
A Rebelde Noiva De Don Carlo
Capítulo 3
Angela não atendeu ao telefone no dia seguinte, pois sabia que as amigas do trabalho e sua chefe iriam ligar sem parar para perguntar do seu paradeiro. Ela se trancou em casa naquele dia para pensar no que iria dizer e em como se despedir de toda sua vida e foi dormir após passar horas e horas refletindo. Ao despertar pela manhã do segundo dia, Angela ligou para sua chefe e anunciou sua demissão, no instante em que conseguiu encontrar coragem para isso.
— Angela? É você? — A voz da mulher do outro lado estava nervosa e isso fez a garota suspirar. Fernanda sempre parecia estressada com tudo, mas aquilo iria acabar com seu dia.
— Sim, sou eu, Fê. — Angela respondeu, com a voz baixa.
— Querida, que bom que você ligou. Eu estava preocupada. Você sumiu ontem e não deu notícias. O que aconteceu? — Fernanda perguntou, curiosa.
— Fê, eu tenho uma coisa para te dizer. Uma coisa difícil. — Angela estava nervosa e Fernanda sentiu isso.
— O que é? Fala logo, menina. Você está me deixando ansiosa. — Pediu com impaciente.
— Fernanda, eu... eu vou me demitir. Eu vou sair da revista. — comunicou a garota, finalmente.
— O quê? Como assim você vai se demitir? Você vai me deixar? Por quê?
Embora a notícia estivesse espalhada pela cidade e pela empresa, as pessoas, assim como Angela, acreditavam que Carlo a deixaria trabalhar. Então seria como se a vida da garota continuasse normalmente, apenas com um homem em sua casa, mas o trabalho de Cortez era muito mais complicado do que se poderia imaginar e Angela fora dos olhos dele poderia ser um grande problema, por isso ela tinha que se privar de muita coisa. Aquele trabalho principalmente.
— Porque vou me casar, Fê. Eu vou me casar com Carlo Cortez, se lembra? — ela disse, deixando a tristeza transparecer.
— Eu sei que está noiva do magnata, empresário e filantropo mais gato do país, mas isso não te impede de trabalhar — Fernanda disse, impressionada.
— Foi o que eu pensei também. — Angela disse, desanimada.
— Eu pensei que ia cobrir o seu próprio casamento. Você tem que entrevistar o seu noivo. Poderia contar tudo para os nossos leitores. Eles iriam adorar saber que a nossa jornalista mais talentosa vai se casar com um dos homens mais ricos e poderosos do país. — Fernanda disse, empolgada. Parecia querer passar isso à amiga pelo telefone.
— Não, Fê. Na verdade não posso nem contar algo sobre nós, pois ninguém pode saber a verdade de Carlo Cortez. — Angela disse, baixinho enrolando seu dedo no cordão de sua blusa de moletom.
— A verdade sobre Carlo Cortez? Que verdade, Angela? — A curiosidade e a desconfiança se mesclaram na voz de Fernanda e isso fez Angela soltar um pigarro.
— Nada, Fê. Nada. Esquece o que eu disse, tá? É só que... é só que eu quero me dedicar ao meu casamento e quero ter uma vida mais tranquila. — Ela fez bem em inventar uma desculpa, ainda que seu consciente implorasse pra pedir socorro.
— Angela, eu não estou entendendo. Você sempre foi uma jornalista apaixonada pelo seu trabalho. Sempre quis ser famosa e reconhecida. Vivia competindo pelas viagens pelo mundo para cobrir tudo e conhecer pessoas interessantes. Agora quer largar tudo isso por um casamento? — A perplexidade era nítida na voz de sua chefe.
— As pessoas mudam. Eu mudei.
— Ou enlouqueceu — Fernanda tentou ser descontraída naquele instante, mesmo que nada parecesse funcionar para aquilo. — Você ama esse doido?
Novamente o consciente de Angela quis gritar, mas ela sabia que era perigoso demais fazer aquilo.
— É, ele é completamente doido mesmo. Estou caidinha por ele — mentiu ela então quase vomitando com suas palavras.
— Certeza que você não está sendo manipulada por esse homem? — Fernanda agora assumia uma voz preocupada.
— Certeza, Fê.
— Angela, por favor, pense bem. Não jogue fora a sua carreira. É minha melhor escritora aqui. — Implorou a mulher.
— Bom, ao menos darei lugar para alguém com muito potencial.. Por favor, não insista.
