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Capa do romance A Mulher Que Não Tinha Nada a Perder

A Mulher Que Não Tinha Nada a Perder

Após despertar uma semana antes da traição que arruinou sua vida, uma jovem recebe uma segunda chance. Lucas e Patrícia, que roubaram seu projeto de purificação de água e causaram sua expulsão, ainda fingem lealdade. Após tirar a própria vida no futuro, ela renasce sem a ingenuidade de antes. Agora, armada com o conhecimento do que está por vir, ela iniciará uma vingança implacável contra aqueles que destruíram sua família, jogando sob suas próprias regras.
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Capítulo 2

Acordei com o zumbido familiar do ar-condicionado do dormitório, um som que eu não ouvia há anos. Meu corpo todo doía, uma dor fantasma de ferimentos que eu não tinha mais. Sentei-me na cama, confusa, olhando ao redor. As paredes estavam cobertas com pôsteres de bandas antigas e fórmulas de engenharia, exatamente como eu me lembrava. Minha mesa estava ali, com meu laptop e pilhas de livros.

Peguei meu celular. A data na tela me fez prender a respiração.

Era uma semana antes da apresentação do projeto. Uma semana antes de tudo desmoronar.

A porta do quarto se abriu de repente, e Lucas entrou, sorrindo. Ele era meu namorado desde a infância, o garoto cujo sorriso costumava iluminar meu mundo.

"Júlia, você finalmente acordou! Estava parecendo que ia dormir o dia todo."

Logo atrás dele, Patrícia, minha melhor amiga, apareceu com duas xícaras de café na mão.

"Nós trouxemos café. Você passou a noite inteira trabalhando no projeto, achamos que precisaria de um estímulo."

Seus rostos eram a personificação da preocupação e do carinho, mas tudo que eu sentia era um frio que subia pela minha espinha. Eram os mesmos rostos que sorriram para mim enquanto roubavam meu futuro. A dor da traição, tão fresca em minha mente, era quase física.

Na minha vida anterior, este exato momento tinha sido um de conforto. Hoje, era o começo do meu inferno.

Uma semana depois daquele café, eu estava em um auditório lotado. Era o dia da apresentação final do projeto de startup, a minha chance de ouro para conseguir a bolsa de estudos na universidade de prestígio no exterior. Eu estava nervosa, mas confiante. Meu projeto, um sistema de purificação de água autônomo e de baixo custo, era inovador. Eu tinha passado meses desenvolvendo cada detalhe.

O Professor Carvalho, meu mentor e uma lenda no departamento de engenharia, chamou o próximo grupo.

"Agora, com um projeto muito promissor, Lucas e Patrícia."

Meu coração parou. Lucas e Patrícia? Eles estavam em grupos diferentes. Eles subiram ao palco, e na tela atrás deles, o título do meu projeto apareceu. Meu nome não estava em lugar nenhum.

As palavras deles eram as minhas. Os diagramas eram os meus. A tecnologia era minha. Eles apresentaram meu trabalho com uma confiança que me deixou doente. Lucas, com seu carisma natural, encantou o painel de jurados. Patrícia, com sua precisão fria, respondeu às perguntas técnicas, usando as respostas que eu tinha preparado com ela na noite anterior.

Quando eles terminaram, o auditório explodiu em aplausos. Eu estava paralisada na minha cadeira. Minha mente gritava, mas nenhum som saía.

O Professor Carvalho, com os olhos brilhando de orgulho, parabenizou-os. Foi então que eu finalmente consegui me levantar.

"Esse projeto é meu", minha voz saiu fraca, trêmula.

Todos os olhares se viraram para mim. O silêncio caiu sobre o auditório.

Lucas me olhou com uma expressão de pura pena. "Júlia, eu sei que é difícil ver o sucesso dos outros, mas isso é baixo, até mesmo para você."

