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Capa do romance A Irmandade acima de tudo

A Irmandade acima de tudo

Está é uma obra de ficção apenas com o intuito de entreter o leitor. Falas, ações e pensamentos de alguns personagens não condizem com os da autora. O livro contém descrições eróticas explícitas, cenas gráficas de violência física, verbal e linguajar indevido. Indicado para maiores de 18 anos. Como a história se passa na Rússia, o significado das palavras estrangeiras encontra-se num glossário oferecido no início do livro. Sobre trademark ™, a autora reconhece aos legítimos donos das empresas e marcas citadas nesta ficção o devido crédito, agradecendo o privilégio de citá-las pelo grau elevado de importância e credibilidade no mercado. PERIGOSAS ACHERON PERIGOSAS NACIONAS Glossário Otets: Pai. Mat': Mãe. Beret: Boina. Blagadaryú: Agradeço. Daragáya: Querida. Mílaya: Querida (sentido romântico). Bratstvo prezhde vsego: A Irmandade acima de tudo (Juramento e lema da irmandade) Kheruvim: querubim Suka: Cadela (suki: cadelas) Zavtrak: Café da manhã. Koroleva: Rainha Ne: Não Da: Sim Sinochek: Filho. Doch: Filha. Bolotnik: Uma besta imunda que vive no PERIGOSAS ACHERON PERIGOSAS NACIONAIS pântano, disfarçada de monte, devorando suas vítimas. Svolach: Idiota. Vot eto pizdets: Que droga! Pizdets: Droga! Idi na hui: Vá se foder! Mudak: Homem que se comporta de forma imprudente Gandon: A palavra é usada em referência a uma pessoa desagradável, mas é bastante vulgar, pode ser usada como nome de rua para preservativos. Zhizn 'ebet meya: A vida está fodendo comigo. Ye-bat: Porra! Suchka: Cadela, ou uma forma carinhosa das mulheres se xingarem tipo: Sua cretina. A palavra é mais usada entre as mulheres. Gavno: Merda! Pakhan: Chefe/Papa Avtoriyet: Segundo em comando. PERIGOSAS ACHERON PERIGOSAS NACIONAIS Sovietinik: Conselheiro Derzhatel: Apoio Obshchak: Grupo de segurança. Obschaka kniga: secretário/livreiro. Boyevik: Guerreiros/soldados Shestyorka: iniciantes/associados Pidoras: gay Kisca: gatinha Sirniki: sobremesa, a massa pode ser frita ou assada, recheada com queijo cottage. Chak-chak: É feito com massa de farinha de trigo e ovos crus em forma de palitos e bolas. Os chak-chak prontos são colocados em um prato e regados com um xarope quente feito à base de mel. Smert': Morte. Ya skuchal po tebe: senti sua falta. Ya lyublyu tebia: eu te amo. Zólattse mayó: meu ouro.
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Capítulo 2

Vladic me fez voltar para casa e eu fui

direto para o chuveiro. O corte no supercílio estava

feio, provavelmente iria precisar de alguns pontos,

mas não tão ruim como pretendia deixar Boris

quando colocasse minhas mãos nele. Fiz os

cuidados que pude em frente ao espelho, depois,

peguei um conjunto de terno no closet, preto, que

era assim como me sentia por dentro, sombrio. A

minha vida toda fui preto e cinza, as cores vieram

com Kyara e seu sorriso de querubim.

Quando desci para a sala de investigação,

Ivan e sua equipe já estavam na ativa. Os

equipamentos que ele iria precisar estavam

terminando de ser montados.

— Papa, ordenei que trouxessem o

Dembinsky imediatamente — disse Ivan assim que

entrei – Os outros Kapitany estão sendo caçados.

Além do terno escuro que ele costumava

usar, desta vez tinha um tipo diferente de headset

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na cabeça, assim como os demais homens em seu

comando.

— Eu quero interrogar o Dembinsky, no

meu escritório — disse a ele e fui em direção à

mesa onde aparelhos de escuta e computadores

estavam sendo instalados e testados.

Isso me fez pensar em Kyara. A tela de

bloqueio do meu computador era uma imagem

abstrata se formando, mas quando dava o enter, o

plano de fundo surgia com uma foto nossa, a

mesma que havia em meu celular e que ela

praticamente tinha me obrigado a colocar ali. Na

verdade, eu troquei o gesto, que disse a ela ser

piegas, por uma boa foda em cima da mesa. Mas eu

gostava de olhar para a imagem, vez ou outra,

quando as coisas no trabalho ficavam mais calmas.

Menos de uma hora depois, um Boyevik

surgiu, avisando que Dembinsky já estava em meu

escritório. Caminhei cegamento até lá e quando

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avistei o Kapitan, fui direto em seu pescoço,

fazendo-o se erguer da cadeira.

— Onde ela está, seu desgraçado?

Dembinsky agarrou meus pulsos e seu

rosto foi ficando vermelho conforme eu o

pressionava. Por mim, estava tudo ótimo, poderia

apertar seu pescoço até ver a vida esvaindo de seus

olhos assustados, sentindo um enorme prazer.

Dmitri Milanovic estava adormecido, esse era

apenas de Kyara, sob a minha pele estava apenas o

Pakhan. Ele mataria cada Kapitan com suas

próprias mãos e usaria seus ossos para palitar os

dentes.

Mas eu não podia matar Dembinsky, antes,

precisava das informações que ele tinha.

— Eu não…. — ele tentou falar enquanto

puxava o ar profunda e desesperadamente,

massageando a garganta dolorida, quando o soltei

— não sei do que está falando.

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— Ah, mas você sabe — me agigantei

diante dele o intimidando ainda mais com o olhar.

