
A Noiva Abandonada
Capítulo 2
Cinco anos.
Cinco anos se passaram, mas a noite de núpcias ainda queimava na memória de Sofia como uma ferida aberta.
Pedro, seu amor de infância, o homem com quem ela cresceu e para quem foi prometida, olhou para ela com olhos vazios naquela noite.
"Quem é você? O que está fazendo no meu quarto?"
A confusão em seu rosto parecia tão real, tão genuína.
Mas era uma mentira. Uma mentira cruel que a destruiu.
Ele a empurrou para fora do quarto, na frente de todos os convidados, de toda a família. Ele a devolveu ao seu pai como se ela fosse uma mercadoria com defeito, declarando uma amnésia súbita e completa.
Naquela noite, Sofia não perdeu apenas o noivo, ela perdeu a dignidade.
Tornou-se a piada da cidade, a noiva abandonada, a mulher humilhada.
Agora, cinco anos depois, o destino a colocava frente a frente com ele novamente, e o cenário não poderia ser mais irônico. Uma festa de gala, cheia de gente rica e importante. Sofia estava ali, quieta em um canto, observando as pessoas, quando sentiu um arrepio.
Ele entrou no salão como se fosse o dono do lugar. Pedro estava diferente. Mais maduro, vestindo um terno caro que gritava sucesso. Ao seu lado, pendurada em seu braço, estava Camila.
Camila, que um dia foi sua melhor amiga.
Camila, que um dia foi sua empregada.
Os dois riam, cumprimentando as pessoas, absorvendo a admiração ao redor. Pedro era agora um médico renomado, um cirurgião famoso que todos queriam conhecer. E Camila era a sua noiva, a mulher que exibia com orgulho.
O olhar de Pedro varreu o salão e pousou em Sofia. Um sorriso de desprezo se formou em seus lábios. Ele soltou o braço de Camila e caminhou em sua direção, cada passo lento e deliberado, como um predador se aproximando da presa.
O barulho da festa pareceu desaparecer. Tudo o que Sofia conseguia ouvir era o som de seus próprios batimentos cardíacos.
"Olha o que temos aqui", disse Pedro, sua voz alta o suficiente para que as pessoas ao redor ouvissem. "Sofia. Ainda está viva?"
O tom era de puro escárnio. Sofia o encarou, o rosto inexpressivo. Ela não era mais a menina ingênua de cinco anos atrás. A vida a tinha forçado a construir uma armadura em volta de seu coração.
"Estou bem, Pedro. E você, pelo visto, recuperou a memória."
A ironia em sua voz não passou despercebida. Um brilho de raiva passou pelos olhos dele, mas foi rapidamente substituído por um sorriso condescendente.
"Minha memória está ótima. Lembro-me de tudo o que preciso. Por exemplo, lembro-me de uma mulherzinha patética que não valia nada."
Camila se aproximou, o rosto dela contorcido em um sorriso malicioso. Ela olhou Sofia de cima a baixo, o desprezo evidente.
"Pedro, querido, não perca seu tempo com ela. Veja como ela está vestida. Parece uma mendiga que se infiltrou na festa."
As pessoas ao redor começaram a cochichar. Os olhares de pena e curiosidade se voltaram para Sofia. A humilhação de cinco anos atrás estava se repetindo, cena por cena, sob os holofotes de um novo público.
Sofia sentiu as bochechas queimarem, mas manteve a postura. Ela olhou para Pedro, o homem que um dia amou, e não sentiu nada além de um vazio gelado. O amor tinha se transformado em cinzas, e o que restava era apenas um desprezo silencioso.
Ela não era mais a garota que ele podia quebrar.
"É engraçado", disse Sofia, sua voz calma e firme, cortando os murmúrios. "Você fala de valor, Pedro, mas o único que vejo aqui sem valor algum é você. Um homem que precisa humilhar os outros para se sentir grande."
O sorriso de Pedro vacilou. Ele não esperava essa resposta. Ele esperava lágrimas, súplicas, a mesma garota quebrada que ele abandonou.
"Sua boca ficou bem afiada, não é?", rosnou ele.
Camila interveio, rindo alto. "Ela deve estar desesperada, querido. Provavelmente não come há dias. Olha só, Sofia, talvez possamos te ajudar. Pedro precisa de uma nova empregada em casa. A vaga está aberta. O que acha?"
A oferta foi a gota d'água. A humilhação final. Oferecer a ela o antigo emprego de Camila, como se ela não fosse nada mais do que uma serviçal. A multidão riu. A risada deles ecoou nos ouvidos de Sofia, mas desta vez, não a feriu. Apenas a encheu de uma fúria fria.
Ela estava prestes a responder, a colocar os dois em seu devido lugar, quando uma voz profunda e autoritária cortou o ar.
"O que está acontecendo aqui?"
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