As duas se calaram por um momento, sem saber o que mais falar até Fernanda suspirar do outro lado com sua derrota.
— Se prefere assim — iniciou. — Vá ao RH na próxima semana assinar seus papéis.
Angela afirmou com um murmurar e finalizou a ligação. Ela relaxou seus ombros tensos tentando acalmar seu corpo enquanto pensava no quanto já odiava seu noivo.
Após desligar o telefone, Angela começou a organizar as coisas do seu apartamento nas caixas que os homens de Carlo deixaram para ela empacotar suas coisas. Ela deveria se mudar para a mansão de Carlo, onde iria morar depois do casamento. Embora não quisesse deixar o seu apartamento, onde tinha vivido por tantos anos, tinha tantas lembranças e onde tinha sido feliz, ela não tinha escolha. A noiva tinha que obedecer ao Don, que estava decidindo tudo por ela.
Ao decorrer do dia, Angela guardou nas caixas as suas roupas, sapatos, os livros, quadros, enfeites, presentes que ganhou de seus amigos durante os anos na revista e todos os seus souvenirs. Ela olhava para cada objeto com carinho sentindo a enorme nostalgia que tudo ali trazia consigo e isso a fazia lembrar de quando e como os tinha comprado ou ganhado. Uma pontada de tristeza e saudade floresceu em seu peito e algumas lágrimas escapavam demonstrando sua angústia. Ela se questionava se algum dia ela voltaria a ver ou usar aquelas coisas, ou se algum dia voltaria a ser dona da sua própria vida.
Levou o dia inteiro para empacotar tudo e no final da tarde Angela estava cansada e faminta, mas não tinha vontade de comer ou fazer qualquer outra coisa. Ela só queria terminar logo e se livrar daquela tarefa de uma vez, como se fosse arrancar um curativo.
Quando terminou de fechar a última caixa e se sentou no sofá, a garota olhou para o apartamento vazio e silencioso. Ela se sentiu vazia e silenciosa também. Se sentiu morta por dentro. Angela pegou o celular e viu as várias chamadas perdidas e mensagens de texto. Todas dos seus amigos, dos seus colegas, dos seus parentes mais próximos querendo saber como ela estava, o que ela estava fazendo, onde ela estava indo. Alguns queriam parabenizá-la, elogiá-la, aconselhá-la. Eles queriam vê-la, abraçá-la, despedir-se dela, mas a garota optou por não atender nenhuma chamada, nem responder nenhuma mensagem. Ela não queria falar com ninguém, nem ouvir ninguém, nem ver ninguém. Ela não queria ser parabenizada, nem elogiada, nem aconselhada. Ela não queria ser vista, nem abraçada, nem se despedir. Só queria que tudo fosse um pesadelo e que acordasse logo de tudo aquilo.
Angela desligou o celular e o jogou no chão, se deitou no sofá e fechou os olhos para tentar dormir, mas não conseguiu. Ela só conseguiu pensar em Carlo e no que fazer com seu futuro marido para não viver em uma enorme prisão ao lado dele e isso a embalou por muito tempo, deixando-o encolhida naquele sofá pelo resto da noite.
No meio da madrugada, Angela ouviu um barulho e despertou. Tinha adormecido no sofá depois de um dia exaustivo e a escuridão já havia dominado todo seu conforto.
— Cumpriu as minhas ordens? — A voz de Cortez ecoou na sala escuro e ela distinguiu a silhueta dele sentada na poltrona à sua frente.
— Não devíamos estar sozinhos — ela o alertou e o homem riu. — Não é essa a regra do seu mundo estúpido?
— É, sim. Mas você já não é mais pura, certo?
— Isso me faz descartável? Porque eu ficaria muito feliz em provar que não sou mesmo.
Carlo se levantou e caminhou até ela na penumbra. Ao chegar perto, ele agarrou o queixo de Angela e se inclinou sobre ela.
— Eu posso fazer o que eu quiser com você, minha querida. Mas quero que você implore por mim na hora certa, por isso, por enquanto, eu só estou aqui para saber se você me obedeceu.
— Já sabe que sim — ela deu um tapa na mão dele e se soltou. — Ou acha que eu não sei que tem escutas por toda parte aqui?
— Muito bom, minha dama. Boa garota.
Carlo soltou o rosto da noiva e partiu do apartamento como se fosse um morador do local. Obviamente ele se portava assim, pois já tinha feito todos ali acreditarem em seu noivo com a garota do 28.
Angela deixou a respiração cansada escapar e se encolheu no sofá novamente.
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