
A Irmandade acima de tudo
Capítulo 2
Vladic me fez voltar para casa e eu fui
direto para o chuveiro. O corte no supercílio estava
feio, provavelmente iria precisar de alguns pontos,
mas não tão ruim como pretendia deixar Boris
quando colocasse minhas mãos nele. Fiz os
cuidados que pude em frente ao espelho, depois,
peguei um conjunto de terno no closet, preto, que
era assim como me sentia por dentro, sombrio. A
minha vida toda fui preto e cinza, as cores vieram
com Kyara e seu sorriso de querubim.
Quando desci para a sala de investigação,
Ivan e sua equipe já estavam na ativa. Os
equipamentos que ele iria precisar estavam
terminando de ser montados.
— Papa, ordenei que trouxessem o
Dembinsky imediatamente — disse Ivan assim que
entrei – Os outros Kapitany estão sendo caçados.
Além do terno escuro que ele costumava
usar, desta vez tinha um tipo diferente de headset
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na cabeça, assim como os demais homens em seu
comando.
— Eu quero interrogar o Dembinsky, no
meu escritório — disse a ele e fui em direção à
mesa onde aparelhos de escuta e computadores
estavam sendo instalados e testados.
Isso me fez pensar em Kyara. A tela de
bloqueio do meu computador era uma imagem
abstrata se formando, mas quando dava o enter, o
plano de fundo surgia com uma foto nossa, a
mesma que havia em meu celular e que ela
praticamente tinha me obrigado a colocar ali. Na
verdade, eu troquei o gesto, que disse a ela ser
piegas, por uma boa foda em cima da mesa. Mas eu
gostava de olhar para a imagem, vez ou outra,
quando as coisas no trabalho ficavam mais calmas.
Menos de uma hora depois, um Boyevik
surgiu, avisando que Dembinsky já estava em meu
escritório. Caminhei cegamento até lá e quando
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avistei o Kapitan, fui direto em seu pescoço,
fazendo-o se erguer da cadeira.
— Onde ela está, seu desgraçado?
Dembinsky agarrou meus pulsos e seu
rosto foi ficando vermelho conforme eu o
pressionava. Por mim, estava tudo ótimo, poderia
apertar seu pescoço até ver a vida esvaindo de seus
olhos assustados, sentindo um enorme prazer.
Dmitri Milanovic estava adormecido, esse era
apenas de Kyara, sob a minha pele estava apenas o
Pakhan. Ele mataria cada Kapitan com suas
próprias mãos e usaria seus ossos para palitar os
dentes.
Mas eu não podia matar Dembinsky, antes,
precisava das informações que ele tinha.
— Eu não…. — ele tentou falar enquanto
puxava o ar profunda e desesperadamente,
massageando a garganta dolorida, quando o soltei
— não sei do que está falando.
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— Ah, mas você sabe — me agigantei
diante dele o intimidando ainda mais com o olhar.
Suas mãos seguravam firme o braço da
cadeira, puxei o dedo mindinho com força e
Dembinsky urrou de for quando o quebrei.
— E vai me contar tudo o que sabe
enquanto quebro cada um dos seus dedos,
considerando se vou ou não arrancar cada um deles.
Dembinsky era um homem velho e assim
como as crianças, eram menos resistentes à tortura.
Protegemos os mais fracos, desde que nunca
infrinjam a lei, ou traiam seu Pakhan como ele
havia feito.
Nove dedos quebrados depois e muito
sangue jorrando do nariz e boca estourada,
Dembinsky implorava por misericórdia. Ele só
deixou mais claro, contando em detalhes, os planos
de Boris que já conhecíamos, as conversas que
rolavam em todos os encontros e deu nomes e
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confirmou todos os Kapitany que se uniram a Boris
contra mim. Era um número significativo, mas não
me inspirava preocupação. Oito Kapitany de
segunda elite, Dembinsky e Kamanev.
— Eu não sei onde ele está — balbuciou
ele cuspindo sangue — Kamanev nunca
compartilhou com a gente essa parte do plano. A
ideia era aproveitar que todos teriam acesso no seu
casamento e destruí-lo.
Eu sabia quando um verme como ele
estava mentindo ou dizendo a verdade. E assim
como o empregado de Boris, Kapitan Dembinsky
havia confessado tudo o que sabia e eu não perderia
mais tempo com ele. Neste caso, tempo era tudo.
Kamanev não queria apenas a minha morte para
ocupar meu lugar. Ele tinha obsessão doentia por
Kyara. Só de pensar que o maldito poderia estar
tocando-a contra sua vontade me deixava maluco.
— Leve-o daqui, Vladic — ordenei ao me
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afastar de Dembinsky, me controlando para não pôr
fim à sua vida de merda com minhas próprias mãos
— Deixe-o nu e leve-o para os corvos famintos se
alimentarem.
Dembinsky merecia uma morte mais cruel,
ser devorado lentamente pela bicadas da criação de
corvos que mantínhamos em uma das instalações
ao redor da arena para onde os Kapitany estavam
sendo levados, um a um.
— Não! — ele gritava ao ser arrastado
pela porta, mas com as mãos nas costas mantive
meu olhar fixo na janela — Eu sei de outra coisa
muito importante. Por favor, eu juro lealdade.
— Tarde demais, Dembinsky — sussurrei
quando a porta foi fechada atrás de mim — Para
você e todos os que ajudaram Boris até aqui.
