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Capa do romance A mercê da maldade

A mercê da maldade

Luna conheceu cedo a crueldade humana, mas sua vida muda drasticamente ao fugir de um agressor terrível. Perdida e vulnerável, seu destino se cruza com o de Mason Wood, um homem poderoso e imerso em um mundo sombrio. Nessa relação intensa, a pureza dela enfrenta a sujeira da realidade dele. Em um cenário onde a bondade é desvantagem e a malícia impera, resta saber se o amor sobreviverá à guerra ou se a esperança de redenção é apenas uma fantasia ilusória.
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Capítulo 2

A vida desde o meu primeiro respirar me mostrou que eu sou indesejada, que não sou digna do mais puro amor. Assim que eu nasci, minha mãe, digo, a mulher que me deu a luz, com apenas algumas horas de vida me mostrou o lado ruim do ser humano. Ela me descartou como um objeto defeituoso, para minha infelicidade foi bem assim, sem nenhuma empatia jogou-me numa lixeira apenas coberta por um fino pedaço de pano. Deixada para morrer. Abandonada. Indesejada. Não amada. A primeira rejeição dentre muitas que eu iria vivenciar.

Por sorte, após sôfregas horas de um choro por estar em um ambiente totalmente diferente de um seguro e aconchegante útero, um reciclador de lixos me achou e levou-me até um hospital, onde fui cuidada e a polícia foi acionada.

A minha progenitora nunca se arrependeu, ela nunca voltou.

A Irmã Maria, disse que quando eu cheguei ao Orfanato Coração de Maria, eu era uma bebê miudinha, as irmãs tinham até medo de me pegarem no colo com medo de me machucarem. Foi nesse lugar que eu conheci o  que é zelo. Geralmente recém-nascidos são logo adotados, mas eu tinha que ser a exceção da história.

Me coube na vida o papel de rejeitada.

Os dias foram passando, depois meses que se tornaram anos, precisamente dezessete anos e eu ainda continuava lá. Enquanto eu crescia cada casal que adentrava o orfanato me dava a esperança de que eu seria a escolhida, no entanto eles sempre saiam pela porta levando uma criança que não era eu, matando em mim a esperança. Por muitas vezes eu questionei o que havia de errado em mim, e até hoje não sei dizer o que é. Amigos que criei foram desfeitos com as suas partidas. A vida me dava algo e depois tirava, foi sempre assim, é assim. Logo para me resguardar da dor da rejeição, da perda, do abandono e da saudade, passei a viver uma vida solitária.

Tão jovem e tão sozinha.

A irmã Maria é a que mais chega perto de uma figura materna para mim, mas eu nunca me apeguei a ela, porque as pessoas sempre tendem a me deixar. Ela é uma senhora muito meiga, carinhosa e bondosa. Sempre cuidando de mim, contando histórias para dormir, limpando os meus machucados e secando as minhas lágrimas. Talvez ela fizesse isso tudo por pena, pois eu era uma pobre coitada, entretanto eu não me importo com as pequenas migalhas.

Eu sou a mais velha do orfanato, as outras que moram aqui são todas crianças. Por ser a mais velha eu ajudava as irmãs a cuidar das pequenas fofurinhas. E mesmo dando trabalho, eu gostava, essa tarefa fazia os dias passarem mais rápido, sem me deixar a merecer da solidão que eu mesma criei.

Trimmmmm.... Trimmmmm.... Trimmmmm. Toca o alarme avisando que são seis horas da manhã. Levanto sem muito trabalho, já acostumada com a rotina. Arrumo a cama como a irmã Maria me ensinou, pego uma saia cinza que fica dois dedos abaixo do joelho e uma blusa de mangas compridas da mesma cor e vou ao banheiro, no qual divido com as demais crianças. Tomo um banho rápido, o suficiente para me deixar limpa, aqui no orfanato cada pessoa tem apenas cinco minutos liberados para o banho. Retiro toda a gotícula de água do meu corpo e me visto. Eu sei que não estou vestindo a última moda de Paris, mas eu não me importo, agradeço em apenas ter o que usar, aqui aprendemos a não nos apegar a vaidade. As irmãs dizem que vaidade é pecado. Volto para o meu quarto e faço um trança simples no cabelo e já pronta saio do quarto para o café da manhã.

