
A Mentira Que Apagou Minha Vida
Capítulo 2
Ponto de Vista de Bruna Matos:
O gosto amargo de sua traição grudava na minha língua, um veneno que eu não conseguia cuspir. Afastei-me da mansão dos Ferraz, os portões grandiosos e opulentos agora parecendo as grades de uma gaiola dourada da qual eu havia escapado por pouco. As luzes da cidade se borraram através das minhas lágrimas não derramadas, cada uma um testemunho dos cinco anos que desperdicei em uma mentira. Eu estava sozinha, verdadeiramente sozinha, e o vazio dentro de mim ecoava o silêncio das ruas desertas.
De repente, um ganido agudo, cortante de dor, rasgou a noite silenciosa. Meu sangue gelou. Era um som que eu conhecia, um som que eu temia. Meu cachorro resgatado, Sombra. Ele tinha sido minha única constante, meu companheiro leal durante os longos e solitários anos do meu tormento. O som veio da direção da mansão dos Ferraz, especificamente, perto dos canis.
O medo, frio e agudo, perfurou minha dormência. Eu não pensei, apenas corri. Meus pés batiam contra o asfalto, cada músculo gritando em protesto, mas eu forcei mais. Sombra. Meu Sombra. Por favor, que ele esteja bem. Por favor.
Pulei a cerca baixa, ignorando as placas de "Proibido Ultrapassar" que antes pareciam uma afronta pessoal. Meu coração martelava contra minhas costelas, uma batida frenética de terror. Os canis estavam um caos. Sombra se debatia, preso ao chão por algo pesado. Eu vi vermelho.
Joguei-me contra a silhueta, um grito gutural rasgando minha garganta. Era Carolina, seu rosto uma máscara de prazer sádico, um cano de metal pesado em sua mão. Ela o balançou contra Sombra novamente, um baque doentio ecoando na noite. "Pare com isso!", gritei, avançando. O cano atingiu meu braço, um flash ofuscante de dor, mas eu mal registrei. Tudo o que eu via era Sombra, meu doce e gentil Sombra, gemendo de agonia.
Carolina riu, um som frágil e arrepiante. "Ele ousou latir para mim", ela zombou, seus olhos brilhando com malícia. "Ele mereceu." Ela ergueu o cano novamente, mirando na cabeça dele. "Não!", gritei, protegendo Sombra com meu próprio corpo. O cano bateu nas minhas costas, uma dor lancinante que me fez ofegar, mas eu me segurei, meus braços envolvendo protetoramente meu cachorro.
"Heitor!", gritei, minha voz rouca, desesperada. "Heitor, por favor! É o Sombra! Nosso Sombra! Lembra como o resgatamos do abrigo? Ele estava com tanto medo, e você o segurou a noite toda até ele se sentir seguro!" Invoquei nosso passado compartilhado, agarrando-me a qualquer fio que ainda pudesse existir entre nós. Eu precisava que ele se lembrasse, que parasse esse monstro.
Heitor apareceu, seu rosto iluminado pelas luzes distantes da mansão. Ele parecia confuso, depois irritado. "Que comoção é essa?", ele exigiu, seu olhar varrendo a cena. Seus olhos pousaram em mim, depois em Carolina, depois em Sombra, que gemia debaixo de mim. "Bruna? O que você está fazendo aqui?" Ele soava completamente desprovido de reconhecimento, de cuidado, de qualquer coisa que o ligasse às memórias que eu estava gritando.
"É o Sombra, Heitor! A Carolina está machucando ele!", implorei, gesticulando descontroladamente para o cano, para a forma sangrenta de Sombra, para o sorriso malévolo de Carolina. "Por favor, pare ela! Ela vai matá-lo!"
Heitor franziu a testa, seu olhar se voltando para Carolina. "Isso é verdade, Carolina?", ele perguntou, seu tom ainda suave, quase entediado.
Carolina fez beicinho, fingindo inocência perfeitamente. "Oh, Heitor, querido, esse cachorro de rua me atacou! Eu só estava me defendendo!" Ela olhou para mim com um arrepio teatral. "E então ela me atacou também! Ela está completamente descontrolada!"
"Ela está mentindo!", engasguei, uma nova onda de desespero me invadindo. "O Sombra nunca faria isso! Ele é gentil! Você sabe disso!" Tentei me levantar, para mostrar a ele o cano, o sangue, a verdade inegável.