Suas mãos seguravam firme o braço da

cadeira, puxei o dedo mindinho com força e

Dembinsky urrou de for quando o quebrei.

— E vai me contar tudo o que sabe

enquanto quebro cada um dos seus dedos,

considerando se vou ou não arrancar cada um deles.

Dembinsky era um homem velho e assim

como as crianças, eram menos resistentes à tortura.

Protegemos os mais fracos, desde que nunca

infrinjam a lei, ou traiam seu Pakhan como ele

havia feito.

Nove dedos quebrados depois e muito

sangue jorrando do nariz e boca estourada,

Dembinsky implorava por misericórdia. Ele só

deixou mais claro, contando em detalhes, os planos

de Boris que já conhecíamos, as conversas que

rolavam em todos os encontros e deu nomes e

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confirmou todos os Kapitany que se uniram a Boris

contra mim. Era um número significativo, mas não

me inspirava preocupação. Oito Kapitany de

segunda elite, Dembinsky e Kamanev.

— Eu não sei onde ele está — balbuciou

ele cuspindo sangue — Kamanev nunca

compartilhou com a gente essa parte do plano. A

ideia era aproveitar que todos teriam acesso no seu

casamento e destruí-lo.

Eu sabia quando um verme como ele

estava mentindo ou dizendo a verdade. E assim

como o empregado de Boris, Kapitan Dembinsky

havia confessado tudo o que sabia e eu não perderia

mais tempo com ele. Neste caso, tempo era tudo.

Kamanev não queria apenas a minha morte para

ocupar meu lugar. Ele tinha obsessão doentia por

Kyara. Só de pensar que o maldito poderia estar

tocando-a contra sua vontade me deixava maluco.

— Leve-o daqui, Vladic — ordenei ao me

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afastar de Dembinsky, me controlando para não pôr

fim à sua vida de merda com minhas próprias mãos

— Deixe-o nu e leve-o para os corvos famintos se

alimentarem.

Dembinsky merecia uma morte mais cruel,

ser devorado lentamente pela bicadas da criação de

corvos que mantínhamos em uma das instalações

ao redor da arena para onde os Kapitany estavam

sendo levados, um a um.

— Não! — ele gritava ao ser arrastado

pela porta, mas com as mãos nas costas mantive

meu olhar fixo na janela — Eu sei de outra coisa

muito importante. Por favor, eu juro lealdade.

— Tarde demais, Dembinsky — sussurrei

quando a porta foi fechada atrás de mim — Para

você e todos os que ajudaram Boris até aqui.

Antes de tudo isso acontecer, eu tinha

ideia de fazer uma briga justa. Meus melhores

soldados contra os Kapitany que fizeram aliança

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com Kamanev. Se Kapitan ganhasse pouparia sua

vida e os manteria como escravos. Se meu Boyevik

ganhasse, herdaria o título de Kapitan.

As ações de Boris e o sequestro de Kyara

mudaram tudo isso. Não haveria piedade de

ninguém. Um Kapitan lutaria contra o outro por sua

vida nas jaulas até que só restasse um. Seria um

banho de sangue cruel, no qual meus olhos iriam se

deliciar. Depois disso, duvidava que qualquer

pessoa na Bratva ousaria ameaçar o Pakhan outra

vez.

Estava prestes a voltar para a sala onde

Ivan estava quando meu celular tocou em minha

mesa.

— Milanovic?

Fechei os meus dedos até que os nós

começassem a ficar brancos e minha pele, esticar.

— Kamanev?

Eu sabia que era ele. O risinho provocativo

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não deixava dúvidas disso.

— Peguei você — foi tudo o que ele disse

ao desligar.

Apertei o telefone com a mesma força e

gana que tinha feito no pescoço de Dembinsky.

Eu vou acabar com o desgraçado do

Boris, nem que seja a última coisa que faça em

minha vida!

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Capítulo 38

Kyara Smirnov

Amar alguém é sentir a presença dela,

mesmo quando não se está olhando. Eu conhecia o

cheiro de Dmitri, o toque dele, o magnetismo que

ele emitia, por isso, a pessoa que se encontrava ao

meu lado na cama, deslizando a mão por minha

coxa, não era Dmitri.

Abri meus olhos assustada e rastejei pela

cama ficando o máximo que eu podia das mãos

asquerosas que me acariciavam.

— O que você faz aqui?

O quarto estava na penumbra, mas eu via

perfeitamente a figura de Boris. Odiar alguém

como eu o odiava, também nos fazia reconhecer a

pessoa em qualquer circunstância, o medo nos

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alertava.

— Vim ver como você está — ele se

ergueu e foi até o interruptor de luz, fazendo o

quarto clarear.

Eu não sabia se ficava aliviada por ele ter

se afastado ou se me sentia amedrontada por ter

agora seus olhos lascivos em cima de mim.

— Há quanto tempo está aqui?

Que ele me tocava, não deveria ser muito

tempo, acordei rapidamente ao sentir um toque

estranho. Mas há quanto tempo Boris estava no

quarto?

Lembrei dos primeiros dias na casa de

Dmitri quando ele também me manteve presa. Em

uma das noites, senti a presença dele, que admitiu

ter visitado meu quarto, em uma de nossas

conversas na casa da Suíça, mas ele nunca ousou

me tocar quando estive dormindo.

— Com medo de mim, Kya? — ele tornou

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a se aproximar, a cada passo que dava, eu me

encolhia na cama um pouco mais — Eu nunca te

faria mal, a menos que merecesse.

A revolta despertando dentro de mim

confirmava que neste caso ele me machucaria

muito. Minha maior vontade era avançar contra a

garganta de Boris.

— Seja uma boa menina sempre — ele

continuou a dizer, eu dei uma olhada no quarto à

procura de algo como defesa.