Assim que desço a escada já posso ouvir o barulho que as crianças fazem no refeitório, vou ao local em que estão os pequenos agitados seres para me juntar a eles no desjejum. A cantina do orfanato é consideravelmente grande e nela são distribuídas dezenas de mesas retangulares de madeiras e bancos do mesmo material... Adentro o local e vejo a cena que já se tornou cotidiana para mim, crianças sentadas lado a lado, comendo ou brincando com o alimento. Vou até uma das irmãs que distribui o desjejum e pego uma bandeja branca de plástico.

_Bom dia, Irmã_ digo pegando uma maçã e colocando na minha bandeja.

_ Bom dia, Luna_ diz a Irmã Piedade me entregando um pão com manteiga e um copo com leite. Não tínhamos muita diversidade de alimentos para escolher, na verdade não escolhíamos, mas temos que dá graças porque temos o pão de cada dia. Assim como a vaidade, as irmãs ensinam que a gula é pecado... Após pegar tudo, vou em direção a uma mesa vazia e afastada, sento e em silêncio, olhando para as crianças conversando com seus amigos faço o meu desjejum.

Quando termino, a cantina já está mais silenciosa, pois a maioria das crianças foram organizar os seus matérias escolares para sair daqui alguns minutos. Assim como elas eu também estudo, no entanto gosto de deixar tudo preparado a noite, levanto e deixo a minha bandeja no espaço de louças sujas. Olho para o relógio na parede amarela da cantina e vejo que são 06:40, daqui a dez minutos a van chegará para nos levar, então caminho para o meu quarto, pego a escova de dentes e vou até o banheiro, após tirar toda sujeira deixada pelo café da manhã, pego a minha mochila no quarto e vou até a frente do orfanato e lá está a van e uma fileira para entrar no automóvel, vou para o fim da fila e sem demora entro e sento.

O percurso não é demorado, em 15 minutos chegamos na escola, o local é dividido em dois pavimentos, um para as crianças menores, e o outro para os alunos a partir da sétima série. A Escola Marie Curie, é uma instituição particular situada na Queen Anne, que é um bairro conhecido pelo alto nível educacional em Seattle, no qual o orfanato tem uma parceria, então todos nós temos um boa educação. No entanto, tem o lado ruim de estudar aqui, algumas pessoas só por terem pais com condições financeiras boas, se acham no direito de zombar dos que não tem.

_ Olha lá a esquisita_ diz alguém arrancando gargalhada de todos quando entro na sala de aula. Como sempre não dou importância para o que eles falam de mim, apenas sento no final da sala, na cadeira ao canto da parede.

_ Ei esquisita, roubou o guarda roupa de qual vovozinha?_ mais outro insulto e como o anterior não dou a mínima. Desde cedo aprendi que as pessoas são cruéis, então não me importo com um bando de adolescentes com ego de superioridade.

_ Da minha avó que não foi, ela se veste melhor do que essa esquisita._ E reconhece ser a voz da Larissa dessa vez. Essa garota vem perturbando a minha vida escolar desde a terceira série. Não se surpreenda com isso, até crianças são maldosas, e o pior, é que essa perseguição não tem nenhum motivo, acho que é simplesmente por prazer.

_Nerd esquisita_ Outra garota grita e novamente como se eu fosse um palhaço e as pessoas a plateia, elas gargalham.

— Silêncio! todos para o seus lugares e abram o livro na página 64– diz a professora Ana, da disciplina de história. E só com a sua chegada, eles me deixam em paz... Após mais cinco aulas, chega o horário de ir embora, pego as minhas coisas com intuito de sair desse lugar o mais rápido possível. Entretanto sou impedida com um perna colocada no meio do caminho que me leva ao chão.

— Olha por onde anda, Nerd.— diz a Larissa, a garota que gosta de infernizar a minha vida. Respiro fundo e ponho-me de pé.

— Olha só o que você fez no meu all star, ele tá todo sujo, sua imunda.

— Me desculpe, não foi a minha intenção.— digo olhando para baixo, evitando o máximo em olhar para o seu rosto.

— Só saia da minha frente, Nerd— E não espero ela falar nem duas vezes e saio dali o mais rápido possível. Eu sei que não foi minha culpa, mas não quero sofrer mais uma agressão hoje. Já na frente da escola avisto a van, na qual entro e em menos de 3 minutos dá a partida a caminho do orfanato.

E durante todo o caminho questiono o porquê da minha vida ser assim, tão sofrida.

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