
A Mentira do Treinador, Minha Verdade Final
Capítulo 3
Minha mãe sempre disse que estaria lá por mim, não importava o quê. Que ela sempre colocaria minha felicidade em primeiro lugar. Agora, eu via a verdade. Suas palavras eram ocas, ecoando o vazio em meu coração. Ela sempre fora obcecada por aparências, pela imagem reluzente de sua filha, a estrela da patinação artística. Minha lesão, minha dor, a traição do meu marido – eram apenas obstáculos inconvenientes no caminho para o retrato de sua família perfeita. Ela não conseguia entender. Ela não conseguia ver a ferida aberta em minha alma. Como eu poderia perdoá-lo quando cada fibra do meu ser gritava traição? Parecia impossível.
Adormeci, o esgotamento finalmente me derrubando, mas foi um sono inquieto e atormentado. Quando acordei, o quarto estava envolto em escuridão, o relógio digital brilhando 2:47 da manhã. O silêncio era opressivo, pesado. De repente, meu celular vibrou, me assustando. Peguei-o, meu coração batendo forte.
"Alina? Você está aí?" Era Caio. Meu melhor amigo de infância, agora um fisioterapeuta esportivo de ponta. Sua voz, mesmo pelo alto-falante, estava cheia de preocupação. "Onde você está, Alina? Tenho tentado falar com você."
"Em casa", sussurrei, minha voz áspera de sono e lágrimas. "Por quê?"
"Ah, graças a Deus", ele suspirou, uma onda de alívio em seu tom. "Eu vi o Heitor. Ele estava no Café da Pista com a Larissa. Rindo. Gastando dinheiro como se fosse água. Eu até o vi comprar um par de patins novos feitos sob medida para ela. Aquelas coisas custam uma fortuna, Alina. Ele estava ignorando ligações, obviamente as suas. Eu sei que ele é seu marido, mas isso não está certo."
Meu estômago se contraiu. Patins feitos sob medida. Era algo que Heitor e eu sempre sonhamos para minha futura participação nas Olimpíadas. Agora, Larissa estava ganhando eles. Por um momento, esqueci minha própria dor, dominada pelo desrespeito flagrante, pela traição financeira. Ele estava despejando nossos recursos compartilhados, recursos destinados à minha recuperação e ao nosso futuro, em sua nova protegida, sua nova amante. Ele me negligenciou, ignorou minha dor e depois gastou generosamente com outra mulher. A injustiça era uma queimadura ardente.
"Eu sei, Caio", murmurei, as palavras com gosto de cinzas. "Eu os vi."
"Você viu?" Sua voz endureceu. "Aquele desgraçado! Como ele ousa! Juro, Alina, vou encontrar aquela garota e dar uma lição nela. Ela não tem o direito de destruir um casamento, de desfilar por aí com seu marido, gastando seu dinheiro!"
Uma centelha de calor, pequena mas real, acendeu em meu peito. Caio. Sempre meu protetor. Sempre do meu lado. Em um mundo que parecia desmoronar ao meu redor, sua lealdade era um farol firme.
"Não, Caio, não faça isso", eu disse, minha voz mais firme do que eu esperava. "Não vale a pena. Eu... eu vou me divorciar dele." As palavras, antes impensáveis, agora pareciam uma verdade desesperada e dolorosa.
Uma pausa. Então, "Você tem certeza? Precisa que eu vá aí? Posso estar aí em vinte minutos. É só dizer."
"Não", respondi, pensando em sua esposa e filhos pequenos. Ele tinha uma família para cuidar, uma vida calma e estável que eu não deveria perturbar com meu caos. "Não venha. É tarde. Eu vou ficar bem. Só... obrigada por me contar."
"Alina", ele disse, e eu pude ouvir a hesitação, a relutância em sua voz. "Tem mais uma coisa. Ouvi uns boatos na pista. A Larissa... ela não é uma garota qualquer. Ela é filha do Holman. Sabe, Ricardo Holman. O antigo mentor do Heitor, aquele que morreu no ano passado."