A única coisa por perto era o abajur em

uma mesa próximo à cama. Contudo, Boris

acompanhou meu olhar e fechou a cara em claro

sinal de raiva.

— Não sei que tipo de lavagem cerebral o

Milanovic fez com você — disse ele estreitando os

olhos —, mas eu vou reverter. Voltará a ser a

mesma Kyara por quem me apaixonei.

Eu não acreditava em um amor como o

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dele, e mesmo que acreditasse, a Kyara que ele diz

estar apaixonado não existia mais. Aquela era

medrosa e obediente por medo de represálias. Sou

mais forte hoje e meu amor por Dmitri, estar ao

lado dele, me ajudava a crescer. O problema é que

Boris era um surtado. Ele queria ser meu Joker mas

eu não tinha pretensão alguma de ser a Harley

Quinn.

— Ainda sou a mesma, Boris — disse em

uma voz mansa — Sua irmãzinha.

Para lidar com um louco às vezes era

preciso agir como tal. Contudo, minhas palavras

finais foram como gatilho na ira de Boris que veio

até mim como um búfalo desnorteado e agarrou o

meu queixo com força.

— Você nunca foi minha irmã, nunca —

seu aperto agressivo criou lágrimas em meus olhos

— Será a minha mulher e mãe dos meus filhos. E

eles serão incríveis, meu amor. Guerreiros fortes e

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inteligentes. Uma mistura perfeita de nós dois.

Pensei no bebê em meu ventre e levei o

braço em volta dele como se assim pudesse o

manter protegido de Boris. Graças aos céus ele não

notou o meu gesto e se notou, não soube ler.

Pensar em qualquer contato íntimo com

Boris que rendesse frutos me fazia ficar enjoada a

ponto de querer vomitar.

— Seremos invencíveis — continuou

Boris — Não essa merda patética que são

Milanovic e Vladic Guriev. Falando em Dmitri,

acabei de falar com ele.

Sua revelação me deixou estática.

— O que disse a ele?

— Que estava comigo. Que veio por livre

espontânea vontade e que não pretende voltar.

Pior que ser sequestrada por Boris, eram as

mentiras que ele poderia inventar. Mas Dmitri

jamais acreditaria nele. Ele sabia que eu o amava.

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Tinha que saber. Mas também, o que poderia

pensar um homem que a noiva desaparece um dia

antes do casamento?

— É mentira! — levantei avançando sobre

Boris — É tudo mentira.

Ele agarrou meu pulso, apertando-o forte

até me fazer contorcer.

— Sim, é tudo mentira, não disse nada a

ele, apenas queria ouvir o desespero dele por você.

E queria ver como você iria reagir a isso — disse

ele em um tom de desprezo — Pelo visto, terei um

longo trabalho. Mas posso ser paciente, Kyara.

Esperei por você todos esses anos. Depois, todos

esses meses longe e, agora, posso esperar mais

algumas semanas. Sei como te amansar e logo

estará pedindo que eu a foda, e terá esquecido

completamente Dmitri Milanovic. Até porque não

terá outra coisa para fazer, ele estará morto.

No fundo, eu sabia que não seria assim,

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com raiva e de forma agressiva, que eu conseguiria

lidar com Boris. Dmitri dizia que nas situações

mais tensas precisava-se ter calma e paciência, mas

era muito difícil conseguir suportar calada a tortura

psicológica que Boris fazia.

— A guerra vai começar, Kya. É melhor

escolher logo de que lado prefere ficar — disse

Boris — Ou fará companhia na mesma vala suja

que Dmitri.

Eu preferia um milhões de vezes morrer e

ser jogada em uma vala imunda ao lado de Dmitri

do que pensar em passar um dia que fosse ao lado

de Boris como sua mulher.

— Pense muito sobre isso — reafirmou ele

abrindo a porta — Tempo é o que não lhe falta.

Pelo contrário, pensei ao vê-lo sair, meu

tempo corria rapidamente como areia pelos vãos

entre meus dedos. Eu precisava continuar a me

fortalecer física e psicologicamente para escapar

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daqui, ou, pelo menos, achar uma forma para que

Dimitri me encontrasse e salvasse a mim e o nosso

bebê.

Não sabia quantas horas tinham se passado

desde que Boris saiu do meu quarto e os breves

cochilos que me permiti ter encolhida na cama, mas

o dia já havia clareado quando abri meus olhos

outra vez.

Era o dia do meu casamento com Dmitri.

Evento para o qual passei semanas me preparando e

ansiando. Um sonho que hoje não iria se realizar.

Abracei meu corpo chorando baixinho. Foram dias

preocupada pelo vestido não estar na medida certa.

Agora, me casaria até com essas roupas que usava

se tivesse o homem que eu amava ao meu lado.

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Ainda estava entregue a essa dor física que

a ausência de Dmitri causava em mim quando a

porta foi aberta. Agradeci silenciosamente e

aliviada por não ser Boris, não tinha forças para

lidar com ele.

Feliks trazia uma bandeja com o café da

manhã. Sem olhar para mim ou dizer qualquer

coisa, colocou a comida sobre o criado-mudo e

saiu.

Comi pelo menos um pouco. Embora

soubesse que deveria me alimentar mais, eu não

conseguia.

Mexia distraidamente algo em meu prato

quando, para minha surpresa, Sonya entrou no

lugar do Boyevik.

Fiquei sem reação por alguns segundos

enquanto ela avançava pelo quarto. Diversos

sentimentos passaram por mim.

Raiva. Mágoa. Tristeza. Dor por ter sido

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enganada e traída.

— Sonya.

Ela corria a mão pelo guarda-roupa e

continuou a fazer isso ignorando meu chamado.

— Sonya! — finalmente consegui reagir

indo até ela — Por que você fez isso?

