
A mercê da maldade
Capítulo 3
O dia hoje foi igual aos outros: almoçar, fazer atividades de casa e ajudar as irmãs com os pequenos. Agora são quase seis da noite, e como regra da instituição temos que comparecer a uma capela para oração. Por ser uma instituição ligada à igreja e coordenada pelo Padre Manuel, que é o diretor do orfanato, eu até entendo essa regra e como eu não quero receber um castigo, vou ao encontro de todos. Quando adentro a capela percebo que todos já se encontram no local e dessa vez as crianças não fazem barulho, e nem podem, devemos respeitar o lugar sagrado.
No púlpito está o Padre Manuel se preparando para a oração. O padre é um senhor com uma barriga saliente que pode ser observada mesmo vestindo uma batina. Assim que entro ele olha para mim de uma forma que não sei explicar, e com esse olhar segue todos os meus passos e isso me deixa nervosa, com isso apresso os meus passos para sentar e me esconder dos seus olhos, no entanto o único local vago fica bem na sua vista, na primeira fileira. Vou até o lugar e mesmo não olhando para ele sinto que seus olhos estão sobre mim e isso me deixa desconfortável, e quando estou assim eu tenho a mania de fechar a minha mão e apertar com força, sentindo a dor das minhas unhas em contato com a minha pele, isso me permite esquecer o que está se passando e focar apenas na dor.
Não era a primeira vez que ele fazia isso, já faz um tempo que o padre tem esse estranho hábito de ficar me olhando em qualquer lugar. Na primeira vez eu achei que tinha feito algo de errado e que estava muito encrencada, e ele iria me chamar atenção, mas a repreensão nunca veio e as suas olhadas continuaram. Depois eu achei que fosse coisas da minha cabeça, mas seu olhar em mim tornou-se mais frequente e não mais disfarçado como era antes. Logo passei a evitar ao máximo estar no mesmo lugar que ele, no entanto havia um momento do dia que não tinha como fazer isso, na oração da noite antes do jantar.
— Que o Espírito Santo esteja com vocês. Fechem os olhos e tenham seus pensamentos em Deus.— E assim eu faço e após alguns segundos ele começa a rezar. Mesmo durante a prece a sensação de está sendo vigiada continua, e isso faz com que eu abra os olhos e assim que levanto a cabeça, vejo o Padre orando com seus olhos cravados em mim, e diferente das outras vezes ele sorri, causando arrepio em todo o meu corpo. Instantaneamente eu me encolho no lugar, abraçando o meu corpo ao mesmo tempo que fecho os olhos, pedindo a Deus que esse desconforto passe logo. Eu não sabia o porquê mais quase estava chorando, o olhar do Padre Manuel me remete sensações ruins e eu não gosto de me sentir assim.
— Luna, minha filha, a oração terminou. Vamos— diz a irmã Maria. Eu estava tão nervosa e querendo que aquela sensação fosse embora que nem percebi. Olho ao redor e todos já haviam saído e só estava eu, Maria e o Padre, e não querendo ficar mais ali, e pior, sozinha com ele, sigo a Maria.
— Irmã Maria, me espera, por favor.— E assim ela faz e eu a acompanho até a cantina onde janto com as outras crianças. Eu não estava com fome diante de tudo que senti a alguns minutos atrás, no entanto me forcei a comer tudo.
Já na cama, vestida com uma camisola branca longa, que chega até aos meus pés e com uma manga curta, deito na cama e oro agradecendo a Deus por mais um dia e sem esforço adormeço... Durante o sono tenho um pesadelo de está sendo perseguida por um cachorro de olhos vermelhos que quer me atacar e eu corro dele, quanto mais eu corro parece que mais perto o cachorro está de mim. Cansada de fugir, eu tropeço e o cão me alcança e além da cor dos seus olhos, vejo os seus dentes grandes e afiados quando ele abre a boca, e com muita rapidez ele avança sobre mim e nesse momento eu acordo sobressaltada, com o coração acelerado e suada. Após alguns minutos, com o meu estado mais calmo e com o meu cérebro entendendo que nada daquilo era real, eu tento voltar a dormir, mas não consigo, e assim passo uns trinta minutos inquieta, virando de um lado para outro na cama. Já cansada com a minha repentina insônia, sinto sede e decido levantar para ir beber água.
Ainda é madrugada, então todos estão dormindo, com muito cuidado para não fazer barulho desço a escada e vou até a cozinha. Ascendo a luz e pego um copo no armário, em seguida vou até a geladeira, despejo a água no copo e bebo. Quando termino lavo o copo, seco e coloco de volta no lugar. E no momento que vou retornar para o meu quarto, ouça a voz do dono dos olhos que me causa frio.
— Está com formiga na cama?— ele diz e tenho receio em olhar em sua direção.
—N-não Padre, apenas senti sede, mas já estou voltando para o meu quarto— digo tentando sair da sua presença o mais rápido possível.
