
A Noiva Que Não Te Esperou
Capítulo 2
Sofia sentia o cheiro familiar do mar e do protetor solar de Leo misturado com o perfume caro dele.
Estavam no carro dele, estacionado numa rua discreta com vista para a praia de Carcavelos, um dos seus refúgios secretos.
Cinco anos.
Cinco anos de encontros assim, escondidos.
Ela encostou a cabeça no ombro dele, sentindo o tecido macio da camisa dele contra a sua bochecha.
"Às vezes cansa, sabes?" ela sussurrou, mais para si mesma do que para ele.
Leo afastou-se um pouco, o suficiente para olhar para ela, a testa franzida.
"Cansa o quê? Estar comigo?"
A sua voz tinha um tom possessivo que ela conhecia bem.
Sofia forçou um sorriso.
"Não, parvo. Cansa esconder. Os meus pais já me perguntam quando é que vou assentar, arranjar alguém a sério."
Ela viu uma sombra passar pelos olhos dele, mas desapareceu tão rápido como surgiu.
Leo puxou-a para mais perto, beijando-lhe o cabelo.
"Nós somos a sério, meu amor. Mais a sério do que imaginas."
Sofia queria acreditar. Precisava acreditar.
"Mas quando é que vamos poder ser... normais? Um casal normal?"
Ele suspirou, um som que ela também já conhecia.
"Sofia, tu sabes como é. A minha carreira, a minha família... eles não iam entender agora. Mas vai acontecer. Prometo."
Ele beijou-a, um beijo longo e profundo que lhe roubou o fôlego e as dúvidas, pelo menos por agora.
"Vamos ter a nossa casa no Alentejo, lembra-te? Longe de tudo e de todos."
Ela aninhou-se nele, agarrando-se àquela promessa como a um bote salva-vidas.
A festa na Comporta era o tipo de evento que a família de Leo adorava.
Casas de praia luxuosas, música ambiente, pessoas bonitas e bronzeadas a rir com copos de vinho branco na mão.
Sofia sentia-se um peixe fora de água, mas Beatriz, a irmã de Leo e sua melhor amiga, insistira que ela viesse.
Leo estava algures com os amigos surfistas, provavelmente a gabar-se das últimas ondas.
Sofia precisava de ir à casa de banho e, ao passar por um grupo de rapazes perto da piscina, ouviu a voz de Leo.
Parou instintivamente, escondida por um vaso de plantas grande.
"Então, Leo, e a Sofia? A coisa está a ficar séria?" perguntou um deles.
Leo riu, um som que fez o estômago de Sofia revirar.
"A Sofia? Ela é incrível, uma experiência fantástica. Estou a aprender muito com ela."
Outro amigo assobiou. "A aprender o quê, safado?"
Mais risos.
"Não, a sério," continuou Leo, "ela é ótima. Mas vocês sabem... a Carol volta de Milão no próximo mês. Tenho que preparar o terreno. A Sofia é tipo... um ensaio geral. Para quando a verdadeira estrela chegar."
O mundo de Sofia parou.
Ensaio geral.
Experiência.
As palavras ecoavam na sua cabeça, cada uma como um golpe.
Ela sentiu o sangue fugir-lhe do rosto.
Recuou devagar, sem fazer barulho, e correu para o mais longe possível daquela conversa, daquela casa, daquela mentira.
Lembrou-se de como se conheceram.
Ela tinha acabado de abrir a sua pequena pastelaria em Alfama, e ele entrou, todo bronzeado e sorridente, pedindo "o doce mais lisboeta" que ela tivesse.
Ele voltou todos os dias durante uma semana.
Depois começou a aparecer à hora de fecho, ajudando-a a arrumar, falando sobre as ondas, sobre os sonhos dele.
Ele era mais novo, cheio de uma energia contagiante.
Ela, vinda de uma desilusão amorosa que a deixara cínica, resistiu.
Mas Leo era persistente.
Ele aparecia em Carcavelos quando ela ia visitar os pais, "por coincidência".
Ele deixava bilhetes no para-brisas do carro dela.
Ele ligava só para ouvir a voz dela.
Até que ela cedeu.
E agora, cinco anos depois, descobria que tudo não passara de um "ensaio".
Ela fora usada.
Os cinco anos mais intensos da sua vida, construídos sobre uma mentira.
A dor era física, apertando-lhe o peito, dificultando a respiração.
Voltou para Lisboa de táxi, sentindo-se doente.
Os pais dela, preocupados com o seu ar abatido nos dias seguintes, voltaram a tocar no assunto do casamento.
Havia um filho de uns amigos, um rapaz sério, arquiteto, Diogo.
Ela lembrava-se vagamente dele de um curso de fotografia que fizera anos antes.
Naquele momento, qualquer coisa parecia melhor do que a realidade que acabara de descobrir.
"Está bem," ela disse aos pais, a voz vazia. "Marquem um jantar."
Se a vida dela era uma farsa, então que fosse uma farsa completa.
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