
A Mulher Que Não Tinha Nada a Perder
Capítulo 3
Na minha vida anterior, a tragédia não terminou com a expulsão e a ruína da minha família. Ela me seguiu como uma sombra. Sem um diploma e com uma mancha indelével no meu histórico, eu não conseguia emprego em nenhuma empresa de engenharia. Acabei trabalhando em empregos de baixa remuneração, apenas para ajudar meus pais a pagar as contas. A depressão era uma companheira constante. E tudo culminou naquela noite chuvosa na ponte. Eu tinha dezoito anos. Uma vida inteira pela frente, roubada.
Agora, eu estava de volta. Com a memória nítida de cada detalhe daquele sofrimento. O cheiro do café que Patrícia me deu ainda estava no ar, um lembrete de sua falsidade.
"Júlia, eu estava pensando", disse Patrícia, sentando-se na beirada da minha cama com uma expressão séria. "Seu projeto é bom, mas talvez um pouco... ambicioso demais. O tempo está curto. Eu tive uma ideia para um projeto mais simples, mas que com certeza vai impressionar os jurados. Talvez você devesse considerar."
Meu sangue gelou. Era exatamente a mesma conversa. A mesma armadilha.
Na vida passada, eu recusei a princípio. Mas ela e Lucas insistiram tanto, dizendo que estavam preocupados comigo, que eu estava trabalhando demais em um projeto que poderia não ser aprovado. Eles me apresentaram um conceito "brilhante" que Patrícia supostamente "ouviu" de um dos assistentes do Professor Carvalho. Era uma isca perfeita. Um projeto que parecia complexo, mas era falho em sua essência. Eles me convenceram a mudar meu foco, a adotar a ideia "deles". E, claro, no dia da apresentação, eles me acusaram de roubar a ideia que eles mesmos me deram.
Desta vez, eu olhei para Patrícia e forcei uma expressão de curiosidade. "Oh, é? Que tipo de ideia?"
Patrícia sorriu, satisfeita por eu ter mordido a isca. "É um aplicativo de gerenciamento de energia para residências inteligentes. Usa IA para otimizar o consumo. Super moderno, super na moda. O Professor Carvalho adora esse tipo de coisa."
Lucas concordou com a cabeça. "É uma ótima ideia, Pati. E você, Júlia, é a única com a habilidade de programação para fazer isso funcionar em uma semana. Nós podemos te ajudar a montar a apresentação. Seria um sucesso garantido."
Eles eram tão convincentes. A preocupação em seus olhos, o tom de urgência em suas vozes. Se eu não soubesse a verdade, eu acreditaria neles novamente. Lembrei-me de como eles eram bons. Lucas, o namorado atencioso que sempre me incentivou. Patrícia, a amiga leal que passava noites em claro estudando comigo. Por que eles fariam isso? A inveja era um motivo tão pequeno para uma destruição tão completa. Havia algo mais, eu sentia, mas ainda não sabia o quê.
"Sabe, é uma ideia interessante", eu disse, mantendo a voz neutra. "Vou pensar sobre isso. Obrigada por se preocuparem comigo."
Eles trocaram um olhar rápido, um brilho de triunfo que durou apenas uma fração de segundo. Eles achavam que eu estava caindo no plano deles.
"Claro, qualquer coisa por nossa amiga", disse Lucas, me dando um beijo na testa. O gesto me fez sentir vontade de vomitar.
Quando eles finalmente saíram, a fachada de calma que eu mantinha desmoronou. Eu corri para o banheiro e apoiei as mãos na pia, respirando fundo. Meu reflexo no espelho era o de uma garota de dezoito anos, mas meus olhos carregavam o peso de uma vida de dor.
A raiva me deu clareza. Eles não apenas me traíram, eles planejaram cada passo meticulosamente. A "ideia" que eles me ofereceram era o coração da armadilha.
