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Capa do romance A NOIVA FUGIU PELO ESPELHO

A NOIVA FUGIU PELO ESPELHO

Fanny Marchand foge de um casamento forçado no século XIX ao atravessar um espelho mágico, despertando na cobertura de François Dubois em pleno século XXI. Ele é um CEO cético e amargurado por traições, mas vê sua rotina virar um caos com a chegada da dama vitoriana. Enquanto Fanny descobre as tecnologias modernas, François se encanta pelo seu jeito clássico. Contudo, o passado e o objeto místico ameaçam separá-los, provando que o amor ignora as barreiras do tempo.
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Capítulo 1

Paris (1824)

O

grande salão do solar Marchand estava iluminado por dezenas de candelabros dourados, lançando um brilho amarelado sobre as paredes de estuque detalhadamente pintadas. O cheiro de madeira polida e lareiras acesas preenchia o ar, mas para Fanny, tudo parecia opressor.

Ela estava ali, vestida com seu melhor vestido de seda azul, rendas brancas adornando as mangas e o decote alto. As pérolas herdadas de sua mãe enfeitavam seu pescoço como grilhões, e suas mãos estavam frias como mármore, apertadas sobre o colo.

- Minha querida filha, quero que conheça Sua Graça, o Duque de Montreuil - disse seu pai, com uma satisfação evidente.

Fanny engoliu em seco, sentindo o estômago revirar antes mesmo de se virar para encarar o homem.

E então, ali estava ele.

Baixo, de ombros largos e caídos, a barriga pronunciada se destacava sob o casaco negro. Seu rosto era enrugado como couro envelhecido, a pele avermelhada pelas décadas de vinho barato. O bigode amarelado escondia parte de seus dentes apodrecidos, e o cheiro de tabaco misturado a perfume barato invadiu as narinas de Fanny, causando-lhe náuseas imediatas.

- Uma flor tão jovem e doce - o duque murmurou, estendendo sua mão seca e manchada para tocar a dela.

Fanny estremeceu ao sentir o toque asqueroso.

- Mal posso esperar para tomá-la como esposa, Marchand. Garanto que cuidarei bem dela.

O ar fugiu dos pulmões de Fanny. Seu coração martelava no peito, e o pavor subiu por sua espinha como um arrepio de morte. Seu pai sorria satisfeito.

Não.

Ela não podia se casar com aquele homem.

A conversa seguiu entre os homens, os detalhes do contrato nupcial sendo discutidos enquanto Fanny se sentia sufocada. O salão girava ao seu redor. Precisava sair dali.

Com passos rápidos, quase tropeçando nas camadas do vestido, ela correu para seu quarto, trancando a porta atrás de si. Suas mãos tremiam ao se apoiar na penteadeira de mogno.

Seus olhos se ergueram, encontrando o espelho dourado à sua frente.

O espelho de sua tia Cloudeth.

Aquele espelho sempre estivera ali. Fora de sua tia, que desaparecera misteriosamente anos antes. Agora, refletia apenas seu próprio olhar aterrorizado, o rosto pálido e as lágrimas ameaçando cair.

- O que eu faço? - sussurrou para si mesma, encarando seu reflexo.

Foi quando aconteceu.

O espelho brilhou.

Não um reflexo da vela ao lado, não um truque de sua mente perturbada. O ouro reluziu, como se dentro dele houvesse algo além da moldura.

Fanny se afastou de um salto, apertando o próprio peito.

E então, no meio do reflexo, um homem apareceu.

Alto, vestindo roupas estranhas. Cabelos escuros bem cortados, um rosto anguloso e forte. Os olhos azuis penetrantes pareciam fitá-la como se realmente pudesse vê-la.

Ela sufocou um grito.

O homem franziu a testa, se aproximando no reflexo.

- Mon Dieu... você é real? - sua voz grave atravessou o espelhoz

Fanny arregalou os olhos.

Seu coração disparou.

Aquilo era bruxaria?

Ela estendeu os dedos, tremendo, para tocar a superfície reluzente...

E naquele instante, tudo mudou.

Paris, XXI

As luzes da cidade refletiam-se nas amplas janelas do meu apartamento, lançando sombras douradas sobre o chão de mármore. Mas eu não via nada disso.

Meu olhar estava fixo na cena diante de mim.

Minha esposa.

Meu melhor amigo.

Nos braços um do outro.

