
A noviça e o lobisomem
Capítulo 2
CÂNDIDA
Cândida cresceu entre crianças que, como ela, foram enjeitadas e deixadas anonimamente na roda do convento.
Foi encontrada por Lúcia, a madre superiora, que se encantou com a beleza da menina alemã de apenas seis meses, de olhos azuis como o céu.
Lúcia a definiu como um anjo do Senhor e, ao segurá-la nos braços, sentiu que aquela criança seria uma mulher especial.
Embora conhecesse histórias sobre lupinos e lobisomens, Lúcia as considerava apenas folclore, histórias para assustar crianças das famílias riograndenses.
Ainda assim, algo naquela menina era diferente.
Decidida, criou Cândida com carinho, acompanhando de perto sua educação, e jamais a separou do colar com o pingente de lobo que a criança trazia ao ser encontrada. Intuía que aquele objeto era um elo importante com suas origens.
Sem saber seu nome, Lúcia a batizou de Cândida e emocionou-se profundamente durante o batismo.
A jovem cresceu rodeada de amor, chamava a madre superiora de madrinha e nutria um carinho especial por Frieda, a mulher que trabalhava voluntariamente no convento. Todas as crianças gostavam de Frieda, mas Cândida era inseparável dela, sentindo um afeto quase selvagem por sua presença.
Com o passar dos anos, Cândida percebeu que era diferente. Foi Frieda quem a guiou, contando-lhe fábulas sobre alcateias e sobre as peeiras, mulheres poderosas conhecidas como as mães de todos os lobos. Ensinou-a a confiar em seus instintos e no dom especial que habitava dentro dela.
Essas histórias eram contadas em segredo.
Se Lúcia desconfiasse, Frieda poderia ser expulsa do convento e jamais teria contato com a filha.
Por isso, combinaram guardar segredo.
Cândida dedicava-se aos estudos da Bíblia, e Lúcia passou a acreditar que ela se tornaria uma noviça abençoada, talvez uma futura freira e até madre superiora.
Para não contrariar a madrinha, Cândida aceitou estudar, mas recusou-se a cortar os longos cabelos loiros que desciam até a cintura.
- Não acredito que meus cabelos sejam pecado - disse com firmeza. - Posso prendê-los em um coque.
Sem argumentos, Lúcia aceitou.
Frieda soube dos planos da madre e sentiu-se dividida. Sabia que a filha deveria um dia retornar à Saxônia para enfrentar Hitler, mas, por ora, o convento ainda era um local seguro.
A verdade, porém, permanecia oculta.
Aos quinze anos, Cândida foi orientada a tirar o colar de lobo e usar uma corrente com crucifixo. Contrariada, guardou o colar dentro da Bíblia.
Cinco anos se passaram.
Agora com vinte anos, Cândida não desejava se ordenar freira. Seus poderes haviam se manifestado, mas ela os mantinha em segredo, temendo ser acusada de bruxaria.
Decidida, pediu permissão para passar alguns dias na casa de Frieda.
Espero que dê certo. Preciso dos conselhos dela, pensou.
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