
A Noiva Abandonada
Capítulo 3
A oferta de Pedro pairou no ar, carregada de veneno e desprezo. Ser a empregada dele. Voltar à casa que deveria ter sido seu lar, mas como uma serviçal. A mesma posição que Camila ocupava antes de roubar tudo o que era dela.
"O que foi? O gato comeu sua língua?", provocou Pedro, saboreando o que ele pensava ser o desconforto dela. "É um bom salário. Você poderia finalmente comprar umas roupas decentes."
Ele se inclinou, o hálito quente perto do rosto dela.
"Ou talvez você prefira outros tipos de... serviço. Eu pago bem."
A insinuação vulgar fez o estômago de Sofia revirar. Era esse o homem que ela amou? Esse monstro arrogante e cruel?
Camila riu, um som agudo e desagradável. Ela se aninhou em Pedro, passando as mãos pelo peito dele de forma possessiva.
"Deixe-a, querido. Ela não serve nem para ser empregada. É inútil. Sempre foi."
O toque dela em Pedro, o jeito como eles se olhavam, cúmplices em sua crueldade, foi como um gatilho. A memória que Sofia tentou suprimir por cinco anos voltou com uma força avassaladora.
Flashback.
A casa estava escura. Sofia, com o coração partido, tinha se trancado no quarto por dias após a humilhação pública. Mas a sede a forçou a sair no meio da noite. Enquanto descia as escadas silenciosamente, ouviu vozes vindo do escritório de seu pai. Eram Pedro e Camila.
Ela parou, escondida na sombra do corredor.
"Você foi magnífico, Pedro! A sua atuação foi perfeita!", dizia Camila, a voz cheia de admiração e malícia. "Amnésia! Quem diria? A cara daquele velho quando você disse que não conhecia a filha dele... impagável!"
A respiração de Sofia ficou presa na garganta. Atuação?
"Foi fácil", respondeu a voz de Pedro, fria e calculista. "Fingir que não conhecia aquela mosca morta foi a parte mais simples. O difícil foi ter que aguentar aquela família medíocre por tantos anos. Mas agora acabou. Com o contrato de casamento anulado, estou livre. E logo terei tudo o que eu quero."
Sofia sentiu o chão desaparecer sob seus pés. Então era tudo mentira. A confusão, a amnésia... tudo um plano.
"E eu?", perguntou Camila, a voz um pouco ansiosa. "E nós?"
Houve um som de beijo, longo e úmido.
"Nós, minha querida Camila, vamos ficar juntos. Você é muito mais mulher que aquela songamonga. Você tem ambição. Você sabe o que quer. E você me ajudou a me livrar dela. Agora espere um pouco. Preciso consolidar minha posição, terminar minha especialização... e então, o mundo será nosso. Ninguém nem vai se lembrar da existência de Sofia."
Sofia pressionou a mão contra a boca para abafar um soluço. A traição era dupla. Pedro, seu noivo. E Camila, sua amiga, sua confidente, a quem ela tratava como uma irmã. As duas pessoas em quem mais confiava tinham conspirado para destruí-la.
Ela cambaleou de volta para o quarto, o corpo tremendo, a mente em caos. A dor era física, uma pressão esmagadora no peito que a impedia de respirar. Naquela noite, Sofia não apenas chorou. Uma parte dela morreu.
Nos dias seguintes, ela definhou. Recusava-se a comer, a falar. A vergonha e a dor eram um fardo pesado demais. Seus pais, vendo o estado em que ela se encontrava, temeram por sua vida. Eles a tiraram da cidade, a enviaram para a capital, para longe das memórias, das fofocas, da dor.
Foi lá que ela começou a se reconstruir, tijolo por tijolo.
Fim do flashback.
O rosto de Sofia estava pálido, mas seus olhos brilhavam com uma determinação de aço. A dor do passado não a paralisava mais, ela a fortalecia.
Ela olhou para Pedro e Camila, que ainda a encaravam com superioridade, esperando por sua reação. Eles não tinham ideia de que ela sabia a verdade. Eles ainda a viam como a garotinha fraca que eles esmagaram.
"Sua oferta é... interessante, Camila", disse Sofia, a voz perigosamente calma. "Mas eu temo que não posso aceitar."
Ela fez uma pausa, deixando a tensão crescer.
"Sabe, eu já tenho um emprego. E um muito bom, por sinal."
Pedro bufou. "Que emprego? Limpando o chão de algum bar de quinta categoria?"
Sofia sorriu. Um sorriso genuíno, mas que não alcançou seus olhos.
"Não. Eu sou casada."
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