O tempo pareceu desacelerar.

Élodie não esboçou nenhuma reação. Nenhum pingo de culpa, nenhum sinal de arrependimento. Apenas um olhar entediado, como se minha presença fosse um incômodo menor, uma inconveniência.

Laurent, por outro lado, moveu-se desconfortável.

Mas não me importava.

O estrago estava feito há muito tempo.

- François... ce n'est pas ce que tu crois. (François... isso não é o que parece.)

Meu riso seco ecoou pelo cômodo.

- Vraiment? Alors dis-moi, Élodie... à quoi cela ressemble-t-il pour toi? (É mesmo? Então me diga, Élodie... o que isso parece para você?)

Ela suspirou, sentando-se na cama e cobrindo o corpo com o lençol de linho. Nossa cama.

- Ne dramatise pas. Ce n'était qu'une erreur. (Não dramatize. Foi apenas um erro.)

Erro?

A frieza em sua voz me fez apertar os punhos.

Laurent finalmente abriu a boca, a voz hesitante.

- François, écoute... (François, escute...)

Levantei a mão, cortando sua fala no mesmo instante.

- Ne me parle pas. (Não me dirija a palavra.)

Meu olhar gelado fez seu rosto empalidecer.

Respirei fundo, sentindo uma calma perigosa tomar conta de mim.

- Tu es viré. (Você está demitido.)

Laurent arregalou os olhos.

- Quoi?! *(O quê?!)

Minha voz permaneceu firme, implacável.

- Tu es viré. Je ne veux plus jamais te voir. Ni ici, ni dans mon entreprise. Tu n'existes plus pour moi. (Você está demitido. Nunca mais quero vê-lo. Nem aqui, nem na minha empresa. Você não existe mais para mim.)

A boca dele se abriu e fechou algumas vezes, sem conseguir argumentar.

Eu me virei para Élodie.

Ela ainda me olhava com indiferença.

- François, tu es ridicule. Tout ça pour un moment d'égarement? (François, você está sendo ridículo. Tudo isso por um momento de deslize?)

Meu maxilar travou.

- Nous divorçons. (Estamos nos divorciando.)

Dessa vez, sua expressão mudou.

Seus olhos se estreitaram, como se finalmente percebesse que eu não estava brincando.

- Tu ne peux pas être sérieux. (Você não pode estar falando sério.)

Cruzei os braços, friamente.

- Tu n'as jamais voulu être mon épouse. Alors ne fais pas semblant d'être blessée. (Você nunca quis ser minha esposa. Então não finja estar magoada.)

Ela abriu a boca para responder, mas eu ergui a mão novamente.

- Quand je reviendrai, je ne veux plus te voir ici. (Quando eu voltar, não quero mais te ver aqui.)

Seus lábios se apertaram.

- Et si je refuse de partir? (E se eu recusar a sair?)

Soltei um riso sem humor.

- Tu n'as pas le choix. (Você não tem escolha.)

Peguei meu casaco e andei até a porta, sem olhar para trás.

- Profitez bien de votre compagnie. (Aproveitem bem a companhia um do outro.)

E então, saí.

Horas Depois...

Caminhei pelas ruas de Paris sem destino.

O ar noturno era frio, mas eu não sentia nada. Nenhuma brisa, nenhum cheiro, nenhum som além do eco dos meus próprios passos.

Eu não sabia para onde ia.

E, ainda assim, meus pés me levaram até ali.

O Louvre.

As grandes portas do museu estavam abertas para a última visitação do dia, e eu entrei sem pensar.

Meus olhos vagaram pelo salão escuro e silencioso, pelas pinturas, esculturas e relíquias de séculos passados.

Mas foi então que eu o vi.

Um espelho.

Antigo.

Dourado.

Alto, ornamentado, reluzente sob as luzes do salão.

Algo nele parecia... errado.

Me aproximei.

Minha respiração ficou pesada.

Havia algo na forma como o ouro de sua moldura reluzia... como se pulsasse, como se vivesse.

Então...

A superfície brilhou.

E, no reflexo...

Vi uma mulher.

Uma mulher que chorava desesperada.

Uma mulher que não pertencia a este século.

Meus olhos se arregalaram.

- Mon Dieu... (Meu Deus...)

Ela ergueu a cabeça.

Nossos olhares se encontraram.

E, naquele momento, tudo mudou.

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