Patrícia balançou a cabeça, com lágrimas falsas nos olhos. "Júlia, somos suas amigas. Por que você está fazendo isso? Nós te ajudamos com suas ideias, mas você nunca conseguiu desenvolver nada. Pegamos o conceito básico e o transformamos em algo real."

A humilhação foi pública e brutal. O Professor Carvalho, o homem que eu mais admirava, me olhou com profunda decepção. Ele acreditou neles. Todos acreditaram. Fui acusada de inveja, de calúnia. Minha reputação foi destruída em questão de minutos.

Nos dias seguintes, o pesadelo só piorou. A universidade abriu uma investigação formal. Lucas e Patrícia apresentaram e-mails forjados e testemunhas falsas que confirmavam sua versão. Fui expulsa por "conduta antiética e plágio reverso", uma acusação bizarra que manchou meu nome para sempre. Fui proibida de me matricular em qualquer outra instituição de prestígio.

A família de Patrícia era rica e poderosa. Eles não se contentaram com a minha ruína acadêmica. Meu pai, um engenheiro respeitado em sua empresa, foi demitido sob a alegação de "reestruturação". Minha mãe, gerente em uma loja de varejo, foi forçada a pedir demissão após uma campanha de assédio orquestrada pelos contatos da família de Patrícia.

Perdemos tudo. Nossa casa, nossas economias, nossa dignidade. Meus pais, pessoas honestas e trabalhadoras, envelheceram uma década em poucos meses. Eles nunca me culparam, mas eu via a dor em seus olhos todos os dias. A culpa me consumia.

Caí em uma depressão profunda. O mundo que eu conhecia, cheio de promessas e sonhos, tinha se tornado uma prisão de desespero. Eu não via saída.

Numa noite chuvosa, enquanto a cidade era castigada por uma tempestade, eu caminhei sem rumo até uma ponte. A dor era insuportável. Eu só queria que parasse. Fechei os olhos e dei um passo. O som de uma buzina de caminhão foi a última coisa que ouvi.

E então, acordei. De volta ao meu dormitório. De volta a uma semana antes do inferno.

O cheiro do café que Patrícia oferecia me trouxe de volta à realidade. A xícara em sua mão parecia um veneno. O sorriso de Lucas era a máscara de um demônio.

"Júlia? Você está bem? Parece que viu um fantasma", disse Patrícia, sua voz falsamente doce.

Eu pisquei, forçando meu rosto a relaxar. Um sorriso fraco se formou em meus lábios. "Só... um pesadelo. Foi muito real."

Lucas passou o braço pelos meus ombros. Seu toque me causou repulsa, mas eu me forcei a não recuar. "Foi só um sonho ruim. Estamos aqui agora. Vamos, tome seu café. Temos um grande dia pela frente."

Eu peguei a xícara, meus dedos tremendo ligeiramente. Desta vez, eu conhecia o futuro. Eu sabia de cada movimento deles, de cada mentira. Eles roubaram minha vida uma vez. Não haveria uma segunda.

Enquanto eles falavam sobre planos para o fim de semana, meus olhos se fixaram no meu laptop. Lá dentro estava meu projeto, minha alma. Eles o queriam. Eles o teriam. Mas desta vez, seria nos meus termos.

Eu bebi um gole do café, o líquido quente descendo pela minha garganta. O gosto era amargo, mas não tanto quanto o da traição. A dor da minha vida passada se transformou em uma chama fria dentro de mim. Uma chama de vingança.

Eles achavam que eu era a mesma garota ingênua e confiante. Estavam errados. A garota que eles conheciam morreu naquela ponte. A mulher que renasceu em seu lugar não tinha nada a perder e tudo a reconquistar. E ela usaria cada grama de sua inteligência para garantir que Lucas e Patrícia pagassem pelo que fizeram.

"Obrigada pelo café, pessoal", eu disse, minha voz soando surpreendentemente calma. "Eu realmente precisava disso."

Eles sorriram, satisfeitos por minha aparente normalidade. Mal sabiam eles que o jogo havia acabado de começar. E desta vez, eu era quem ditava as regras.

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