Minha respiração falhou. Ricardo Holman. Heitor o idolatrava. A morte dele o atingiu duramente. Mas a filha dele? Larissa era filha de Ricardo? E o que Heitor estava fazendo com ela? As peças estavam começando a se encaixar em um quadro muito mais feio.
"E", Caio continuou, sua voz baixando, "ouvi dizer que Heitor tem usado fundos de... bem, de Heitor e você, para treiná-la secretamente. Ele tem investido tudo nela, impulsionando-a, tentando torná-la a próxima campeã. A *sua* campeã, Alina. Ele tem usado o dinheiro de vocês para construir a carreira dela."
O choque foi tão imenso que momentaneamente eclipsou a dor. Minha carreira. Meu dinheiro. Meu futuro. Tudo isso, canalizado para Larissa. Isso não era apenas traição; era uma destruição completa da minha identidade profissional, da minha segurança financeira. O homem que deveria ser meu parceiro, meu treinador, meu maior apoiador, havia sistematicamente desmontado minha vida e a entregado a outra.
"Eu... eu não consigo", gaguejei, as palavras presas na garganta. Minha mente girava, tentando reconciliar o Heitor que eu conhecia com este estranho monstruoso. O homem que havia gerenciado meticulosamente meu treinamento, que havia celebrado cada vitória comigo, estava secretamente planejando minha substituição.
"Alina? Você ainda está aí?" A voz de Caio estava preocupada.
"Estou aqui", consegui dizer. "Eu só... não consigo processar isso agora. Eu simplesmente não consigo ouvir mais nada." O peso de tudo era esmagador.
Assim que desliguei, meu celular vibrou novamente. Desta vez, era uma notificação da nossa conta conjunta. Uma grande transferência. Uma transferência muito grande. Minha mente ficou em branco. Ele estava realmente fazendo isso. Ele estava esvaziando nossas contas.
Meus dedos tremeram enquanto eu discava o número de Heitor. Chamou, chamou e chamou. Finalmente, depois do que pareceu uma eternidade, ele atendeu. Sua voz estava arrastada, distante. "O quê?"
"Heitor, que transferência foi essa?" Minha voz estava tensa, mal um sussurro. "O que você está fazendo com nosso dinheiro?"
Uma longa pausa. Então, um suspiro. "É para o treinamento da Larissa. E o novo apartamento dela. O pai dela não deixou nada para ela. Ela precisa de um lugar para morar, um treinador. Estou ajudando ela." Seu tom era plano, desprovido de qualquer emoção, como se estivesse discutindo o tempo.
"Ajudando ela?" Minha voz se elevou, rachando. "Com nosso dinheiro? Heitor, isso é ilegal! Isso é propriedade compartilhada! Você não pode simplesmente pegar e dar para... para sua amante!" A palavra tinha um gosto vil na minha língua.
"Amante?" Ele zombou, sua voz carregada de desdém. "Não seja tão dramática, Alina. Larissa é uma atleta talentosa. Ela merece uma chance. E você? Você está machucada. Você acabou. Para que você precisa de dinheiro? Só para ficar em casa, sem fazer nada." Ele fez uma pausa. "Além disso, é meu dinheiro de qualquer maneira. A maior parte. Você não trabalha há meses."
A audácia. A pura e absoluta crueldade de suas palavras me tirou o fôlego. "Meu dinheiro? Heitor, fui eu que consegui os patrocínios, o dinheiro dos prêmios! Fui eu que estava no gelo, quebrando meu corpo por nós! Você era meu treinador, meu marido, você deveria proteger meus interesses!" Minha voz tremia, meu corpo inteiro vibrava com uma energia furiosa e desesperada. "Isso é comunhão de bens! Legalmente, é metade meu!"
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