
A Mulher Que Descobriu a Outra Família do Marido
Capítulo 2
O meu filho, Lucas, está com febre alta.
O termómetro marca 39,8 graus.
Ele está deitado na cama do hospital, com o rosto corado e os lábios secos e gretados.
Ligo para o meu marido, Pedro. Ninguém atende.
Ligo de novo. A chamada é desligada.
Uma mensagem de texto chega logo a seguir.
"Estou ocupado. A Sofia está em apuros. Falo contigo mais tarde."
A Sofia é a irmã mais nova dele.
Uma irmã que não tem qualquer laço de sangue connosco.
Sinto um aperto no peito, uma sensação familiar e sufocante.
Olho para o meu filho, que geme baixinho durante o sono, e tomo uma decisão.
Este casamento tem de acabar.
O telefone toca de repente, assustando-me. É a minha sogra, a Dona Elvira.
Atendo a chamada, a minha voz está rouca. "Mãe."
"Joana, porque é que o Pedro não me atende? Sabes onde ele está? A Sofia não está bem, está no hospital com uma crise alérgica grave, preciso que ele venha cá agora!"
A voz dela é aguda e cheia de pânico.
Respiro fundo, tentando manter a calma. "O Lucas também está no hospital. Ele está com febre muito alta."
Há um silêncio do outro lado da linha, seguido por um tom de desdém.
"Febre? Febre é normal em crianças. A Sofia pode morrer! A alergia dela é muito grave. O Pedro sabe disso. Porque é que não lhe disseste para vir para aqui imediatamente?"
A alergia da Sofia.
Sim, eu sei.
A alergia dela a marisco é tão grave que uma vez, num jantar de família, ela comeu acidentalmente um pouco de molho que tinha vestígios de camarão e teve de ser levada de urgência para o hospital.
Desde esse dia, a Dona Elvira trata a Sofia como se ela fosse feita de vidro.
"Eu disse-lhe que o Lucas estava doente," respondo, a minha voz a tremer ligeiramente. "Ele escolheu ir ter com a Sofia."
"E fez ele muito bem!" ela retorquiu, sem um pingo de hesitação. "O Lucas é forte, é um rapaz. A Sofia é uma menina frágil. Tu és a mãe, tens de saber cuidar do teu filho sozinha. Não sejas tão dependente."
Ela desliga o telefone na minha cara.
Olho para o ecrã escuro do telemóvel.
Dependente.
Eu, que trabalhei em dois empregos para ajudar o Pedro a pagar as dívidas da sua família antes de casarmos.
Eu, que cuidei sozinha do Lucas durante a maior parte dos seus três anos de vida, porque o Pedro estava sempre "ocupado" com os problemas da Sofia.
As lágrimas que eu segurava finalmente escorrem pelo meu rosto.
Não é pela raiva, mas pela exaustão.
Estou cansada de lutar por um lugar na vida do meu próprio marido.
Estou cansada de ver o meu filho ser sempre a segunda opção.
A porta do quarto abre-se e a enfermeira entra.
"A febre dele ainda não baixou," ela diz, com um olhar preocupado. "Vamos ter de administrar outro medicamento. O pai já vem a caminho?"
Engulo em seco.
"Não. Sou só eu."
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