
A Noiva que Disse Não
Capítulo 2
O dia do meu casamento com Miguel deveria ter sido o mais feliz da minha vida.
Mas a única coisa que senti foi um frio que me gelava os ossos, um frio que nem o sol quente de Lisboa conseguia afastar.
Estávamos no altar, o padre falava, mas a minha mente estava longe.
Estava a pensar no dia anterior, quando apanhei Miguel no seu escritório.
Ele estava com a sua "melhor amiga", Sofia.
Ela estava sentada na sua secretária, a rir de algo que ele disse, com a mão a tocar-lhe o braço de uma forma demasiado familiar.
Eu fiquei à porta, a observá-los.
Eles não me viram.
O ar entre eles era íntimo, confortável. Era o tipo de intimidade que nós os dois já não tínhamos há muito tempo.
"Miguel," eu disse, a minha voz a sair mais firme do que eu esperava.
Ele saltou, afastando-se de Sofia rapidamente.
"Lia! O que estás a fazer aqui?"
"Vim trazer-te o almoço," disse eu, levantando o saco. "Mas parece que já estás ocupado."
Sofia levantou-se, o sorriso a desaparecer do seu rosto.
"Lia, não é o que parece. Estávamos só a falar do projeto."
Eu olhei para ela, depois para o meu noivo.
"O casamento é amanhã, Miguel. Pensei que podíamos passar algum tempo juntos."
Ele passou a mão pelo cabelo, um gesto que fazia quando estava nervoso.
"Eu sei, meu amor. Desculpa. O trabalho tem sido uma loucura. Prometo que depois do casamento, compenso-te."
Ele veio até mim e tentou beijar-me, mas eu virei a cara.
O cheiro do perfume de Sofia estava nele.
Eu não disse mais nada. Apenas deixei o almoço na sua secretária e saí.
Agora, de pé no altar, as suas palavras ecoavam na minha cabeça.
"Aceita Miguel como seu legítimo esposo?" perguntou o padre.
Todos os olhos estavam em mim. A minha mãe sorria, com lágrimas nos olhos. O pai de Miguel parecia orgulhoso.
E Miguel olhava para mim, o seu rosto uma máscara de amor e expectativa.
Mas eu via a mentira por trás dos seus olhos.
Lembrei-me de todas as noites em que ele chegou tarde, de todas as chamadas "de trabalho" a meio do jantar, de todas as vezes que o nome de Sofia aparecia no seu telemóvel.
Lembrei-me de como ele minimizava as minhas preocupações, chamando-me de ciumenta e insegura.
A dor no meu peito era uma pressão constante.
Abri a boca para dizer "Sim". Era o que toda a gente esperava. Era o caminho mais fácil.
Mas as palavras não saíram.
Em vez disso, uma única palavra escapou dos meus lábios, clara e firme no silêncio da igreja.
"Não."
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