Inconscientemente eu já tinha essa

resposta. Ela nunca foi para mim, por esses anos

todos, a irmã que eu fui para ela. Fui seu bibelô, a

garota que ela se divertia e culpava pelas

traquinagens que aprontava; a garota que mentia e

cubria seus rastros quando era adolescente e a

mulher que colocou os sonhos de ir embora de lado

para ajudar a evitar que Boris a tornasse uma

mulher infeliz se descobrisse a vida leviana que

levava.

— Eu sempre amei você, Sonya — disse a

ela. Dizer essas palavras me feriam por dentro —,

mas você nunca me amou, não é mesmo? Fui

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apenas alguém que você manipulou e usou quando

bem quis.

Só depois de ser amada profundamente por

Dmitri, ter o carinho de Vladic, o respeito e afeto

de Irina e todas as outras pessoas novas em minha

vida, e perder tudo isso, que dei-me conta que os

Kamanev, excluindo os que já morreram, nunca

sentiram nada sincero por mim.

Ela parou de passar a mão sobre a madeira

do guarda-roupa e olhou para mim. Eu não

conseguia ver qualquer expressão em seu rosto.

Braveza, mágoa, arrependimento então, nem sinal.

Seu rosto era uma máscara fria e sem expressão.

— Não vai me dizer nada, Sonya?

Ela começou a caminhar e acreditei que

viria até mim quando seguiu até a porta. E tão

surpresa como me deixou ao entrar, ela saiu. Fiquei

parada no lugar com os punhos cerrados, as unhas

machucando as palmas das minhas mãos.

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Não conseguia acreditar nesses breves

minutos. Frustração e raiva começaram a fazer meu

sangue ferver. Eu tinha desperdiçado meu tempo

desejando respostas quando deveria ter feito Sonya

entender que ela precisava me libertar. Que todo

esse plano de Boris era absurdo e que ajudando-o,

sua vida estava em perigo. Não porque como das

outras vezes estivesse preocupada com ela, mas

porque Sonya podia representar minha única

possibilidade de fuga.

Mexi a maçaneta só para constatar que

estava fechada. Bati o punho contra a porta

chamando Sonya na esperança que estivesse no

corredor ou talvez em algum quarto ao lado do

meu. Gritei até minha garganta arder e minha voz

começar a ficar rouca. Alguns minutos após eu ter

desistido e retornado à cama, Feliks entrou, pegou a

bandeja com os restos do café da manhã e saiu.

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Uma coisa era não sair de casa sem Dmitri

e os Boyevik para manter garantida minha

segurança, outra, era me ver trancada em um quarto

mais uma vez. Dessa vez com a certeza de que o

homem que mantinha as chaves iria me fazer mal,

não apenas fisicamente.

Eu tinha que tentar fugir, mas não

conseguia pensar em nada, então, caminhei até a

janela mais uma vez. Grudei minhas mãos e rosto

contra as grades de ferro. Boyevik armados e

cachorros ferozes faziam o patrulhamento lá em

baixo. Havia muitos homens nos muros, espalhados

pelo campo aberto e de onde eu conseguia ver no

enorme portão. Mesmo que eu conseguisse fugir do

quarto, escapar daqui não seria fácil. Havia muita

gente e cães para me perseguir.

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Meu maior medo era levar um tiro, não por

mim, mas colocasse em risco a vida meu filho.

Voltei para a cama e sentei abraçando meus

joelhos. Para fugir, eu precisava conhecer a casa.

Então, meu plano era praticamente igual ao que tive

quando cheguei à casa de Dmitri, conhecer o

terreno e decidir o melhor momento para a fuga.

Só que diferente de Boris, a intenção de

Dmitri nunca foi me manter trancada no quarto, ele

só usou isso nos primeiros dias para me forçar a dar

informações que acreditava que eu soubesse.

Boris queria me dobrar como um bambu

envergando com o vento. Se eu quisesse que me

tirasse do quarto para conhecer a casa e saber onde

estava, precisava jogar como ele e Sonya, de forma

fria e dissimulada.

Se era a Kyara cordial de antes que Boris

queria de volta, seria a camuflagem dela que eu

usaria para escapar. E comecei a agir quando Feliks

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veio ao quarto trazer o almoço. Pedi educadamente

e com um sorriso doce que ele dissesse a Boris que

queria uma audiência com ele.

— Soube que exigiu me ver — disse ele ao

entrar, parando ao lado da porta aberta, mas que

tinha Feliks à sua guarda.

Boris até era um rapaz bonito, mas

monstruoso por dentro, o que o tornava desprezível

no final.

— Eu solicitei — o sorriso que tentei

emitir soava tão falso que meus lábios tremeram,

me fazendo baixar a cabeça para o prato — Almoça

comigo?

Não obtive nenhuma resposta por um

tempo considerável, até que ergui novamente o

olhar. Boris me encarava com incredulidade,

depois, com suspeita. Eu precisava ser mais

convincente. Ele era louco, mas não burro.

— Não envenenei a comida, Boris — disse

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soltando um risinho e levei uma colherada a boca

— A menos que tenham descoberto que as tintas

nas paredes possam ser usadas como veneno, você

não tem que se preocupar.

Seriam tóxicas ao ponto de causar mesmo

que um desconforto temporário? Irina certamente

saberia se algo como isso era possível.

— É uma pena, mas já fiz minha refeição

— apesar disso, ocupou a segunda cadeira na mesa

de dois lugares — Talvez possamos jantar juntos.

Assenti, mas por dentro tremia com a

possibilidade. Um jantar daria ideias românticas a

Boris e isso era tudo o que eu queria evitar.

