
A noviça e o lobisomem
Capítulo 3
Ao deixar seus aposentos após a oração da manhã, Cândida caminhou em direção à sala da madre superiora. O coração batia acelerado dentro do peito. Nunca havia deixado o convento. Embora estivesse decidida a passar alguns dias na casa de Frieda, o mundo além dos muros sagrados ainda lhe causava um temor desconhecido - um frio que não vinha do corpo, mas da alma.
Ao entrar, ouviu a voz firme de Lúcia:
- O que quer, pequena criança?
Cândida aproximou-se em silêncio e beijou a mão da madrinha, como fizera durante toda a vida.
- Madrinha... - começou, respirando fundo. - Quero lhe pedir permissão para passar alguns dias na casa de Frieda. Se deseja que eu me torne freira, preciso conhecer o mundo fora daqui. Vivi vinte anos entre estas paredes... e não quero pecar diante de Deus escolhendo uma vocação sem certeza.
Lúcia ergueu o olhar, surpresa. Para ela, o mundo exterior era feito apenas de tentações, sofrimento e perdição. Um lugar onde almas se perdiam com facilidade. Ainda assim, Frieda era uma mulher em quem confiava plenamente. E, no fundo do coração, sabia que só quem conheceu o mundo poderia, de fato, renunciar a ele por vocação - como ela própria fizera.
- É um pedido justo - respondeu após alguns instantes. - Deixarei que vá. Mas, ao voltar, deverá se ordenar. No futuro, desejo que se torne madre superiora e cuide das irmãs em meu lugar.
- E se essa não for a minha vocação, madrinha? - Cândida ousou perguntar.
- É justamente por isso que permito sua ida - disse Lúcia com doçura. - Quando vir o que existe lá fora, voltará desejando a vida religiosa. Tenho certeza.
Cândida, porém, já não tinha essa convicção. Aceitara ser noviça por respeito e amor à mulher que a criara desde os seis meses de vida. Ainda assim, algo dentro dela sussurrava que sua missão era maior - e definitivamente não estava confinada àquelas paredes de pedra.
- Chame Frieda - pediu Lúcia. - Quero conversar com ela. Vocês duas têm grande afinidade... ela ficará feliz.
Cândida agradeceu, beijou-lhe novamente a mão e saiu. Ao vê-la partir, Lúcia sentiu um aperto profundo no peito. Um pressentimento silencioso lhe dizia que talvez aquela menina não retornasse jamais.
Quem ama, deixa ir, pensou.
Assim como chegou pela roda dos enjeitados... talvez saia pelos portões para nunca mais voltar.
Quando encontrou Frieda, a mulher percebeu de imediato a alegria estampada no rosto da jovem.
- Deve ser coisa boa - comentou. - Você parece pronta para cantar.
- Venha comigo até a madre e vai saber - respondeu Cândida, sorrindo. - E sei que vai gostar.
Curiosa e contagiada pela animação da filha, Frieda a acompanhou até a sala da madre superiora.
- Frieda - começou Lúcia -, serei direta. Cândida deseja passar alguns dias em sua casa para conhecer o mundo fora do convento e decidir se seguirá ou não a vida religiosa. Concordei com o pedido. E não há pessoa melhor do que você para cuidar dela.
- Aceito, madre - respondeu Frieda, controlando a emoção. - Será um prazer recebê-la.
Por dentro, o coração de Frieda vibrava. Havia segredos que não podiam ser revelados ali. Verdades que, se viessem à tona, colocariam todas em risco. A monarquia de Pedro II jamais poderia saber quem elas realmente eram.
- Então estamos combinadas - disse Lúcia. - Cândida, quando deseja ir?
- Hoje mesmo, madrinha... se for possível.
O coração de Lúcia apertou. Ainda assim, assentiu.
- Vá Frieda, cuide apenas de Cândida. Quanto às crianças, deixe comigo. E, por favor... mantenha as vestes de noviça.
Frieda concordou com um leve aceno de cabeça.
Enquanto Cândida se afastava para arrumar suas poucas coisas, Lúcia sentiu as lágrimas ameaçarem cair. Algo lhe dizia que aquela despedida era maior do que parecia.
O reino da Saxônia estava a salvo.
Por enquanto.
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