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Capa do romance A Mulher Que Virou o Jogo

A Mulher Que Virou o Jogo

Durante dez anos, Maria Antônia viveu como uma simples pescadora por amor a Pedro Henrique. No entanto, ao flagrar o marido beijando sua melhor amiga na cidade, ela descobre que sua vida humilde era uma farsa arquitetada por ele. A dor da traição logo se transforma em um desejo implacável de vingança. Disposta a retomar sua carreira como bióloga marinha, ela decide destruir as mentiras de Pedro e recuperar o sucesso que abandonou no passado.
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Capítulo 2

O cheiro de maresia e peixe estava impregnado em minhas roupas, um perfume constante na minha vida nos últimos dez anos, a vida que escolhi por amor a Pedro Henrique, meu marido. Eu acreditava que éramos uma família de pescadores simples, lutando para sobreviver, e me sentia orgulhosa da nossa humildade.

Naquele dia, viajei por duas horas em um ônibus lotado até a cidade grande, apenas para comprar um remédio importado para a tosse do nosso filho, João Pedro. Pedro Henrique disse que não tínhamos dinheiro para essas extravagâncias, mas o som da tosse do meu filho durante a noite me partia o coração, então usei minhas pequenas economias, o dinheiro que guardava de alguns bordados que vendia.

Enquanto esperava na poeirenta estação rodoviária pelo ônibus de volta para nossa vila de pescadores, uma BMW preta e reluzente parou do outro lado da rua. O carro era tão deslocado naquele ambiente cinzento que chamou a atenção de todos. A porta do motorista se abriu e meu coração parou.

Era Pedro Henrique.

Mas não o meu Pedro Henrique, o pescador de pele curtida pelo sol e mãos calejadas, ele vestia um terno caro, sapatos de couro que brilhavam mesmo sob a luz fraca do fim de tarde, e seu cabelo estava perfeitamente penteado. Ele parecia um estranho, um homem que eu nunca tinha visto.

Ele contornou o carro e abriu a porta do passageiro, e de lá saiu Ana Paula, minha melhor amiga, a mulher que me consolava quando eu reclamava da falta de dinheiro, ela estava deslumbrante em um vestido de seda e joias que valiam mais do que nossa casa.

Pedro Henrique a segurou pela cintura e a beijou, um beijo longo e íntimo que não deixou dúvidas sobre a natureza da relação deles.

Eu fiquei paralisada, o pacote de remédio na minha mão pareceu pesar uma tonelada, o mundo ao meu redor desapareceu, e só existia aquela cena, a prova viva de uma mentira que destruiu tudo o que eu acreditava ser verdade. Meus dez anos de sacrifício, de amor, de vida simples, tudo era uma farsa.

O ônibus para casa chegou, e eu entrei em transe, sentando-me na janela, o vidro frio contra minha testa, a cidade luxuosa que eles habitavam ficou para trás enquanto eu voltava para a minha prisão de mentiras. A dor inicial de choque começou a se transformar em uma raiva fria e cortante.

Cada solavanco do ônibus parecia uma batida na minha alma, me despertando de um longo sono, eu não era apenas a esposa de um pescador, eu era Maria Antônia, uma bióloga marinha, uma das alunas mais promissoras da minha turma. Abri mão de uma bolsa de estudos no exterior, de uma carreira brilhante, para viver a vida simples que ele me prometeu.

Peguei meu celular velho e gasto, a bateria quase no fim, procurei na minha lista de contatos um número que não discava há anos, o número do Professor Silva, meu antigo mentor na universidade. Meu dedo tremia sobre a tela.

Respirei fundo e liguei.

"Alô?" A voz dele era a mesma, calma e sábia.

"Professor Silva? É a Maria Antônia."

Houve um silêncio do outro lado, e então ele disse com um calor que aqueceu meu coração gelado.

"Maria Antônia! Que surpresa boa! Como você está, minha querida?"

Lágrimas silenciosas começaram a rolar pelo meu rosto.

"Professor, eu preciso de ajuda," minha voz saiu embargada, "Eu quero voltar, eu quero voltar a estudar, ainda existe alguma chance para mim?"

Ele não hesitou.

"Para você, minha aluna brilhante? Sempre, as portas da universidade estarão sempre abertas para você, venha me ver, vamos dar um jeito."

Desliguei o telefone, uma chama de esperança se acendeu dentro de mim, uma determinação que eu não sentia há uma década, eu ia sair daquela mentira, eu ia recuperar minha vida.

Enquanto o ônibus se aproximava da vila, as memórias me invadiram, lembrei-me do dia em que Pedro Henrique me pediu em casamento, na praia, com o pôr do sol pintando o céu, ele me disse que a vida acadêmica era vazia e solitária, que a verdadeira felicidade estava na simplicidade, no mar, em uma família. Eu acreditei nele, acreditei em cada palavra.

Lembrei-me dos primeiros anos, das dificuldades, de remendar suas redes de pesca, de limpar o peixe para vender na feira, de economizar cada centavo, eu fazia tudo com amor, pensando que estávamos construindo nosso futuro juntos. Agora, a lembrança de cada sacrifício tinha um gosto amargo de humilhação.

Cheguei em casa e o cheiro familiar de peixe frito e limão me atingiu, mas pela primeira vez, me causou náuseas. Pedro Henrique estava na cozinha, já vestindo suas roupas velhas de pescador, um ator perfeito em seu palco.

"Meu amor, você demorou," ele disse, sorrindo, o mesmo sorriso charmoso que me conquistou. "Fiz seu prato preferido."

Ele colocou uma travessa de peixe na mesa simples de madeira, a comida que por anos eu considerei o sustento da nossa família, agora parecia veneno.

"Não estou com fome," eu disse, minha voz fria como gelo.

Ele me olhou, surpreso com meu tom.

"O que foi, Maria? Aconteceu alguma coisa?"

Eu o encarei, procurando qualquer vestígio de culpa em seus olhos, mas não havia nada, apenas a falsa preocupação de um mestre manipulador.

"Estou cansada, só isso."

Naquela noite, eu não consegui dormir, deitada na cama ao lado dele, sentindo o calor de um corpo que agora me causava repulsa, a porta do nosso quarto estava entreaberta, e eu pude ouvir o toque do celular dele na sala.

Ele se levantou devagar, pensando que eu estava dormindo, e foi atender, sua voz era um sussurro, mas as paredes finas da nossa casa modesta não guardavam segredos.

"Oi, meu amor… Sim, já estou em casa… Foi cansativo, mas fechei o contrato de exportação com os japoneses… Não, ela não desconfia de nada, continua acreditando que sou um coitado… Só mais um pouco de paciência, logo vamos poder viver nossa vida no nosso apartamento, sem precisar mais dessa farsa."

Cada palavra dele era uma confirmação da traição, ele não estava apenas me traindo com Ana Paula, ele era o dono de uma rica empresa de exportação de peixes, e eu, a bióloga marinha que poderia ter ajudado a comunidade, fui usada como fachada para sua vida dupla, para que ele parecesse um homem do povo, um pescador humilde.

A dor no meu peito era sufocante, mas em meio à agonia, uma clareza cristalina tomou conta de mim, o amor por Pedro Henrique morreu ali, naquele instante, assassinado pela verdade.

Levantei-me da cama, caminhei até a janela e olhei para o mar escuro, o mesmo mar que ele dizia ser nossa fonte de vida, mas que para mim, agora, representava a profundidade de suas mentiras.

Eu não iria mais chorar, eu não iria mais ser a vítima. Eu ia lutar, eu ia me reerguer e tomar de volta cada sonho que ele me roubou. A guerra tinha acabado de começar.

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