
A Paixão Cega e a Traição
Capítulo 2
Fui acolhida pela família Almeida quando tinha dez anos.
Eles eram a família mais rica da cidade, e eu, a filha ilegítima do patriarca, Ricardo Almeida.
Desde o primeiro dia em que pisei na mansão dos Almeida, meus olhos se fixaram em um único homem.
Gabriel Santos.
O namorado da minha meia-irmã, Juliana Almeida.
Por sete longos anos, eu o persegui como uma sombra, uma cadela fiel que só tinha olhos para seu dono.
Para estar com ele, para vê-lo, fiz coisas que hoje parecem loucura.
No dia do vestibular, a prova mais importante da vida de qualquer estudante, eu simplesmente não apareci.
Fiquei do lado de fora do portão da escola, esperando que Gabriel aparecesse para buscar Juliana.
Quando ele chegou, corri até o carro, bati na janela e entreguei a ele uma garrafa de água.
"Gabriel, boa sorte para a Juliana na prova!"
Ele nem sequer olhou para mim. Apenas pegou a água e a colocou no banco do passageiro.
Juliana, sentada ao lado dele, riu com desdém.
"Sofia, você é patética. Para chamar a atenção do Gabriel, você até desistiu do seu futuro? Você é a piada do ano."
Todos ao redor riram.
Eles me viam como uma idiota, uma coitada apaixonada que faria qualquer coisa por um homem que nunca a olharia.
E por sete anos, eu alimentei essa imagem.
Até hoje.
Hoje, vi algo que mudou tudo.
Ou melhor, confirmou tudo.
Eu estava no banco de trás do carro do motorista da família, voltando de uma consulta médica.
Na esquina, vi o carro de Gabriel estacionado em um local discreto.
Dentro do carro, ele e Juliana se beijavam.
Não era um beijo delicado. Era um beijo faminto, desesperado.
As mãos dele estavam por baixo da blusa dela, e a cabeça dela estava inclinada para trás, em puro êxtase.
Eles achavam que ninguém estava vendo.
Mas eu vi.
Naquele momento, os sete anos de humilhação, de fingimento, de autossacrifício, tudo fez sentido.
Era tudo uma farsa.
Uma farsa da parte deles, e uma farsa da minha parte.
À noite, durante o jantar, a família estava reunida.
A Sra. Almeida, Lúcia, a matriarca, sentada na cabeceira da mesa com seu ar de superioridade.
Ricardo, meu pai biológico, ao seu lado, distraído com o celular.
Juliana, a princesinha da família, radiante como sempre.
E Gabriel, o genro perfeito, sentado ao lado dela, sorrindo e servindo-a.
Eu era a presença silenciosa, a filha bastarda que só estava ali para completar o quadro de uma "família feliz".
Senti um enjoo repentino, uma náusea que subia pela minha garganta.
"Com licença, não estou me sentindo bem."
Levantei-me e fui em direção ao banheiro do andar de baixo.
A porta do banheiro estava entreaberta. Quando me aproximei, ouvi vozes.
Eram Gabriel e Juliana.
"Você viu a cara daquela idiota hoje?" A voz de Juliana era puro desprezo. "Ela realmente acha que você vai se apaixonar por ela se ela continuar agindo como uma cachorrinha."
Uma risada baixa de Gabriel.
"Deixe-a pensar o que quiser. Ela é útil. Enquanto ela estiver obcecada por mim, sua mãe não vai suspeitar de nada. E seu pai... bem, seu pai gosta de ver a 'filha grata' dele. Isso me ajuda a conseguir os contratos que eu quero."
Juliana suspirou. "Eu sei, mas às vezes eu tenho nojo dela. O jeito que ela te olha..."
"Paciência, meu amor. Só mais um pouco. Assim que eu conseguir o controle do novo projeto do seu pai, não precisaremos mais dessa farsa. Eu serei seu, e somente seu. E a Sofia... ela pode voltar para o buraco de onde veio."
Meu estômago se revirou de verdade.
A náusea não era física. Era a podridão das palavras deles que me sufocava.
Eu me afastei da porta, silenciosamente.
Voltei para a sala de jantar, peguei minha bolsa na cadeira.
Lúcia Almeida me olhou com desaprovação.
"Onde você vai? O jantar ainda não terminou."
Forcei um sorriso, o sorriso dócil e submisso que eles estavam acostumados a ver.
"Desculpe, Sra. Almeida. Realmente não estou bem. Preciso ir para casa descansar."
Sem esperar por uma resposta, virei as costas e saí da mansão.
Enquanto caminhava pelo longo caminho de pedras do jardim, ouvi duas empregadas conversando baixo perto do portão.
"Coitada da Sofia. Tão apaixonada pelo Sr. Gabriel, mas ele só tem olhos para a Srta. Juliana."
"É o destino. Uma é a filha legítima, a outra é só... a outra. Nunca vai dar certo."
Um sorriso frio se formou em meus lábios.
Sete anos.
Por sete anos, eu fui a piada. A cadela lambe-botas. A idiota apaixonada.
Por sete anos, eles me usaram. Gabriel me usou para manipular Juliana e para subir na empresa. Juliana me usou para se sentir superior. Lúcia me usou para manter a imagem de uma família caridosa. Ricardo me usou para acalmar sua consciência culpada.
Eles pensam que eu sou uma peça no jogo deles.
Mal sabem eles que sempre fui eu quem esteve movendo as peças.
Aquele vestibular que eu abandonei?
Foi o primeiro passo do meu plano.
Um sacrifício tão grande, tão público, que ninguém jamais duvidaria da minha "paixão cega".
Ninguém jamais suspeitaria que por trás da garota ingênua e obcecada, existe uma mulher calculista, esperando o momento certo para a vingança.
A vingança pela minha mãe.
A vingança por tudo que eles me fizeram.
O jogo está apenas começando.
E eu vou destruir todos eles.
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