— Estava pensando, como você disse, eu

tinha muito para pensar — em diversas formas

muitos cruéis de como Dmitri iria acabar com ele

quando o encontrasse foi uma delas — Você

planejou isso há muito tempo, não é?

Precisava mantê-lo falando para que seu

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foco nunca ficasse em mim, ou melhor, no meu

corpo, como seus olhos estavam.

— Pegar você de volta ou destruir o

Pakhan?

— Vamos começar pelo Pakhan — disse

voltando a comer.

Boris sempre gostou de falar de si mesmo

e das coisas horríveis que fazia como se fossem

dignas de admiração. Massagear o seu ego era a

melhor forma de aproximação. Ela adorava

bajuladores.

— Desde que procurei Milanovic, o filho,

a primeira vez e ele me tratou como se fosse nada.

Eu quase sorri. Esse era o Dmitri que eu

conhecia e amava. Desejei tê-lo conhecido muito

antes. Sem dúvida alguma teria me apaixonado da

mesma forma.

— Eu disse sobre as mudanças que

precisavam acontecer na Bratva, mas ele não me

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ouviu — o ódio em sua voz era tão claro como a

água que eu bebia — Os Milanovic são fracos. O

velho era um decadente que só precisou de um

empurrãozinho para ir dessa para uma pior.

Cuspi a água sobre o prato e procurei

rapidamente o guardanapo enquanto tentava

controlar uma crise de tosse.

— O que… o que você quer dizer?

— Implantei uma espiã na casa dos

Milanovic e entreguei o veneno que causou o

ataque cardíaco dele.

Olhei para ele sem conseguir acreditar.

Boris era ainda mais maquiavélico do que eu

pensei.

— Acha que um plano como o meu foi

pensado da noite para o dia? Acha mesmo que sou

só um cara com raiva ou ciúme de Dmitri? —

indagou se exaltando — Não, minha querida.

Dembinsky, Plotnikov, Matvee, Kovalyov e

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Vakhstein, viemos pensando sobre isso há algum

tempo.

Prendi com força o talher em minha mão,

tentando focar a maior parte da minha atenção

nisso. Boris matou o pai de Dmitri, homem que ele

amava e admirava. Já era a terceira pessoa que eu

sabia que Boris havia executado. Roman, por na

adolescência ter se apaixonado por mim. Fjodor

Kamanev e, agora, Mikhail Milanovic. Quantas

pessoas mais que não mereceram morrer, estavam

na lista de Boris que só parecia crescer?

— Otets Fjodor…

— Meu pai? — ele indagou mostrando seu

desprezo — Não sabia de nada ou teria corrido ao

Milanovic dizendo que seu filho havia ficado

louco.

E ele não estaria errado.

— Nós primeiro tivemos que manter

Dmitri e Vladic bem ocupados para não conseguir

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prestar atenção no que acontecia debaixo de seu

nariz — ele riu se achando um grande gênio —

Quem poderia imaginar que envenenariam o

Pakhan dentro de sua própria casa? Um dos seus.

Se antes eu desprezava Boris, agora, eu o

odiava com todas as forças. Só vi Mikhail

Milanovic uma vez, de longe, na época seu olhar

frio me assustou, mas depois de conhecê-lo através

de seu filho, que usava no trabalho a mesma

armadura, compreendia os dois. Era um escudo

necessário para intimidar e manter o controle.

Ainda assim, malucos como Boris tendiam a surgir

das trevas.

— Meu pai era um fraco que não merecia

estar em meus planos — continuou Boris — E

enquanto avançamos, precisávamos de mais

dinheiro e mais recursos. Eu tive que eliminar o

velho e tomar o controle da família. Mas essa é

uma história muito longa, Kya. Infelizmente, não

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tenho como ficar e passar a tarde contando tudo a

você.

E eu sentia que já tinha escutado o

suficiente. Boris era terrivelmente diabólico.

— É sobre isso que queria falar —

apressei-me em dizer antes que ele saísse — Não

suporto mais ficar trancada no quarto. Posso andar

pela casa e conhecer o jardim?

Ele me estudou por um tempo e abri um

enorme sorriso para ele, fingindo ver Vladic ou

alguém que eu sentia carinho à minha frente.

Precisava ser convincente por mais que isso me

enojasse.

— Hoje não. Mas amanhã eu mesmo a

levo para dar uma volta — disse ele em um tom

brando como se eu fosse uma doente precisando de

cuidados — Descanse, você ainda está muito

abalada.

Sustentei o sorriso até que Boris,

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acompanhado de Feliks, saíssem do quarto. Depois,

joguei o guardanapo em direção à porta, o tecido

não chegou à metade do caminho.

Um dia, Boris Kamanev, esse assassino

odioso, iria pagar por tudo que estava fazendo.

Eu tinha fé nisso porque eu tinha fé em

Dmitri.

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Capítulo 39

Dmitri Milanovic

Com toda a tensão, o corte que fiz em meu

supercílio voltou a sangrar. Estava no quarto

refazendo o curativo quando Vladic surgiu.

— Deu um fim a Dembinsky?

Eu precisava pensar em qualquer coisa que

não fosse Kyara para não começar a perder a razão,

e só tentar fazer isso estava sendo difícil pra cacete.

— Sim, e descobri algumas coisas que…

Se eu não estivesse em meu estado

anormal teria descoberto, foi o que faltou ele dizer.

Apenas fechei a cara, não pela insubordinação, mas

porque ele estava correto. Eu estava deixando meus

sentimentos me dominarem, isso não podia

acontecer nunca.

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— O que você descobriu, Vladic?

— Você quer se sentar?

— Não sou a porra de uma mulherzinha —

olhei zangado para ele.

