
A Lente Enganosa do Fotógrafo
Capítulo 3
Ponto de Vista de Helena Wallace:
A cabeça de Arthur se ergueu. "Isadora, você está bem? O que aconteceu? Me conte tudo." Sua voz era um sussurro frenético, um contraste gritante com o tom seco e impaciente que ele usou comigo horas atrás. Ele parecia totalmente consumido, como se o mundo tivesse encolhido para abranger apenas a crise dela.
Eu olhei para ele, depois para o celular, e de volta para ele. Meu próprio choque espelhava o silêncio momentâneo de Isadora do outro lado. Até ela parecia surpresa com a pura intensidade de sua resposta.
"Você está falando sério, Arthur?" As palavras rasgaram minha garganta, cruas e ásperas. "Você vai mesmo? Por ela?" Todas as esperanças que eu secretamente nutria, a pequena centelha de excitação sobre nosso aniversário, sobre a notícia que eu carregava, piscaram e morreram. "E o nosso aniversário? E o... nosso jantar de família amanhã à noite? A surpresa que eu estava planejando?"
Ele sempre falava em querer filhos, um pequeno Arthur ou uma pequena Helena. Ele até escolheu nomes. Eu imaginei contar a ele, ver a alegria iluminar seu rosto. Agora, essa visão se desfez em pó.
"Arthur? Quem é essa?" A voz de Isadora, embora suave, cortou meu desespero. Seu tom era inocente, quase infantil, mas eu podia ouvir a sutil ponta de cálculo por baixo.
Eu não esperei Arthur responder. Meu aperto em sua manga se intensificou. "É a esposa dele, Isadora. Helena. A esposa legal dele."
Um instante de silêncio. Então Isadora soltou um pequeno e delicado suspiro. "Ah, eu... eu não sabia. Arthur, me desculpe. Eu não deveria ter ligado. Eu só estou... tão desesperada." Sua voz era uma sinfonia de fragilidade.
Arthur olhou para mim, um lampejo de algo — irritação? raiva? — cruzando seu rosto. "Helena, é só um desfile de moda. É só um trabalho. Estamos apenas conversando." Ele tentou puxar o braço.
Apenas conversando. Apenas um trabalho. Minha garganta queimava com palavras não ditas. Quando ele correu para o meu lado, frenético de preocupação, quando meus "trabalhos" estavam em jogo? Quando ele se ofereceu para largar tudo, só porque eu estava "desesperada"? Sua "incompetência" com uma câmera sempre o protegeu convenientemente de ter que se envolver de verdade com meu mundo profissional, muito menos salvá-lo.
O ar no corredor parecia pesado, denso com acusações não ditas e o clamor de um passado que se recusava a permanecer enterrado.
"Não, Arthur, tudo bem", a voz de Isadora voltou, agora tingida de uma nobreza trágica. "Helena está certa. Não é justo com ela. Eu... eu vou dar um jeito. Vou encontrar outra pessoa. Fique com sua esposa." A linha clicou, um som suave e final.
"Não!" Arthur gritou, sua voz aguda de desespero. Ele pressionou freneticamente o celular contra o ouvido, esperando que ela não tivesse desligado. "Isadora, espere! Não desligue!"
Ele se virou para mim então, seus olhos em chamas, uma fúria que eu nunca tinha visto dirigida a mim. Ele puxou bruscamente o braço do meu aperto, seus dedos cravando no meu braço enquanto ele afastava minha mão. A força me surpreendeu, enviando uma pontada de dor pelo meu braço. Ele nem pareceu notar.
"O que você está fazendo, Helena?" ele sibilou, a voz baixa e perigosa. "Você está tentando arruinar a carreira dela? Ela precisa de mim! Isso é importante!"
Importante? Minha própria carreira, aquela que eu construí com minhas próprias mãos, a que nos mantinha neste lindo apartamento, a que ele abertamente depreciava como "videozinhos de influencer" — isso nunca foi importante o suficiente para ele sequer fingir pegar uma câmera. Mas a carreira de Isadora, seu desfile de moda, sua "essência", isso valia a pena abandonar sua esposa, sua casa, seu aniversário.
Um vazio frio e doloroso se instalou em meu estômago. O bebê. Meu bebê. Esta pequena vida crescendo dentro de mim deveria ser o ápice do nosso amor, o começo da nossa família. Eu suportei semanas de náusea, a fadiga que roubava minha energia, a preocupação constante com minhas parcerias de marca, sabendo que meu corpo estava mudando, sabendo que eu poderia ter que me afastar da própria carreira que ele agora zombava. Eu não reclamei. Nenhuma vez. Porque era por nós. Por ele.
E agora, aqui estava ele, furioso comigo, por ela.
Lágrimas, quentes e imparáveis, escorriam pelo meu rosto. Meu peito doía, uma dor profunda e oca. Isso não era apenas sobre um segredo, ou uma câmera. Era sobre onde eu me encaixava na vida dele. Em lugar nenhum.
Ele nem olhou para as minhas lágrimas. Já estava puxando uma mala de viagem do armário, jogando roupas com uma eficiência furiosa. "Eu tenho que ir. Ela precisa de mim. Te ligo quando pousar." Ele não olhou para mim, não me tocou. Apenas fechou o zíper da mala.
Ele parou na porta, a mão na maçaneta. "Você deveria descansar um pouco, Helena. Você está exagerando." Ele abriu a porta.
"Arthur", implorei, minha voz mal um sussurro, quebrada e desesperada. "Não vá. Por favor. Se você sair por essa porta agora... você vai se arrepender."
Ele fez uma pausa, de costas para mim. Por uma fração de segundo, pensei que ele poderia se virar. Ele poderia me ver, realmente me ver, parada aqui, quebrada e suplicante.
Então, ele suspirou, um som de resignação cansada. "Adeus, Helena."
A porta se fechou com um clique, o som ecoando pelo vazio súbito e vasto do nosso apartamento. Fiquei ali, enraizada no lugar, ouvindo seus passos se afastarem, depois o zumbido distante do elevador, levando-o para longe. Para ela.
Minha mão instintivamente foi para minha barriga, um toque pequeno e hesitante. Meu bebê, pensei, uma nova onda de lágrimas me lavando. Estamos sozinhos.
Olhei para o meu celular novamente. O número da clínica ainda estava na tela. Meus dedos, ainda tremendo de seu toque áspero, não hesitaram desta vez. Disquei.
"Sim", sussurrei no receptor, minha voz embargada por lágrimas não derramadas. "Gostaria de confirmar minha consulta para hoje. E... acho que não vou precisar de um ultrassom, afinal. Apenas... o outro procedimento."
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