
A Posse Dele, A Fuga Dela
Capítulo 2
Eu mesma cuidei dos meus ferimentos. O corte na bochecha, os hematomas nos braços. Cada nova marca era um lembrete fresco da traição de Breno. A dor física era uma dor surda, nada comparada à agonia no meu peito. Meu coração parecia um pedaço de vidro quebrado, as bordas afiadas cravando em mim a cada respiração.
Uma empregada bateu suavemente na porta, sua voz trêmula. "Sra. Sampaio... O Sr. Sampaio instruiu que seus pertences sejam movidos do quarto principal."
A humilhação final. Eu estava sendo despejada.
Antes que eu pudesse responder, a porta se abriu com violência. Bianca estava lá, de braços cruzados, com Débora Ferraz se escondendo atrás dela, espiando com olhos grandes e inocentes.
"Ainda aqui, Alina?", Bianca debochou. "Não ouviu meu irmão? Pegue suas coisas e se mude para o porão."
"Este ainda é o meu quarto", eu disse, minha voz baixa e perigosa.
Bianca riu, um som áspero e feio. "Não mais. Breno quer a Débora aqui. Com ele."
Apertei o roupão ao meu redor, tentando cobrir os hematomas que já estavam arroxeando na minha pele. "Saiam."
Débora recuou, uma imagem perfeita de uma corça assustada. "Bianca, talvez devêssemos ir. Não quero causar problemas."
"Ela é quem está causando problemas", retrucou Bianca, parando na frente de Débora protetoramente. Ela se virou para os empregados que hesitavam no corredor. "O que estão esperando? Movam as coisas dela! Agora!"
"Não se atrevam a tocar nas minhas coisas", avisei, minha voz soando com uma autoridade que eu não usava há anos.
Os empregados congelaram. Eles se lembravam de quem eu era. A filha do antigo chefe do Sindicato Sterling. A mulher que esteve ao lado de Breno enquanto ele subia ao poder.
O rosto de Bianca corou de raiva. Ela odiava que eu ainda tivesse esse poder sobre a equipe. "Você acha que ainda pode dar ordens? Você armou para a Débora, e o Breno sabe. Ele está do lado dela agora."
Ela se aproximou, sua voz caindo para um sussurro vicioso. "Ele está dando a ela este quarto. Ele está dando a ela tudo o que era seu."
Ela gesticulou para os empregados novamente. "Esta é uma casa dos Sampaio. Vocês vão obedecer às minhas ordens."
Desta vez, os empregados se moveram. Começaram a embalar minhas roupas, meus livros, minha vida, em caixas. Eu os observei, um vazio frio se espalhando por mim. Não adiantava lutar contra isso. Era uma batalha que eu não podia vencer.
Meu foco estava na guerra maior: a fuga.
Fiquei de lado, meu rosto uma máscara de indiferença, enquanto eles despojavam o quarto da minha presença.
Ouvi Bianca zombar quando pegaram uma simples caixa de música de madeira. "Olha esse lixo. Joguem fora."
Um sorriso amargo tocou meus lábios. Eu tinha comprado aquela caixa de música para Bianca em seu décimo aniversário. Eu a criei, a amei como uma irmã. E esta era a minha recompensa.
O porão era frio e úmido. O ar cheirava a mofo e terra. Meus pertences foram jogados em uma pilha no chão de cimento.
Quando me ajoelhei para organizar a bagunça, uma dor aguda atravessou meu joelho. Uma lesão antiga, de anos atrás. Eu tinha levado um tiro por Breno durante um tiroteio, uma cicatriz que eu usava com orgulho. Agora, ela só doía com a lembrança de um amor que estava morto.
Meus dedos roçaram em algo afiado. Era nossa foto de casamento, o vidro estilhaçado, a moldura rachada. Breno deve tê-la jogado aqui.
Meu coração se contraiu. Lembrei-me daquele dia tão claramente. O sol brilhava, e Breno me olhava com tanto amor que me tirava o fôlego. "Para sempre, Alina", ele sussurrara. "Você e eu, para sempre."
"Ainda apegada ao passado?"
Eu olhei para cima. Débora estava na porta, um sorriso presunçoso no rosto. Ela usava um dos meus roupões de seda.
"Olhe para você", disse ela, sua voz pingando falsa pena. "A grande Sra. Sampaio, morando em um porão. Enquanto eu estou na sua cama, com seu marido."
Eu a ignorei, pegando um suéter da pilha.
Seu sorriso desapareceu. Ela avançou e pisou com força na minha mão. A dor subiu pelo meu braço.
"Você é surda?", ela sibilou. "Estou falando com você."
Uma onda de pura fúria passou por mim. Agarrei seu tornozelo e torci. Ela gritou e caiu de joelhos, o rosto se contorcendo de dor.
"Aaaah!", ela gritou, um som projetado para trazer a casa inteira correndo.
Ouvi passos pesados descendo as escadas.
Breno invadiu o porão. Ele viu Débora no chão, agarrando o joelho, e seu rosto escureceu. Ele correu para o lado dela, envolvendo-a em seus braços.
"O que aconteceu?", ele exigiu, sua voz perigosamente baixa.
"Eu... eu só vim ver se ela estava bem", soluçou Débora, apontando um dedo trêmulo para mim. "Ela simplesmente me atacou. Sem motivo nenhum."
O olhar de Breno caiu sobre mim. "Por que você está no porão? Eu disse para eles te colocarem no quarto de hóspedes." Sua voz continha uma nota de irritação, como se minha localização fosse um inconveniente. Ele até olhou para minha perna. "A umidade faz mal para o seu joelho."
A falsa preocupação era nauseante.
Bianca entrou correndo atrás dele. "Breno! Ela atacou a Débora! Eu vi!"
O rosto de Breno ficou mais frio, seus olhos endurecendo enquanto olhava para mim. "Você não aprendeu a lição, não é?"
A lembrança das fotos humilhantes que ele tirou de mim passou pela minha mente. Eu mal conseguia respirar.
"Não fui eu", tentei explicar. "Ela..."
"Ela o quê?", Breno me cortou, sua voz pingando sarcasmo. "Ela se atacou? A Débora é gentil. Ela não machucaria uma mosca."
"Breno, por favor, a culpa é minha", sussurrou Débora, desempenhando seu papel perfeitamente. "Eu não deveria ter descido aqui. Eu vou embora. Não quero ser um fardo."
"Você não é um fardo", disse Breno, sua voz suavizando ao olhar para ela. Ele acariciou seu cabelo. "Esta é sua casa agora. Você não vai a lugar nenhum."
Ele se virou para mim, os olhos cheios de gelo. "Você se lembra das regras da família, Alina?"
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