Isso. Eu tinha que me concentrar na raiva,

lutadores em competição faziam isso, ficavam na

raiva para buscar energia, por isso não era

incomum lutadores passarem semanas antes da luta

provocando um a outro, inflamavam as torcidas e

faziam com que eles mantivessem o foco de quem e

por que deveriam vencer.

— O que você descobriu? — perguntei,

agora com calma. Uma gota de sangue deslizou

pelo meu rosto e Vladic me analisou antes de

responder.

— Precisa ver esse corte. O Dr. Kushin

está lá embaixo, pode dar alguns pontos.

— Não precisava chamar o médico. Eu

mesmo poderia dar os pontos mais tarde.

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Será que como Boris, Vladic me achava

um fraco também?

— Não fiz só por você. Sei que é casca

grossa — explicou ele cruzando os braços — Fiz

por Kyara. Ela pode…

Mais uma vez ele não concluiu. Não

sabíamos como iríamos encontrar Kyara e ela

poderia realmente precisar de ajuda médica.

— Obrigado, Vladic — dessa vez me

sentei na cama esfregando meu rosto — Não pensei

nisso. Acho que não tenho pensado em muitas

coisas, além de encontrá-la logo. Você viu naquele

dia como o Boris olhava para ela. Não é só para me

atingir, ele a quer. Nesse momento, ele pode…

— Dmi, a Kyara sabe se cuidar — disse

Vladic colocando a mão em meu ombro — Lembra

como foi com a gente? Ela tem garras. Só precisa

se manter segura até a gente chegar.

Ele tinha razão, Kyara tinha unhas afiadas

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quando precisava ter, mas Boris era um louco,

somente uma mente insana tentaria algo como ele

fez, enfrentar e desafiar o Pakhan.

— Ele me ligou há pouco — informei a ele

— O Boris. O desgraçado riu na minha cara.

— Contou a Ivan?

— Entreguei o telefone para que tentasse

rastrear a ligação. O número era restrito.

Louco ou não, burro o Boris não era.

— Mas o que você descobriu com

Dembinsky? — voltei ao assunto principal da sua

vinda ao meu quarto — Ele disso algo ao sair que

não me interessei.

— Tem a ver com seu pai e Kamanev.

Ergui da cama em uma postura rígida.

— Você vai me dizer que…

— Isso mesmo — Vladic me interrompeu

— Foi o Boris que manipulou a Yasha para

envenenar o seu pai. Lembra que muitas coisas

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estranhas aconteceram naquele tempo? — houve

incêndios, furtos e mortes, até achamos que a

Tambovskaya estava agindo, mas o líder deles

alegou que não tinham nada a ver com os ataques

que estávamos recebendo — Foi apenas para o

manter distraído do seu pai. E o veneno fez parecer

infarto.

— Eliminar meu pai foi o primeiro passo

para que Boris chegasse onde ele queria — concluí

por fim — Agora, ele quer a Bratva e a Kyara

também. Tudo o que ele sempre mais quis estava

comigo. Mas ele não terá nenhum dos dois. E vou

fazer com que ele pague por ter dado uma morte

tão desonrosa ao meu pai.

— Pode ter certeza que estarei ao seu lado

quando isso acontecer — jurou Vladic.

Meus olhos estavam úmidos, mas não me

permiti liberar as emoções. Estava feito, otets

Milanovic estava morto ao lado de minha mat’; que

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os dois tivessem o descanso merecido.

Cheguei ao escritório e o Dr. Kushin me

encarou com seus olhos de texugo assustado. A

briga com Vladic deixaria Kyara chateada quando

me visse, mas com os devidos cuidados logo os

hematomas desapareceriam.

— Acho que vou precisar de pontos,

doutor.

— Não será o primeiro — ele fez uma

tentativa de gracejar, mas ao notar que nenhuma

expressão surgiu em meu rosto, ficou sério e

indicou a cadeira para que eu me sentasse enquanto

ele colocava sua maleta na mesa — Sei que pode se

remendar sozinho, sempre pôde.

Era parte de ser um guerreiro, e embora

não exercesse a função de um, precisava saber

como lutar, mas também como cuidar dos

ferimentos que recebia.

— Mas o Sr. Guriev também explicou que

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estou aqui de plantão para atender a futura Sra.

Milanovic. Esperamos que nada aconteça. Ela

estava tão feliz com o casamento. Espero que ela

esteja bem, principalmente no estado dela.

— Estado dela? — ele tinha acabado de

colocar a luva e estava com a seringa na mão

quando me virei bruscamente para ele — Que

estado?

Ele mesmo tinha garantido que Kyara

estava bem quando a consultou no dia que a

encontrei desmaiada no banheiro.

O Dr. Kushin ficou pálido e deu alguns

passos para trás. Vladic, que estava atrás, impediu

que se asfaltasse mais com o corpo servindo como

barreira.

— Fale logo, homem! — urrei ao ficar em

pé — O que a Kyara tem?

— Ela disse que iria contar na lua de mel

— disse ele nervoso, tremendo a agulha na sua mão

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— Mas eu pensei que iria contar logo. As mulheres

quase nunca conseguem guardar um segredo, ainda

mais um assim. Pensei que contaria no mesmo dia.

Ele estava enrolando para conseguir minha

piedade, mas só estava me deixando mãos irritado.

— Kushin?

— Ela vai ser a esposa do Pakhan, eu

também tenho que ter a confiança dela. Eu juro que

ela disse que ia contar.

Avancei até Kushin, disposto a arrancar a

confissão nem que fosse com meu punho enfiado

na garganta dele.

— Fale de uma vez — disse Vladic.

— Ela está grávida.

Foi como se eu tivesse levado um soco no

estômago, e pareceu tão real que cambaleei alguns

passos para trás.

— O que disse? — indaguei desnorteado.

