
A Lente Enganosa do Fotógrafo
Capítulo 2
Ponto de Vista de Helena Wallace:
Minha voz, quando saiu, era um som cru e engasgado. "Arthur, você mentiu para mim. Por três anos. Tudo foi uma mentira."
Ele ficou paralisado no corredor, o celular ainda na mão, o nome de Isadora uma marca em brasa na tela. Seus olhos, geralmente tão quentes e cheios de luz, agora estavam nublados com algo que eu não conseguia decifrar — pânico, talvez, ou um tipo desesperado de arrependimento.
"Helena, por favor", ele começou, a voz baixa, mas eu o cortei.
"Por favor, o quê? Por favor, finja que não está acontecendo? Por favor, finja que não vi um milhão de comentários expondo toda a sua vida secreta?" Minha garganta se apertou, as palavras arranhando minhas cordas vocais. "Você é Chiaroscuro. Você é um fotógrafo famoso. E você me deixou acreditar que não conseguia nem tirar uma foto nítida do meu rosto."
Ele engoliu em seco, o olhar caindo para o chão. O silêncio se estendeu, denso e sufocante, entre nós. Cada segundo parecia um peso físico pressionando meu peito.
Finalmente, ele falou, a voz mal acima de um sussurro. "Sim, eu era Chiaroscuro. E sim, Isadora... ela era minha musa. Meu mundo, por muito tempo." Ele fez uma pausa, uma respiração profunda e trêmula escapando de seus lábios. "Não vou mentir e dizer que nunca penso no passado. Às vezes, uma música, um cheiro... traz de volta memórias."
Meu coração se apertou, uma contração dolorosa e visceral. Meu mundo, por muito tempo. Ele estava admitindo. Admitindo que ainda sentia algo por ela.
"Mas Helena", ele continuou, levantando os olhos para encontrar os meus, um apelo desesperado em sua profundidade. "Isso foi antes. Agora é agora. Temos uma vida juntos. Uma vida boa."
Uma vida boa construída sobre uma base de mentiras. A ironia era um gosto amargo na minha boca. Ele realmente achava que isso era suficiente? Que algumas palavras doces poderiam apagar anos de engano?
"Então", insisti, minha voz trêmula, mas firme, "se Isadora, seu 'mundo', de repente precisasse de você, realmente precisasse de você... o que você faria? Você largaria tudo por ela?"
Ele vacilou, os olhos se desviando. "Helena, isso é injusto. Ela é apenas uma amiga agora. Um capítulo passado." Ele deu um passo hesitante em minha direção, estendendo a mão. "Vem aqui, vamos conversar sobre isso direito. Você está chateada, e eu entendo. Mas podemos superar qualquer coisa."
Eu me afastei, balançando a cabeça. "Não. Não, não vamos apenas conversar. Eu te fiz uma pergunta direta. Você iria até ela?" Minha voz estava subindo agora, traindo o medo cru que se enrolava em meu estômago. "Porque ela claramente não é apenas um 'capítulo passado' para você, Arthur. Não quando você chora por fotos dela. Não quando você abandonou sua paixão por ela."
Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo. "Você está cansada, Helena. Vamos descansar um pouco. Conversamos de manhã." Ele tentou me contornar, indo em direção ao quarto.
"Não!" Eu gritei, o som ecoando no apartamento silencioso. "Não, não vamos descansar! Não vamos conversar de manhã! Eu quero uma resposta, Arthur. Agora mesmo."
Minha mente disparou, conectando pontos que eu nem percebia que existiam. Sussurros na indústria, rumores da recente queda na carreira de Isadora, uma campanha fracassada, uma necessidade desesperada de um retorno. Um fotógrafo lendário seria seu bilhete de ouro. E Arthur, meu marido, era essa lenda.
O pensamento, nu e arrepiante, me atingiu: ele iria. Ele me deixaria. Ele ainda a amava.
"Diga-me, Arthur", sussurrei, minha voz quebrando. "Você vai voltar para ela? É isso? Você vai me deixar por Isadora?"
Ele parou, de costas para mim, os ombros caídos. "Não", disse ele, a voz rouca. "Claro que não."
Como se fosse um sinal, seu celular, ainda em sua mão, vibrou novamente. A tela se acendeu, um farol no corredor escuro. Isadora Roth.
Minha respiração falhou. Ele tentou se virar, para atender discretamente. Mas eu fui mais rápida. Eu me lancei, agarrando a manga de sua camisa, meus dedos cravando. "Atenda", exigi, minha voz baixa e feroz. "Atenda. No viva-voz."
Ele congelou, o corpo rígido, os olhos arregalados com uma mistura de medo e algo parecido com desespero encurralado. Ele olhou para o celular, depois para mim, e de volta para o celular. O zumbido continuou, implacável.
Finalmente, com um suspiro derrotado, ele colocou no viva-voz.
"Arthur, querido?" A voz de Isadora, suave e ofegante, encheu a sala. "Meu amor. Que bom que você atendeu."
Meu amor. As palavras foram uma faca no meu peito. O corpo de Arthur enrijeceu ainda mais. Ele não disse nada, apenas encarou o celular como se fosse uma cobra venenosa.
"Eu preciso de você, Arthur", continuou Isadora, sua voz carregada do que parecia ser uma angústia genuína. "Meu desfile... é um desastre. Meu fotógrafo acabou de ir embora, alegando que não consegue mais 'capturar minha essência'. Está uma bagunça. Minha carreira inteira está em jogo." Sua voz falhou, um soluço frágil. "Só você entende de verdade minha luz, minhas sombras. Só você pode fazer isso. Por favor, por favor, volte para mim."
Os olhos de Arthur, arregalados e desfocados, pareceram vidrados. Ele ficou ali, como uma marionete cujas cordas foram tomadas por uma mão invisível. Eu ainda estava agarrada à sua manga, mas ele nem parecia mais notar minha presença. Seu olhar estava fixo em algum ponto distante, perdido em uma memória, uma fantasia, um passado que de repente estava muito, muito presente. Toda a sua atenção, todo o seu foco, se voltou para ela, como a agulha de uma bússola encontrando o norte verdadeiro.
"Por favor", sussurrou Isadora novamente, a voz embargada por lágrimas não derramadas. "Estou tão perdida sem você."
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