Mas Heitor deu um passo à frente, não para ajudar, mas para me confrontar. Ele nem olhou para Sombra. Seus olhos, antes cheios de um amor que agora eu sabia ser falso, estavam frios e distantes. Ele chutou Sombra, um movimento brutal e casual que enviou uma onda de choque de dor através do meu coração já partido. "Este cachorro é um incômodo", ele declarou, sua voz assustadoramente calma. "Livre-se dele. E tire-a daqui."
Minha respiração falhou. "Heitor... não! Ele é nosso cachorro! Você o amava!" Tentei argumentar, agarrar-me aos fragmentos de um passado compartilhado que ele havia descartado tão facilmente.
Ele zombou. "Não sei do que você está falando. Nunca vi esse animal sarnento antes. E quanto a você, Bruna, sua ilusão está se tornando cansativa." Ele olhou para Carolina, um brilho possessivo em seus olhos. "Carolina está esperando meu filho. Não vou permitir que você ou qualquer vira-lata ameace ela ou nosso bebê."
Então, com um estalo doentio, ele pisou na cabeça de Sombra. O tempo parou. Meu grito foi arrancado da minha garganta, cru e primitivo. "Não! Heitor, não!" Mas era tarde demais. O corpo de Sombra ficou mole. Seus olhos, vidrados e sem vida, olhavam para o nada. Meu amado Sombra. Morto. Assassinado. Pelo homem que eu amava.
Eu desmoronei, meu mundo desabando ao meu redor. "Ele era inocente", solucei, agarrando o corpo sem vida de Sombra, minhas lágrimas se misturando com seu sangue. "Ele era inocente."
"Não se preocupe, querida", Carolina ronronou, envolvendo seus braços em Heitor. "Vou me encarregar de descartá-lo adequadamente. Talvez possamos até... empalhá-lo. Um troféu, na verdade, para nos lembrar de sua proteção inabalável." Suas palavras eram uma zombaria distorcida, um insulto final e grotesco.
Heitor assentiu, completamente impassível com minha angústia. "Faça o que achar melhor, Carolina." Então ele se virou para mim, seu olhar frio como gelo. "E você. Você está confinada ao seu quarto. Até eu decidir o que fazer com você." Sua voz não deixava espaço para discussão.
Meu corpo foi agarrado por dois guardas corpulentos. Eles me arrastaram, meus gritos morrendo na minha garganta, meus olhos fixos na forma imóvel de Sombra. O mundo se turvou, um caleidoscópio de dor e traição. Fui jogada em um quarto pequeno e sem janelas nos aposentos dos empregados, trancada como um animal.
Os dias que se seguiram foram um borrão de tormento. Eles me davam restos de comida, mal o suficiente para sobreviver. Carolina me visitava, seu sorriso arrepiante, seus olhos triunfantes. Ela descrevia em detalhes requintados como o corpo de Sombra havia sido tratado, como seu pelo estava sendo preparado para uma "exibição especial". Cada palavra era uma faca se torcendo em minhas entranhas, projetada para me quebrar, para me destruir pedaço por pedaço. Minha mente, já abalada, cambaleava com o ataque psicológico. Eu alucinava com Sombra, abanando o rabo, cutucando minha mão. Então as imagens se distorciam, seus olhos vazios, seu corpo quebrado.
Uma tarde, a porta rangeu ao se abrir. Carolina estava lá, um sorriso doce e venenoso nos lábios. "Heitor quer te ver", ela anunciou, sua voz doentiamente doce. "Ele quer que você veja algo." Meu coração batia forte com uma curiosidade mórbida. Que novo inferno me aguardava?
Ela me levou não para a casa principal, mas para um anexo que eu nunca tinha visto. O ar era pesado, metálico e frio. Uma porta se abriu, revelando um quarto esparso e bem iluminado. No centro, em um pedestal branco imaculado, estava Sombra. Não o verdadeiro Sombra. Era ele, sim, mas empalhado. Seus olhos eram de vidro, sua postura anormalmente rígida. Uma paródia grotesca da vida.
"Não é requintado?", Carolina se gabou, sua voz um sussurro cruel. "Heitor achou que seria uma bela lembrança. De como ele protege ferozmente o que é seu." Ela acariciou o pelo rígido, seu toque uma profanação. "Ele decidiu chamá-lo de 'Lealdade'."