— A Srtª Smirnov está grávida. Apenas

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algumas semanas, mas sim. Isso explica o desmaio

daquele dia e outros sintomas.

Kyara estava grávida de um filho meu!

A mulher que eu amava, com quem iria me

casar nas próximas horas, carregava um bebê no

ventre enquanto era mantida prisioneira nas mãos

de um lunático que me odiava.

— Você não me contou nada! — avancei

na direção dele, mas Vladic rapidamente levou o

homem para trás, segurando agora a mim — Sua

obrigação era me contar independente do que ela

dissesse.

Eu a teria protegido melhor. Se eu

soubesse que Kyara estava grávida acho que nem

teria saído de perto dela.

— Dmitri, a gente precisa dele. E foi um

pedido dela, a futura koroleva. Provavelmente ela

queria te fazer uma surpresa. Você, matar o Kushin,

vai deixar Kyara triste — ele olhou por sobre o

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ombro o médico que praticamente chorava — E o

mesmo aconteceria com a sua mat’ [1]se estivesse

viva.

Acontece que eu já não estava

raciocinando bem apenas por saber que Kyara

havia sido sequestrada, agora, saber que meu filho

no ventre dela também corria perigo no mesmo dia

que descobri o assassino do meu pai, me tirava todo

o raciocínio lógico.

Se Boris soubesse disso, que o fruto do

nosso amor estava crescendo dentro dela... Não

conseguia nem imaginar o que ele seria capaz de

fazer, apenas para me desestabilizar. Encontrá-la

agora não era questão apenas de precisa tê-la

comigo, mas de sobrevivência para Kyara e o bebê.

— Tire-o daqui — disse a Vladic ao me

curvar e agarrar firme a borda da mesa — Agora!

Assim que senti a porta fechar às minhas

costas, passei o braço sobre a mesa jogando tudo no

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chão, inclusive a maleta do médico, espalhando boa

parte dos utensílios dentro dela sobre o carpete.

Vidros se quebraram, outros materiais rolaram pelo

chão.

Não satisfeito com isso, fui encolerizado

em direção à estante de livros e a derrubei também.

Tudo o que havia no escritório que pudesse ser

derrubado ou danificado sofreu as consequências

da minha ira.

— Maldito! — urrei erguendo a grande e

pesada mesa, virando-a contra o chão — Maldito!

Maldito!

Como já não havia mais nada a ser

atacado, comecei a socar a parede com força.

Cada murro que eu dava, imaginava ser

Boris Kamanev e isso me fazia socar a parede cada

vez mais.

— Pare com isso! — Vladic me conteve e

me afastou da parede manchada de sangue —

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Quebrar a sua mão não vai te ajudar.

— Meu filho — desabei contra o chão e

Vladic se ajoelhou ao meu lado.

Algo tão bonito e que eu não soube pelos

lábios dela; não pude comemorar enquanto via seus

olhos brilharem de felicidade. O desgraçado

Kamanev também tinha roubado isso de mim.

— Cara, alguns meses atrás você nem

pensava em se casar — disse Vladic me amparando

pelos ombros — Agora, terá uma esposa e um

garoto gritando por você pelos cantos.

— Ou uma menina — consegui dizer —

Como a Kyara. Vai ser bonita pra caralho.

— Vamos fazer um acordo — disse ele se

afastando de mim e rastejando pela confusão na

sala até achar a única garrafa no bar que eu não

tinha desperdiçado em minha fúria — Prometo que

encontraremos Kyara e seu filho, porque só eu

estando morto para não ver esse menino nascer.

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Sequei o meu rosto e aceitei a mão que ele

me dava. Só Vladic para conseguir um pálido

sorriso de mim.

— Você afoga suas mágoas — me

estendeu a garrafa — Pelo menos por essas horas,

Dmitri, você está precisando. E quando descer pela

manhã, preciso que esteja forte.

Eu não queria anestesiar minha dor na

bebida. E muito menos, esperar todo esse tempo

para que Kyara fosse encontrada.

— Ivan…

— Está fazendo o possível, cara — disse

ele insistindo para que eu pegasse a garrafa de

vodka — Todos nós estamos. Mas isso pode durar

algumas horas, como pode durar dias.

No fundo, eu sabia que ele tinha razão.

Um dos motivos que mais me deixava puto com

tudo isso é que eu sabia que Boris estava agindo às

minhas costas. Sabia os motivos das reuniões e iria

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pegá-lo no que eu acreditei ser o momento certo,

mas Boris moveu uma peça que eu não sabia estar

na jogada.

Kyara!

— Você me avisou, Vladic — murmurei

pegando a garrafa — É culpa minha. É tudo culpa

minha.

— O único culpado é o Kamanev — disse

ele — Você fez o que achava certo. Eu achei certo.

Você é meu irmão — disse colocando a mão em

meu ombro — Deixe-me carregar um pouco esse

fardo para você.

Nós éramos irmãos de coração, mas se

fôssemos de sangue, não sei se eu o amaria tanto,

talvez houvesse entre a gente inveja e competição.

Eu preferia um irmão que eu escolhia para ser. Não

eram assim os amigos de verdade, quem

escolhíamos para estar do nosso lado e chamar de

irmão?

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— Está bem — disse passando pelo

amontado de lixo que havia espalhado — Confio

em você, Vladic.

Saí em direção ao meu quarto, já tomando

alguns goles pelo caminho.

Eu havia me tornado o que Boris me

alegava ser: um fraco, porque nesse momento, eu

não tinha condições alguma de lidar com a

frustração e raiva que toda essa merda me causava.

Ao chegar ao quarto, um detalhe novo me

chamou atenção, a folha dobrada em cima da

mesinha de cabeceira do lado onde Kyara

costumava dormir. Caminhei até ela, sentei no

chão, as costas apoiadas contra a cama e comecei a

ler.

