
A Prateada: Destruída pelo Seu Alfa
Capítulo 2
Ponto de Vista: Sara
O silêncio era a coisa mais alta que eu já tinha ouvido.
Por vinte e três anos, minha mente tinha sido um espaço compartilhado. Minha loba era meu instinto, minha força, minha companheira constante. Agora, havia apenas uma caverna oca onde ela costumava estar.
Eu estava deitada no quarto principal da mansão do Alfa. Marcos dormia ao meu lado, sua respiração profunda e regular. A arrogância do homem era espantosa; ele dormia profundamente ao lado da mulher cuja alma acabara de mutilar.
Eram 2:00 da manhã.
Deslizei para fora da cama. Meu corpo parecia pesado e desajeitado sem a graça sobrenatural do lobo. Cada articulação doía. As cicatrizes de queimadura no meu braço do "acidente" repuxavam contra minha pele.
Arrastei-me em direção ao escritório dele. O assoalho rangeu, e eu congelei, meu coração saltando para a garganta.
Marcos não se mexeu.
Cheguei à pesada porta de carvalho de seu escritório. Eu não precisava de chave; sabia onde ele escondia a reserva. Mas lá dentro, fui direto para o cofre de parede atrás da pintura do Alfa fundador da alcateia.
O teclado brilhava em azul no escuro.
Não me preocupei com aniversários de namoro ou datas sentimentais. Marcos era pragmático ao extremo, mas seu ego era seu ponto cego. Ele não usaria nosso aniversário. Ele usaria a data em que garantiu seu "legado".
Digitei o aniversário de Oliver. A data em que a criança bastarda nasceu.
*Bip. Clique.*
A porta pesada se abriu. Quase ri. Previsível.
Minhas mãos tremiam enquanto eu puxava uma pilha de documentos. Eu não tinha muito tempo. Sentei no chão, usando o luar que filtrava pela janela para ler.
O primeiro papel era um relatório de check-up pré-natal de três anos atrás. Nome da Paciente: Raquel Melo.
O segundo era um teste de paternidade por DNA. *Pai: Marcos Ferraz. Probabilidade: 99,99%.*
Cobri minha boca para abafar um soluço. Três anos. Ele me pediu em casamento há dois anos. Ele estava dormindo com Raquel, uma mulher sem sangue de lobo, uma simples humana que rondava as fronteiras da alcateia, enquanto me cortejava.
Deslizei pelo iPad desbloqueado guardado no cofre. As fotos da nuvem sincronizavam automaticamente.
Havia centenas delas. Um garotinho com os olhos escuros de Marcos e o queixo pontudo de Raquel. Fotos deles no zoológico, em uma praia privada, em um apartamento que eu não sabia que existia.
Então encontrei os registros de bate-papo.
*Raquel: Quando você vai se livrar daquela vadia? Oliver precisa do pai dele publicamente.*
*Marcos: Em breve, meu amor. O incêndio está marcado para terça-feira. Se ela sobreviver, a prata cuidará do resto. Ela será uma Ômega inútil. Os Anciãos não deixarão uma aleijada ser Luna.*
*Raquel: É bom que ela não seja mais bonita. Eu a quero arruinada.*
*Marcos: Qualquer coisa por você.*
Senti enjoo. Eu queria vomitar ali mesmo no caro tapete persa.
Não apenas coloquei os documentos de volta. Tirei fotos de tudo com meu celular descartável. Cada documento, cada mensagem de texto condenatória. Então, acessei o e-mail dele no iPad. Rascunhei um e-mail agendado para o Conselho dos Anciãos e para o Beta Tomás — o segundo em comando de Marcos, um homem que valorizava a honra acima da lealdade. Anexei todos os arquivos.
Defini o horário de envio para as 10:00 da manhã do dia da Cerimônia de Marcação. Uma bomba-relógio.
Coloquei tudo de volta exatamente como encontrei.
Retirei-me para o banheiro e tranquei a porta. Disquei um número que não usava há anos.
— Enfermaria da Alcateia Inverno Branco — uma voz sonolenta atendeu.
— Olívia — sussurrei. — É a Sara.
Houve uma pausa, depois uma inspiração brusca.
— Sara? Meu Deus, ouvimos sobre o incêndio. Ouvimos que você estava... indisposta.
— Não estou indisposta. Estou quebrada — eu disse, minha voz tremendo. — Marcos usou prata em mim. Minha loba se foi.
— Ele fez *o quê*? — A voz de Olívia subiu, perdendo a calma profissional. — Isso é ilegal. Isso é um crime de guerra contra a Deusa da Lua!
— Escute-me. Preciso sair. Mas preciso fazer do jeito certo. Preciso de um transporte.
— Vou enviar uma unidade furtiva. Podemos estar na fronteira sul em dois dias.
— Dois dias — concordei. — A Cerimônia de Marcação é em três. Tem que ser antes disso.
— Vamos pegar você, Sara. Aguente firme.
Desliguei e destruí o cartão SIM, jogando os pedaços na privada e dando descarga.
Então, entrei no registro digital da alcateia no meu telefone legítimo. Acessei a página de modificação de status.
*Nome: Sara Campos.*
*Classificação Atual: Futura Luna / Loba de Alta Patente.*
*Ação: Rebaixamento Voluntário.*
*Nova Classificação: Ômega.*
Meu dedo pairou sobre o botão 'Enviar'. Em nosso mundo, classificação é tudo. Um Ômega é o mais baixo dos baixos — os servos, os fracos, os que comem por último. Ao fazer isso, eu estava me despindo de toda proteção legal.
Mas um Ômega também pode deixar o território da alcateia sem uma escolta completa se tiver uma permissão de trabalho. Era minha única maneira de chegar à fronteira sem levantar o alarme.
Pressionei 'Enviar'. A tela piscou em verde: *Aprovação Pendente.*
Voltei para a cama e deslizei para baixo das cobertas.
Na manhã seguinte, Marcos acordou e se espreguiçou, o braço passando pela minha cintura.
— Bom dia, linda — disse ele, beijando minha bochecha. Ele estendeu a mão para a mesa de cabeceira e pegou uma pasta que devia ter colocado lá enquanto eu estava no banheiro mais cedo.
— A médica enviou o relatório final — disse ele, o rosto uma máscara de tristeza. — Sua loba... ela morreu de complicações devido à inalação de fumaça. A prata foi uma tentativa de estabilizar seu coração, mas foi tarde demais.
Ele mentia tão facilmente. Era aterrorizante.
— Ah — sussurrei, olhando para baixo. — Eu... eu não consigo senti-la, Marcos.
— Eu sei. Sinto muito. — Ele me puxou para um abraço. — Mas temos que seguir em frente. A alcateia precisa de uma estrutura de liderança forte. Já que você não pode mais gerar filhos lobos...
Ele parou, esperando que eu preenchesse a lacuna.
Respirei fundo e olhei nos olhos dele.
— Deveríamos adotar — eu disse, minha voz firme. — Há tantos órfãos. Talvez possamos encontrar uma criança que precise de um lar.
Os olhos de Marcos brilharam. Foi a reação de um predador que acabara de ver a armadilha se fechar sobre sua presa.
— Essa é uma ideia maravilhosa, Sara. Você realmente é a mulher mais compreensiva que conheço.
Ele pensou que eu estava quebrada. Ele pensou que eu estava me submetendo.
Ele não sabia que eu estava afiando a faca.
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