
A Paixão Cega e a Traição
Capítulo 3
Minha infância não teve bonecas ou contos de fadas.
Teve o cheiro de álcool barato e a voz desesperada da minha mãe, Clara.
Eu era a filha ilegítima de Ricardo Almeida, um homem que minha mãe conheceu quando era garçonete em um bar.
Ele prometeu o mundo a ela, mas tudo que lhe deu foi uma barriga e um pouco de dinheiro para desaparecer.
Quando eu nasci, minha mãe tentou de tudo para que Ricardo me reconhecesse.
Ela me levava para a frente da empresa dele, segurando um cartaz.
"Ricardo Almeida, assuma sua filha!"
Ela era expulsa pelos seguranças todas as vezes.
Ela me dizia, com os olhos cheios de uma mistura de esperança e loucura: "Sofia, você é minha única chance. Você é a chave para uma vida melhor. Você tem que entrar naquela família."
Quando eu fiz dez anos, a desesperança dela atingiu o auge.
Ela me levou para o shopping mais caro da cidade, onde ela sabia que a família Almeida estaria.
Ela me encontrou, Lúcia Almeida, a esposa de Ricardo, saindo de uma loja de grife com Juliana.
Minha mãe me empurrou para frente.
"Vá! Vá falar com ela!"
Eu congelei. Lúcia parecia uma rainha, e Juliana, uma princesa. Eu, com minhas roupas velhas e sapatos furados, era uma mendiga.
Vendo minha hesitação, minha mãe fez algo que eu nunca vou esquecer.
Ela me agarrou, correu para o segundo andar do shopping, me colocou sentada no parapeito de vidro e gritou.
"LÚCIA ALMEIDA! SE VOCÊ NÃO LEVAR A FILHA DO SEU MARIDO, EU A JOGO DAQUI DE CIMA!"
O shopping inteiro parou.
Todos olhavam para nós. Para a mulher louca e a criança assustada no parapeito.
Lúcia olhou para cima, o rosto uma máscara de fúria e humilhação.
Juliana, ao seu lado, apontou para mim e disse algo para a mãe.
Lúcia suspirou, derrotada pela vergonha pública. Ela disse algo para um segurança, que subiu correndo.
Minha mãe me entregou ao segurança e desapareceu na multidão.
Foi a última vez que a vi.
Naquele dia, Lúcia Almeida me levou para casa. No carro, ela me olhou pelo espelho retrovisor.
"Seu pai queria um cachorro novo. Acho que ter você por perto vai ser a mesma coisa. Ocupa espaço e talvez sirva para alguma coisa."
Juliana, com seus dez anos e seu vestido rosa cheio de laços, me olhou com nojo.
"Ela fede."
Essa foi minha recepção na família Almeida.
Assim que chegamos à mansão, Juliana soltou seu cachorro, um Doberman enorme, em cima de mim.
"Pega, Max! Pega a vira-lata!"
Eu corri pelo jardim, gritando, com o cachorro latindo e mordendo meus calcanhares.
Ninguém me ajudou. Eles ficaram na varanda, observando. Ricardo até riu.
Naquela noite, eu entendi as regras do jogo.
Para sobreviver, eu precisava ser invisível e útil.
Eu aprendi a limpar, a cozinhar, a fazer tudo que as empregadas faziam, mas sem receber salário.
Eu era quieta. Nunca pedia nada. Nunca reclamava.
Comia as sobras na cozinha, dormia em um pequeno quarto nos fundos, perto da lavanderia.
Minha única estratégia era a submissão.
Especialmente com Lúcia.
Quando ela ficava doente, com suas enxaquecas terríveis, eu ficava ao lado de sua cama por horas, em silêncio, trocando a compressa de água fria em sua testa.
Juliana entrava no quarto, reclamava do cheiro de remédio e saía para brincar.
Eu ficava.
Lentamente, Lúcia começou a me tolerar.
Ela não me via mais como um cachorro, mas talvez como um móvel útil. Um objeto obediente.
Ela começou a me dar as roupas velhas de Juliana e a permitir que eu me sentasse à mesa durante as refeições, desde que eu ficasse em silêncio.
Era uma forma de piedade, não de amor. Mas para mim, era uma vitória.
Meu status na casa subiu de "animal de estimação" para "parente pobre".
Tudo mudou novamente quando eu tinha dezessete anos.
Lúcia, já com seus quarenta e poucos anos, engravidou.
Foi uma gravidez de risco, e ela ficou de cama por meses.
O nascimento de Pedro Almeida foi a maior alegria da vida dela e de Ricardo.
Mas para Juliana, foi uma catástrofe.
Ela, que sempre foi o centro do universo, agora tinha um rival. Um irmãozinho que roubava toda a atenção.
"Eu odeio esse bebê!", ela gritava. "Vocês não me amam mais!"
A casa se tornou um campo de batalha. Ricardo e Lúcia mimavam o bebê, e Juliana se tornava cada vez mais cruel e mimada.
E eu?
Eu continuei no meu papel.
Cuidava de Lúcia, ajudava com o bebê e continuava minha perseguição silenciosa e obsessiva a Gabriel Santos.
Ele e Juliana namoravam desde o ensino médio. Ele era bonito, charmoso e vinha de uma família de classe média. Era o genro que os Almeida aprovavam.
Eu mandava mensagens para ele todos os dias.
"Bom dia, Gabriel. Tenha um ótimo dia."
"Gabriel, você comeu? Não se esqueça de almoçar."
"Boa noite, Gabriel. Sonhe com os anjos."
Ele nunca respondia.
Mas eu sabia que ele via.
E eu sabia que Juliana via. E isso a enfurecia, o que, por sua vez, a fazia se sentir superior.
Tudo era parte do plano.
Um plano que levou sete anos para ser construído.
Um plano regado a humilhação, paciência e um ódio tão profundo que se tornou o ar que eu respirava.
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