Eram os votos de casamento. Votos que

prometemos não ler, mas eu não tinha como não

quebrar essa promessa. Estava faminto por um

pouco de Kyara perto de mim.

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“Eu não sou muito boa com as palavras,

acho que poucas pessoas têm esse dom, mas aqui

expresso com toda sinceridade o que há em meu

coração.

Dimitri.

Meu amor... meu cavaleiro de armadura

negra. Não o que me levou para o seu lindo

castelo, mas o que me libertou das muralhas que eu

mesma havia erguido em volta de mim. Você não

tem apenas duas cores, Dmitri, você é todo o meu

arco-íris.

É seu amor que me liberta todos os dias.

Nunca me senti tão livre, tão protegida e tão

amada. Quero ficar sempre presa em teus braços,

eu te escolhi e te escolheria mil vezes...”

O discurso continuava inflamado, mas já

não conseguia ler. A dor em meu peito era forte

demais. Coloquei a garrafa ao meu lado junto com

a carta enquanto a madrugada escura lá fora surgia.

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Até isso me fazia lembrar Kyara e de quantas vezes

ela passou admirando o céu.

Será que olhava para ele agora?

— Querubim, onde você estiver, estou

pensando em você.

Dmitri Milanovic sofria terrivelmente por

Kyara, mas estava na hora de eu deixar o meu lado

negro falar por mim.

Ele era implacável e traria os dois de volta.

Irina Novitsky

Não haverá mais casamento e o Pakhan

não quer ser incomodado.

Essa foi a única informação que tive

quando o boyevik bateu à minha porta uma hora

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antes de eu começar a me preparar para a

cerimônia. Para mim, a informação e a ordem não

foram suficientes.

Por que Kyara não me ligou avisando?

Afinal, eu era uma das damas de honra. Por que

Dmitri, e até mesmo o insuportável do Guriev, não

entraram em contato comigo se tinham meu

telefone? Por que nenhum deles respondia

nenhuma das minhas dezenas de ligações o dia

todo?

Caramba! Eu tinha me tornado mais do

que a cientista maluca que Dmitri supervisionava.

Eu era a amiga da sua futura esposa, amiga de

todos eles, menos de Guriev. Minha relação com

Vladic era estranha de se explicar. Eu o detestava,

mas ele mexia comigo como nenhum outro homem

foi capaz até hoje. Até Dmitri, a quem sempre

considerei um homem lindo, e o cientista novato e

atraente que eu tinha solicitado que trouxessem dos

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Estados Unidos, não exerciam a mesma fascinação

sobre mim.

Vladic era um grosso, ignorante e burro.

Bom, não realmente burro. Dentro do que ele fazia,

no que ele foi treinado para fazer, não havia pessoa

mais eficiente e preparada que ele. Talvez quem

chegasse mais perto fosse Ivan Trotsky, o chefe dos

Obshchak[2]. Que também tinha muitos músculos,

tatuagens e fazia mais a linha galã de cinema do

que Vladic.

Ele não tinha o rosto perfeitinho. O nariz

era quebrado devido as porradas que deve ter

levado guerreando, treinando o porquê agia como

um cretino mesmo. As orelhas típicas de um

lutador, queixo quadrado e duro. Uma muralha de

músculos, músculos por toda a parte para ser mais

exata e eu sempre admirei mais a massa encefálica

do que a muscular, sorri ao pensar nisso, podia usar

isso contra Vladic quando o encontrasse de novo.

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Os olhos nem eram azuis, mas de um

castanho comum, contudo, traziam algo que o

suavizava; sempre tinha um ar divertido ou de

deboche, principalmente comigo, o que me irritava

mais ainda. Ah, ele também tinha um traseiro de

dar inveja, mesmo que na maioria das vezes

estivesse de terno. Sim, eu havia reparado na bunda

de Vladic. Era quase impossível não reparar, já que

todas as vezes que ele ia embora, meus olhos

fulminantes estavam sobre suas costas, bom,

deveria estar nas suas costas.

A boca também me agradava, bem

desenhada e generosa o suficiente para me fazer

querer mordê-la. E as mãos dele eram firmes e

grandes, já me apertaram firme algumas vezes,

fossem para impedir uma queda ou para me

atormentar.

Isso era uma coisa que ele também sabia

fazer muito bem, foder com a minha mente por

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simplesmente estar no mesmo ambiente que eu. O

problema com Vladic é que ele tinha jeito de

homem, aquele tipo das cavernas que eu deveria

odiar (e eu odiava), mas que também me atraía.

Mas por que eu estava pensando em

Guriev quando minha preocupação deveria ser

Kyara e o casamento que não aconteceria?

Alguma coisa estava muito errada e após

horas tentando entrar em contato com um dos três,

decidi ir até a casa Milanovic e eu mesma encontrar

as respostas.

— Onde você vai? — estava perto de tocar

a maçaneta quando ouvi a voz de meu otets atrás de

mim.

— Vou ver a Kyara — virei para ele e o

encontrei com seu cigarro na mão e copo de vodka

na outra — Pai, o que o Dr. Ian Kovsky disse sobre

não fumar e não beber?

Ele teve um princípio de infarto há alguns

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meses quando seu médico o tinha proibido de

fumar, beber e aconselhado a ter uma vida mais

saudável. Eu ficava de olho e pagava muito bem

Oleg Bezrukov, seu secretário, para ficar de olhos

bem abertos em relação ao meu pai. Depois da

morte do Pakhan, o pai de Dmitri, por infarto,

fiquei ainda mais paranoica em vigiá-lo.

— Aquele merda não sabe de nada —

resmungou ele, mas deixou que eu tirasse o copo e

o cigarro de suas mãos.

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