Meu estômago revirou. Uma onda de náusea me invadiu, quente e amarga. "Você é um monstro", engasguei, minha voz mal um sussurro.
O sorriso de Carolina se alargou, revelando um lampejo de malícia genuína. "Oh, Bruna. Você não tem ideia de como os monstros realmente são." Ela então gesticulou para uma pequena caixa ornamentada em uma mesa próxima. "E para você, uma pequena lembrança." Ela a abriu. Dentro, aninhado em veludo, havia um pingente de prata. Era o mesmo pingente que pendia da coleira de Sombra, aquele que Heitor lhe dera. Agora, estava polido a um brilho doentio, gravado com a única palavra: "POSSE".
Heitor entrou, seus olhos desprovidos de emoção. Ele olhou para o Sombra empalhado, depois para o pingente, um leve sorriso de escárnio em seus lábios. "Carolina tem ideias tão atenciosas", ele comentou, como se estivesse discutindo uma obra de arte. "Lealdade, Bruna. Uma virtude que você parece ter esquecido."
"Ele era seu cachorro!", gritei, as palavras rasgando minha garganta. "Você deu a ele aquele pingente! Você o nomeou!"
Heitor apenas ergueu uma sobrancelha. "Não tenho nenhuma lembrança de tal tolice. Talvez sua memória esteja falhando, Bruna. Ou talvez, você esteja simplesmente louca."
Carolina se aproximou de mim, sua voz baixando para um sussurro conspiratório. "Sabe, os restos dele dariam um excelente fertilizante para o meu jardim de rosas. Dizem que o sangue faz as rosas florescerem mais brilhantes." Ela fez uma pausa, seus olhos brilhando. "Ou, se preferir, posso mandar moer os ossos dele até virar um pó fino. Um peso de papel personalizado, talvez? Para sua mesa. Uma lembrança constante."
Um grito gutural escapou de mim. Minha visão se turvou. Avancei sobre ela, uma raiva primitiva me consumindo. Eu não me importava com as consequências, apenas em silenciá-la, em fazê-la pagar pelo sacrilégio, pela profanação. Minhas mãos encontraram sua garganta, minhas unhas cravando. "Você não vai tocá-lo!", gritei, meu mundo se resumindo ao seu rosto aterrorizado.
Mas ela estava pronta. Ela tropeçou para trás, um grito teatral rasgando sua garganta, suas mãos voando para o estômago. Ela não estava grávida há muito tempo, mas a notícia estava fresca na mente de todos. "Meu bebê! Ela está tentando matar meu bebê!", ela lamentou, desabando dramaticamente.
Heitor estava lá em um instante, seus olhos ardendo com uma fúria que eu nunca tinha visto dirigida a mim. Ele me agarrou, seus dedos como garras de aço, e me jogou contra a parede. O impacto me deixou sem ar, minha cabeça batendo no gesso com um baque doentio. "Sua vadia psicótica!", ele rugiu, seu rosto contorcido de raiva. "Você tentou machucar meu filho!"
Ele desferiu golpes em mim, seus punhos atingindo meu rosto, minhas costelas, meu estômago. Eu me encolhi em uma bola, tentando me proteger, mas não havia onde se esconder. Cada soco era uma nova agonia, cada palavra uma nova traição. "Você é um monstro! Uma parasita! Saia da minha vida!"
Através da névoa de dor, vi Carolina, seu cabelo artisticamente desgrenhado, suas roupas levemente desalinhadas, mas de resto ilesa. Ela encontrou meu olhar, um sorriso triunfante e arrepiante em seus lábios. Ela tinha conseguido. Ela tinha me incriminado. E Heitor, meu antigo amor, era seu carrasco voluntário.
Ele não parou até que eu estivesse semi-inconsciente no chão frio, sangue escorrendo do meu nariz e de um corte na minha testa. Ele ficou de pé sobre mim, ofegante, seu peito subindo e descendo. "Tire-a da minha vista", ele ordenou, sua voz pingando nojo. "E pegue aquela... coisa", ele gesticulou para o corpo empalhado de Sombra, "e queime. Nunca mais quero ver isso."
Meu último pensamento coerente antes que a escuridão me consumisse foi a imagem de Sombra, seus olhos de vidro olhando para o nada. Ele se foi. E assim, ao que parecia, se foi todo o último resquício da minha esperança, do meu amor, da minha vontade de lutar. Eu não tinha mais nada. Nada.
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