Liguei meu laptop. A primeira coisa que fiz não foi trabalhar no meu projeto. Foi abrir o navegador e digitar o nome de Patrícia nas redes sociais. Na minha vida anterior, eu estava tão destruída que nunca pensei em investigar. Eu simplesmente aceitei meu destino.
Não mais.
O perfil de Patrícia era público, uma vitrine de sua vida "perfeita". Fotos de viagens caras, festas exclusivas, roupas de grife. Rolei o feed, procurando por qualquer coisa fora do comum na semana que antecedeu a apresentação. E então, eu encontrei.
Uma série de posts vagos. "Grande projeto a caminho! Mal posso esperar para compartilhar com o mundo." "Trabalhando duro para realizar um sonho." "Às vezes, os fins justificam os meios."
Eram posts que, na época, eu interpretei como apoio a mim. Agora, eu via a verdade. Ela estava construindo uma narrativa. Uma narrativa em que ela e Lucas eram os gênios por trás do projeto.
Continuei rolando, passando por fotos e mais fotos. E então, parei. Uma foto tirada duas semanas antes. Patrícia e Lucas em um café. A legenda era "Celebrando o futuro com meu parceiro no crime. 😉"
Na época, eu achei que era uma piada inocente. Agora, a frase soava como uma confissão. Mas não era a foto que me chocou. Era um comentário abaixo, de uma conta que eu não reconhecia. O nome do usuário era "EngenheiroMestre".
O comentário dizia: "O plano está em andamento. O protótipo dela está quase pronto. Preparem-se para a fase dois."
Meu coração batia forte contra as costelas. Fase dois. Parceiro no crime. Quem era "EngenheiroMestre"? Cliquei no perfil, mas era privado. Nenhuma informação, nenhuma foto.
Isso era maior do que eu pensava. Não era apenas inveja. Era uma conspiração.
Fechei o laptop, minha mente a mil por hora. Eu precisava de provas concretas. Provas que ninguém pudesse refutar.
Eu sabia o que tinha que fazer. Eu precisava que eles acreditassem que eu estava seguindo o plano deles. Eu precisava fingir que estava trabalhando na ideia falha que eles me deram.
De repente, senti uma tontura. A falta de sono e o choque emocional estavam me atingindo. Eu me deitei na cama.
"Preciso descansar um pouco", murmurei para mim mesma.
Eu estava prestes a fechar os olhos quando meu telefone tocou. Era Lucas.
"Oi, amor. Só ligando pra saber se você está bem. Parecia um pouco pálida hoje de manhã."
"Estou bem", menti. "Só cansada."
"Que bom. Escuta, Patrícia e eu vamos para a biblioteca estudar um pouco. Quer vir com a gente? Podemos te ajudar a esboçar as primeiras ideias para o novo projeto."
A voz dele era suave e convidativa. Ele estava me monitorando. Eles queriam garantir que eu abandonasse meu projeto real.
"Ah, eu não sei, Lucas. Acho que prefiro ficar por aqui e descansar. Minha cabeça está doendo um pouco."
Houve uma pausa do outro lado da linha. Então, ouvi um suspiro de impaciência, rapidamente disfarçado.
"Tudo bem, meu bem. Descanse então. Mas não pense demais, ok? A ideia que a Pati deu é realmente boa. Confie em nós."
"Vou confiar", eu disse, e a mentira saiu com uma facilidade que me assustou.
"Ótimo. Te vejo mais tarde. Te amo."
"Também te amo", respondi, e desliguei.
A frase final deixou um gosto amargo na minha boca. Amor. Eles não sabiam o significado da palavra.
Levantei-me e fui até minha mesa. Peguei meu caderno de anotações, onde todos os meus cálculos e diagramas para o purificador de água estavam. Eu o abracei contra o peito. Isso era meu. Minha criação. Minha alma. Eles não iriam tirá-lo de mim.
Eu ia expô-los. Ia desmascarar cada mentira. E ia fazer isso usando a inteligência que eles tanto invejavam. O jogo de xadrez tinha começado, e eu já estava três movimentos à frente.
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