— Não precisa ter pressa, criança— diz segurando em meu braço e com o seu toque sinto minhas pernas tremerem. — Sabe Luna, você não imagina por quanto tempo esperei ficar a sós com você— ele continua a falar passando a sua mão pelo meu braço, estimulando assim o medo em mim.
— P-Padre Manuel , já é tarde e tenho que ir dormir— gaguejo por causa do nervosismo e também por está malmente respirando durante todo esse tempo.
—Shiii...— diz passando o seu polegar pelos meus lábios. Seu toque me deixa estática, com nojo, eu quero correr, mas o meu corpo não me obedece. — Você é uma garota muito bonita— diz passando a mão em meu cabelo e o levando para o encontro do seu nariz, onde ele cheira. E não aguentando mais aquela situação uma lágrima cai dos meus olhos.
— E-Eu tenho que ir, por favor, me deixe ir— digo desviando do seu toque.
—Você cresceu e está se tornando uma ninfeta tão linda, que nem as roupas largas e compridas são capazes de esconder as curvas do seu corpo— E dessa vez seu toque se torna mais ousado, descendo para o meu pescoço e parando na região da minha clavícula.
— P-Por favor, pare com isso Padre— digo em meio ao choro, ao mesmo tempo que tento me soltar dele que aperta com força os meus braços, me machucando.
— Calada, agora eu vou ter o que eu sempre quis. Você.— segura o meu pescoço e desfere tais palavras com raiva.
— O S-Senhor está me m-machucando— digo com dificuldade por causa da sua mão em meu pescoço, me impedido de respirar normalmente. Eu tento afastá-lo, mas não consigo, eu estava apavorada e as lágrimas não paravam de cair dos meus olhos.
— Você vai ficar quietinha, e se fizer algum barulho eu te mato— diz dando um tapa em meu rosto, o local automaticamente dói e sinto uma ardência. Pisco os meus olhos diversas vezes com o intuito de acordar do pesadelo, mas diferente do anterior, nesse eu já estava acordada e então eu choro copiosamente.
— Eu falei para você não fazer barulho— e ele me agride puxando o meu cabelo cabelo. — Calada.
— P-Por favor, me deixar ir— imploro.
— Só depois que eu tiver o que quero— diz passando a língua em minha bochecha, o que me causa ânsia de vômito. Tento me soltar, mas a sua mão ainda continua me prendendo com firmeza... Meu Deus, porque isso está acontecendo comigo, penso enquanto choro silenciosamente.
— Você é uma ninfetinha deliciosa— diz tocando em meus seios, tento proteger o meu corpo dele e ele me bate mais uma vez.
— Se você resistir, será pior— diz me virando e pressionando o meu corpo na bancada da pia e juntando o seu corpo no meu. —Se você colaborar, prometo ser carinhoso com você— diz subindo a minha camisola e passando a mão em minha bunda.— Seu corpo é perfeito para mim, criança— e com as suas palavras sinto a minha calcinha sendo rasgada, e querendo evitar o pior me debato pedindo, implorando, suplicando para que ele pare, no entanto ele continua. Ele pressiona o meu rosto no frio metálico da pia e chuta com força a minha perna de modo que se afastam. E nesse momento eu sei, eu sinto que serei estuprada e choro sem me importar com o barulho. E ele não se compadece em nenhum momento comigo, e continua a passar as suas asquerosas mãos pela minha perna chegando próximo a minha intimidade... E talvez por sorte, ou Deus, um barulho surge perto de onde estamos o fazendo afastar de mim.
—Não diga nenhuma palavra do que aconteceu aqui, se não eu te mato, mas antes irei te torturar a ponto de você se arrepender de ter aberto a boca— diz com olhos ameaçadores, ele abaixa a minha camisola, e esconde a minha calcinha em sua mão.
— Oh criança, não precisa chorar foi só um pesadelo— diz limpando as minhas lágrimas.
— O que aconteceu Padre? A Luna está bem?— diz a Irmã Maria ao aparecer na nossa frente.
— Ela está bem, só teve um pesadelo. Não é mesmo, Luna?— pergunta olhando em meus olhos com vestígio de ameaça.
—S-Sim, foi só um p-pesadelo— digo ainda chorando. — Por favor, Maria fique um pouco comigo no quarto, estou com medo— imploro, pois estando alguém comigo ele não irá atrás de mim.
— Claro, minha menina—diz andando em minha direção e pegando meus ombros. — Vamos!
— Não se esqueça o que eu lhe disse, Luna— sua voz mesmo que calma, meus ouvidos captam o aviso.
— O que você disse a ela Padre?—questiona Maria olhando para mim e depois para ele.
— Nada demais, apenas disse a ela que nada daquilo é real.
— Mas você já sabe disso né Luna?— confirmo com o levantar e descer da cabeça.
— Vamos Maria— e seguimos para fora dali, mas não sem antes ouvir a sua voz nojenta. — Durma bem, criança.
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