, mas, precisa me prometer que ficará em segurança, para que eu possa pensar direito!"
Depois de muito insistir em vão, acatou a vontade do pai. Ele era o Alfa, afinal, e ela não tinha escolha, a não ser, obedecê-lo.
Ela rezava aos deuses que ele estivesse em segurança. Há tempos não tinha notícias do clã.
Já que não podia treinar, ela corria.
Desde que chegou a vila, corria pelas plantações pela manhã, algumas vezes, na companhia dos cavalos, animais que ela admirava.
Após o desjejum, ela pegou um vestido antigo de sua avô, que acreditou ser mais adequado para o vilarejo e o vestiu. Não era seu estilo, mas era confortável e adequado àquele lugar.
. Queria dar uma volta para espairecer e parar de se preocupar tanto.
Alguns minutos de caminhada e ela se aproximou da beira de um riacho, onde enxergou um velho conhecido sentado numa cadeira de palha, ocupado com uma vara de pescar.
- Vô Ambrósio, como está?
- Oh, menina, estou como Deus quer! Hoje peguei poucos peixes! - Disse o velho com os olhos brilhando de alegria ao vê-la.
Ambrósio não era o seu avô, de fato, porém, era como os moradores da vila o chamavam. De idade incerta e rosto muito enrugado, ele era um humano muito gentil, viúvo de uma doce ômega que faleceu quando Odessa era pouco mais do que um filhote.
Ela olhou o balde ao lado dele, continha meia duzia de peixinhos pequenos, no entanto, suficientes para a alimentação de um humano.
- A sinhazinha pode me ajudar a carregar as coisas? Estou perdendo as forças, sabe?
Ela pegou o balde, a vara de pescar e uma bolsa de pano que ele levava para todo canto por onde andava e carregou com facilidade.
O idoso caminhava devagar, mancando de uma perna, e ambos seguiram para a casa dele. Uma casinha branca, na beira da estrada, com uma janela de madeira e um tronco na porta, que ele fazia de banco para sentar e observar a paisagem.
- Qual a sua idade, vô? - Odessa perguntou, sem cerimônias.
- Oh, "fia", tenho mais anos do que seria natural para a minha espécie. E "suncê" "fia"? Quando te conheci, era uma "pequitita" assim, "ó" - Ele fez com a mão a indicação de uma altura impossível de tão baixa. - Corria por aí, feito alma penada! Agora, está uma moça "cricida"e formosa, como era a sua mãe!
- Obrigada, vô. Eu tenho dezenove ciclos solares, em breve completarei vinte.
- Olha só, uma moça! Logo vai conhecer o seu companheiro, como deve ser, não é?
Ele fez sinal para que ela entrasse, mas, Odessa preferiu sentar-se no tronco.
- Espera um tantinho que esse veio já volta!
Odessa respirou fundo. Naquele lugar, parecia que a vida não tinha pressa de passar, era muito agradável e tranquilo, só que ela não conseguia se sentir em casa. Precisava de vida, de pessoas a sua volta, dos bailes do clã, as brincadeiras com amigos, o treino da guarda do Alfa...
O velho saiu da casa com duas canecas cheias de café, um costume que o humano trouxera de seu mundo e jamais aceitou abandonar.
O aroma da bebida era agradável, mas, o sabor era um tanto amargo. Vô Ambrósio sempre colocava um pouco de açúcar para as visitas, embora, ele preferisse puro.
Para a sua surpresa, a conversa com o idoso humano foi agradável e ela mal notou o tempo passar. Infelizmente, a paz foi quebrada pela chegada de um dos membros de seu clã.
Odessa levantou rapidamente, com um péssimo pressentimento.
- Luna Odessa, finalmente te encontrei! O clã está sendo atacado por um dos grandes Alfas!
- Atacado, mas, por quê?
- Seu tio não aceitou os termos de entrega do território sem libertar o seu pai. De madrugada, houve uma rebelião, os generais atacaram os lobos do Alfa Orium e agora, em retaliação, ele cercou o território. A ordem que ouvimos é que ele não fará prisioneiros dessa vez! Não deixam nem os filhotes passarem pela barreira em busca de asilo!
- Não podem fazer isso! O que será do nosso povo?
- O irmão do Beta foi morto, Luna, eles estão furiosos, creio que não deixarão ninguém sair vivo!
- E o meu pai? Como ele está?
- Sinto muito, Luna, mas Alfa Orium está com ele!
Odessa passou a mãos pelos cabelos, aflita, buscando mentalmente uma solução. Sentiu o velho humano segurar a sua mão e o encarou.
- Fia, às vezes, a vida leva a gente para onde não queremos ir, e as coisas parecem perder o rumo, até ficarmos sem chão. Mas, fia, tudo o que suncê precisa, está dentro de suncê!
O velho soltou a mão de Odessa, tirou um cachimbo de barro do bolso e pôs-se a acendê-lo, ignorando o turbilhão que passava na alma da jovem que o mirava confusa.
Ela se despediu rapidamente e correu na direção do estábulo. Escolheu o cavalo mais veloz para levá-la quanto antes para casa.
Aquele era o seu território, lar de seus amigos e familiares, ela não permitiria que exterminasse o seu clã inteiro como se fossem insetos!
Ela lutaria por aqueles que ama, e se preciso fosse, morreria com eles.
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