
A Mulher Que Virou o Jogo
Capítulo 3
Na manhã seguinte, o sol nasceu como em qualquer outro dia, mas para mim, tudo havia mudado. Eu me movia pela casa como uma autômata, o cheiro do café que Pedro Henrique preparou me enjoava. Foi quando João Pedro, nosso filho de nove anos, entrou na cozinha com a cara amarrada.
"Mãe, meu tênis novo ainda não chegou? O pai do meu amigo comprou um pra ele que pisca quando anda, eu quero um igual!"
Sua voz era exigente, mimada, o tom de uma criança que nunca ouviu um "não".
"Nós já conversamos sobre isso, João Pedro," eu disse, tentando manter a calma. "Seu tênis atual ainda está bom."
"Mas eu não quero esse! É de pobre! Todo mundo na escola tem um novo!" ele gritou, batendo o pé no chão.
Olhei para o meu filho, o menino que eu amava mais que tudo, e pela primeira--eira vez, senti uma distância fria entre nós, ele era o reflexo do pai, valorizando o que era caro, desprezando o que era simples. A manipulação de Pedro Henrique não se limitava a mim, ele estava moldando nosso filho à sua imagem egoísta.
"Não fale assim, João Pedro," minha voz saiu mais dura do que eu pretendia.
"Você é chata! O papai disse que você não entende nada de coisas boas! Ele disse que ia me dar um videogame novo, e você não vai me impedir!"
Pedro Henrique entrou na cozinha nesse momento, com seu sorriso falso no rosto. Ele bagunçou o cabelo de João Pedro.
"O que está acontecendo aqui? Brigando com a sua mãe logo de manhã, campeão?"
"Ela não quer que eu ganhe o videogame novo! E não comprou meu tênis!" João Pedro correu para o lado do pai, como se buscasse refúgio.
Pedro Henrique me lançou um olhar de reprovação.
"Maria, é só um tênis, um videogame, qual o problema? Deixa o menino ser feliz."
"O problema, Pedro, é que estamos criando nosso filho para ser um materialista," eu respondi, a raiva crescendo dentro de mim. "Ele precisa aprender o valor das coisas."
"Ah, lá vem você com esse seu discurso de humildade," ele disse com desdém. "Deixa que da educação do meu filho cuido eu."
Ele se virou para João Pedro e piscou.
"Não se preocupe, filho, o papai vai resolver isso."
Eu me senti uma estranha dentro da minha própria casa, uma inimiga para meu marido e meu filho, eles eram uma unidade, e eu estava do lado de fora. A dor da traição se misturou com a dor de perder meu filho para a influência do pai.
Mais tarde, enquanto eu limpava a cozinha, escorreguei no chão molhado que João Pedro deixou e caí, batendo o braço com força na quina da mesa, uma dor aguda subiu pelo meu braço, e eu gritei.
Pedro Henrique e João Pedro estavam na sala, rindo de algo na televisão, eles ouviram meu grito, mas ninguém veio ver o que tinha acontecido, continuei no chão por um momento, a dor física era real, mas a dor da indiferença deles era muito pior.
Levantei-me devagar, segurando meu braço que já começava a inchar e ficar roxo, olhei para a sala, eles continuavam ali, vidrados na TV, como se nada tivesse acontecido. Eu era invisível para eles, minha dor não importava.
Naquela noite, Ana Paula ligou, como sempre fazia, fingindo ser minha amiga.
"Amiga, como você está? O Pedro me contou que o João Pedro está querendo umas coisas, e vocês estão com o orçamento apertado..."
A voz dela era melosa, cheia de uma falsa compaixão que me revirava o estômago.
"...então, eu pensei, eu tenho um primo que tem uma loja de brinquedos e eletrônicos, eu poderia conseguir um desconto ótimo para vocês no videogame, o que acha?"
Ela estava me oferecendo migalhas da riqueza que ela desfrutava com meu marido, me humilhando com sua falsa generosidade.
"Não, obrigada, Ana Paula," eu disse secamente. "Nós não precisamos da sua caridade."
Antes que ela pudesse responder, Pedro Henrique pegou o telefone da minha mão.
"Ana, não liga pra ela, você sabe como a Maria é," ele disse, rindo. "Claro que aceitamos sua ajuda, você é um anjo, obrigado por cuidar tão bem de nós."
Ele me devolveu o telefone e saiu, me deixando sozinha com a humilhação. Ele a chamou de anjo, a mulher que estava destruindo minha família.
Mais tarde, ele veio até mim com um pedido.
"Maria, a Ana Paula vai dar uma festa de aniversário no sábado, na casa de praia dela, ela quer que você faça aquela sua moqueca especial, ela disse que ninguém faz igual a você."
Meu sangue gelou. Ele queria que eu cozinhasse para a festa da amante dele, que eu a servisse como uma empregada.
"Eu não vou," eu disse, firme.
O sorriso dele desapareceu.
"Você vai sim, Ana Paula é nossa amiga, e ela fez um pedido, não seja ingrata, Maria, é o mínimo que você pode fazer depois de toda a ajuda que ela nos dá."
A palavra "ingrata" ecoou na minha cabeça. Eu, que sacrifiquei minha vida por ele, era a ingrata? A raiva me deu uma força que eu não sabia que tinha.
"Eu disse que não vou, Pedro Henrique, se ela quer moqueca, que aprenda a fazer."
Ele se aproximou, seu rosto perigosamente perto do meu.
"Você está muito estranha ultimamente, Maria Antônia, é melhor você baixar a bola e fazer o que eu estou mandando, ou as coisas vão ficar muito piores para você."
A ameaça era clara, mas eu não recuei, a mulher dócil e submissa que ele conhecia estava morta.
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