
A Melodia da Justiça
Capítulo 2
A escuridão foi a última coisa que senti. Não a escuridão de uma sala, mas a do esquecimento total, um vazio frio onde minha voz, antes aclamada por multidões, não passava de um eco silencioso. Minha carreira como cantora gospel, construída com anos de fé e dedicação, virou pó. Tudo por causa da minha irmã mais nova, Joana. A inveja dela era um veneno que agia lentamente, até o dia do lançamento do meu novo álbum, quando ela aplicou a dose fatal.
Ela sabotou a faixa principal, inserindo mensagens subliminares que me associavam a rituais obscuros. O escândalo foi imediato e devastador. A gravadora rasgou meu contrato. Os fãs que antes me chamavam de anjo, agora me chamavam de demônio. A mídia evangélica me crucificou. Perdi tudo. Minha carreira, minha reputação, minha fé. Em desespero, me refugiei em um convento isolado, buscando silêncio, mas encontrei apenas o eco da minha própria ruína. Foi lá que morri, de coração partido, ouvindo pelo rádio a notícia de que Joana, a nova estrela gospel, ganhava o prêmio de revelação do ano com uma canção que eu havia escrito.
E então, eu abri os olhos.
A luz forte dos refletores me cegou por um instante. O som era uma onda de vozes animadas e música ambiente. O cheiro era uma mistura de perfume caro e canapés. Eu estava de pé, usando um vestido de seda branco que eu lembrava muito bem. Era o vestido do meu lançamento.
Meu coração disparou, não de ansiedade, mas de um choque profundo e impossível. Olhei para minhas mãos. Elas não eram as mãos magras e pálidas da mulher desolada que se rendeu no convento. Eram minhas mãos de antes, fortes, saudáveis.
Virei a cabeça e olhei para o grande banner no palco. "Maria - Lançamento do Álbum 'A Voz da Redenção' " . A data estava lá. Hoje. O dia em que tudo desmoronou.
Eu não estava morta. Eu não estava no convento. Eu voltei.
Voltei para o exato momento em que minha vida foi destruída.
A memória da dor, da humilhação, do abandono, era tão real, tão presente, que precisei me segurar no encosto de uma cadeira para não cair. As lágrimas de Joana, suas falsas declarações de inocência, o olhar de desprezo do meu noivo, a fúria do meu tio, o julgamento de todos... tudo voltou em uma avalanche.
Mas desta vez, não havia desespero. Havia uma fúria fria e clara como gelo. Eu tive uma segunda chance. E eu não a desperdiçaria.
"E agora, vamos ouvir a faixa-título, a canção que promete tocar o coração de todo o Brasil, 'A Voz da Redenção' !" , anunciou o apresentador no palco.
Meu sangue gelou. Era agora. Era a música adulterada.
Meu corpo se moveu antes que minha mente pudesse processar. Eu ignorei os olhares confusos enquanto marchava em direção ao palco, meu vestido branco esvoaçando atrás de mim.
No canto do palco, vi Joana. Ela me olhava com um sorriso dissimulado, um brilho de triunfo cruel em seus olhos. Ela achava que já tinha vencido.
Ela não sabia com quem estava lidando. Não mais.
"Parem a música!" , minha voz soou, não como a de uma cantora, mas como um trovão. O técnico de som, surpreso, congelou com a mão sobre o console. O salão inteiro ficou em silêncio, todos os olhos em mim.
Subi os degraus do palco e caminhei diretamente até Joana. Seu sorriso vacilou, substituído por uma máscara de falsa preocupação.
"Irmã, o que foi? Você está bem?" , ela perguntou com sua voz doce e ensaiada.
Eu parei a centímetros dela, olhando-a de cima. O barulho da minha respiração era a única coisa que eu ouvia.
"Joana" , eu disse, minha voz baixa e cortante, para que apenas ela e as pessoas mais próximas ouvissem. "Quem te deu permissão para se portar como a estrela desta noite? Este palco é meu. Este lançamento é meu."
A surpresa no rosto dela foi genuína. Ela esperava que eu fosse a Maria de sempre, a irmã mais velha, ingênua e passiva. Ela não esperava a mulher que voltou do inferno.
"Eu... eu só estava aqui para te apoiar, irmã" , ela gaguejou.
"Apoiar?" , repeti, um sorriso sem humor tocando meus lábios. "Ou para pegar o que é meu? Eu vi seu olhar, Joana. O mesmo olhar que você tinha quando roubava meus brinquedos quando éramos crianças. A mesma ganância."
Agarrei o microfone do pedestal com força. Olhei para a multidão chocada, para os executivos da gravadora na primeira fila, para o meu noivo, Lucas, que me olhava com reprovação.
"Peço desculpas pela interrupção" , anunciei, minha voz ressoando pelo sistema de som. "Houve uma pequena tentativa de sabotagem. Mas não se preocupem. O show vai continuar. Apenas com algumas mudanças no elenco."
E com isso, olhei diretamente para Joana, meus olhos prometendo a ela a justiça que me foi negada na minha primeira vida. O pânico começou a se espalhar pelo rosto dela. Ela finalmente entendeu. A caça havia virado o caçador.
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