
A Mentira de Cinco Anos do Cirurgião
Capítulo 3
Ponto de Vista de Helena
O silêncio da nossa casa grande e vazia parecia zombar de mim. Era quieto demais, vasto demais para uma pessoa só. Um toque repentino perfurou a quietude opressiva, me fazendo pular. Ricardo. Seu nome brilhou na tela, um lembrete arrepiante da teia de mentiras em que eu ainda estava presa.
"Helena? Você está em casa?" Sua voz, suave e terna, era um paradoxo cruel. Costumava ser minha âncora, minha única salvação no mar tempestuoso da minha suposta doença. Agora, era o canto de uma sereia, me atraindo para a perdição.
"Sim, Ricardo", eu disse, minha voz deliberadamente fraca, um retrato perfeito da esposa frágil que ele esperava.
"Ótimo. Tomou seu remédio? Você sabe como é importante. Não pule, não tente escondê-los." Seu tom era gentil, mas o comando subjacente era claro. Ele estava afirmando seu controle, mesmo à distância.
Meus olhos se desviaram para a mesa de cabeceira, para o frasco âmbar rotulado "Droga Milagrosa Contra o Câncer". Por cinco anos, engoli aquelas pílulas, acreditando que eram minha linha da vida. Agora, eram um símbolo amargo do meu autoengano, da performance cruel que ele havia orquestrado.
Um tremor percorreu meu corpo. Fechei os olhos com força, empurrando para trás a onda de nojo. "Ricardo", sussurrei, deixando minha voz falhar, "eu vou realmente melhorar algum dia? Cinco anos... estou tão cansada dos tratamentos, de me sentir assim."
O receptor estalou levemente, uma pausa momentânea. Então, sua voz voltou, tingida de um pânico súbito e desesperado. "Helena! Não me assuste assim. Você não pode desistir. Eu... eu não posso viver sem você. Você é forte. Lembra? Cinco anos atrás, eles disseram que você só tinha mais três anos. Olhe para você agora. Você desafiou todos eles."
Seu desespero era quase convincente. Quase. Ele estava apavorado de perder sua marionete, sua ilusão cuidadosamente construída.
Ele suavizou o tom, recuando da beira do pânico. "Já estou pesquisando novas terapias, Helena. Experimentais, da Suíça. Você vai vencer isso. Eu prometo. Eu sou o melhor cirurgião de São Paulo, lembra? Estarei com você a cada passo do caminho."
Suas palavras, uma ladainha de promessas vazias e autoengrandecimento, reviraram meu estômago. Ele não estava tentando me salvar; estava tentando me manter. Manter-me nesta gaiola dourada, dependente e grata. Minha garganta se apertou, um soluço silencioso preso no peito. Eu o contive. Ele não merecia minhas lágrimas.
"Ok", eu disse, minha voz mal um sussurro, desprovida de qualquer emoção genuína. "Ok, Ricardo."
Desliguei, o clique ecoando no quarto vazio. Meu olhar caiu sobre uma velha caixa de madeira guardada debaixo da cama, quase esquecida. Ela continha as relíquias do nosso passado, símbolos de um amor em que eu antes acreditava.
Dentro havia trezentas cartas de amor, meticulosamente preservadas. Sua caligrafia, traçando a evolução do nosso relacionamento – dos rabiscos desajeitados de um adolescente aos traços confiantes de um homem maduro. Cada carta, uma declaração. "Minha Helena... meu para sempre... nesta vida, e em todas as outras, prometo ser seu... nunca te trairei."
E então, a última carta. A mais querida, a mais dolorosa. Era sua promessa romântica, assinada e selada pouco antes do nosso casamento. Uma cláusula, ele a chamara, um testamento de sua devoção eterna. Afirmava, em escrita fluida, que se ele algum dia me traísse fundamentalmente, esta carta serviria como um contrato, me concedendo o divórcio imediato e toda a liberdade que eu desejasse. "Aposto minha vida nisso, Helena", ele escrevera. "Considere este meu vínculo inabalável."
Ele há muito esquecera aquelas palavras doces, aqueles votos sinceros. Mas eu não. Eu podia recitar cada palavra, lembrar o calor de sua mão enquanto as escrevia. As memórias, antes preciosas, agora pareciam cacos de vidro, rasgando meu interior.
Ricardo, o garoto que uma vez escalou minha janela só para me trazer flores, o homem que segurou minha mão em cada medo, o marido que me prometeu o para sempre... essa imagem colidiu com o monstro que acabara de confessar ter orquestrado cinco anos de tortura médica. A justaposição era uma dança cruel e agonizante em minha mente. Era uma faca, esculpindo meu coração em pedaços minúsculos e irreparáveis.
Minhas lágrimas haviam secado há muito tempo, substituídas por uma dor surda e latejante. Minhas mãos, ainda trêmulas, alcançaram a velha tesoura ornamentada em minha escrivaninha. Uma por uma, peguei as cartas, cada uma um testamento de um amor que nunca existiu de verdade. Uma por uma, eu as cortei em confete. O papel flutuou até o chão, uma nevasca silenciosa de sonhos desfeitos, cada pedaço um fragmento da nossa história de amor quebrada. Todas, exceto uma. A última carta. O contrato. Sua promessa assinada.
Este documento, antes um símbolo de amor eterno, era agora o projeto da minha liberdade. Ele havia assinado seus próprios papéis de divórcio anos atrás. Ele só não sabia disso.
Você pode gostar