Antes de tudo isso acontecer, eu tinha
ideia de fazer uma briga justa. Meus melhores
soldados contra os Kapitany que fizeram aliança
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com Kamanev. Se Kapitan ganhasse pouparia sua
vida e os manteria como escravos. Se meu Boyevik
ganhasse, herdaria o título de Kapitan.
As ações de Boris e o sequestro de Kyara
mudaram tudo isso. Não haveria piedade de
ninguém. Um Kapitan lutaria contra o outro por sua
vida nas jaulas até que só restasse um. Seria um
banho de sangue cruel, no qual meus olhos iriam se
deliciar. Depois disso, duvidava que qualquer
pessoa na Bratva ousaria ameaçar o Pakhan outra
vez.
Estava prestes a voltar para a sala onde
Ivan estava quando meu celular tocou em minha
mesa.
— Milanovic?
Fechei os meus dedos até que os nós
começassem a ficar brancos e minha pele, esticar.
— Kamanev?
Eu sabia que era ele. O risinho provocativo
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não deixava dúvidas disso.
— Peguei você — foi tudo o que ele disse
ao desligar.
Apertei o telefone com a mesma força e
gana que tinha feito no pescoço de Dembinsky.
Eu vou acabar com o desgraçado do
Boris, nem que seja a última coisa que faça em
minha vida!
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Capítulo 38
Kyara Smirnov
Amar alguém é sentir a presença dela,
mesmo quando não se está olhando. Eu conhecia o
cheiro de Dmitri, o toque dele, o magnetismo que
ele emitia, por isso, a pessoa que se encontrava ao
meu lado na cama, deslizando a mão por minha
coxa, não era Dmitri.
Abri meus olhos assustada e rastejei pela
cama ficando o máximo que eu podia das mãos
asquerosas que me acariciavam.
— O que você faz aqui?
O quarto estava na penumbra, mas eu via
perfeitamente a figura de Boris. Odiar alguém
como eu o odiava, também nos fazia reconhecer a
pessoa em qualquer circunstância, o medo nos
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alertava.
— Vim ver como você está — ele se
ergueu e foi até o interruptor de luz, fazendo o
quarto clarear.
Eu não sabia se ficava aliviada por ele ter
se afastado ou se me sentia amedrontada por ter
agora seus olhos lascivos em cima de mim.
— Há quanto tempo está aqui?
Que ele me tocava, não deveria ser muito
tempo, acordei rapidamente ao sentir um toque
estranho. Mas há quanto tempo Boris estava no
quarto?
Lembrei dos primeiros dias na casa de
Dmitri quando ele também me manteve presa. Em
uma das noites, senti a presença dele, que admitiu
ter visitado meu quarto, em uma de nossas
conversas na casa da Suíça, mas ele nunca ousou
me tocar quando estive dormindo.
— Com medo de mim, Kya? — ele tornou
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a se aproximar, a cada passo que dava, eu me
encolhia na cama um pouco mais — Eu nunca te
faria mal, a menos que merecesse.
A revolta despertando dentro de mim
confirmava que neste caso ele me machucaria
muito. Minha maior vontade era avançar contra a
garganta de Boris.
— Seja uma boa menina sempre — ele
continuou a dizer, eu dei uma olhada no quarto à
procura de algo como defesa.
A única coisa por perto era o abajur em
uma mesa próximo à cama. Contudo, Boris
acompanhou meu olhar e fechou a cara em claro
sinal de raiva.
— Não sei que tipo de lavagem cerebral o
Milanovic fez com você — disse ele estreitando os
olhos —, mas eu vou reverter. Voltará a ser a
mesma Kyara por quem me apaixonei.
Eu não acreditava em um amor como o
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dele, e mesmo que acreditasse, a Kyara que ele diz
estar apaixonado não existia mais. Aquela era
medrosa e obediente por medo de represálias. Sou
mais forte hoje e meu amor por Dmitri, estar ao
lado dele, me ajudava a crescer. O problema é que
Boris era um surtado. Ele queria ser meu Joker mas
eu não tinha pretensão alguma de ser a Harley
Quinn.
— Ainda sou a mesma, Boris — disse em
uma voz mansa — Sua irmãzinha.
Para lidar com um louco às vezes era
preciso agir como tal. Contudo, minhas palavras
finais foram como gatilho na ira de Boris que veio
até mim como um búfalo desnorteado e agarrou o
meu queixo com força.
— Você nunca foi minha irmã, nunca —
seu aperto agressivo criou lágrimas em meus olhos
— Será a minha mulher e mãe dos meus filhos. E
eles serão incríveis, meu amor. Guerreiros fortes e
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inteligentes. Uma mistura perfeita de nós dois.
Pensei no bebê em meu ventre e levei o
braço em volta dele como se assim pudesse o
manter protegido de Boris. Graças aos céus ele não
notou o meu gesto e se notou, não soube ler.
Pensar em qualquer contato íntimo com
Boris que rendesse frutos me fazia ficar enjoada a
ponto de querer vomitar.
— Seremos invencíveis — continuou
Boris — Não essa merda patética que são
Milanovic e Vladic Guriev. Falando em Dmitri,
acabei de falar com ele.
Sua revelação me deixou estática.
— O que disse a ele?
— Que estava comigo. Que veio por livre
espontânea vontade e que não pretende voltar.
Pior que ser sequestrada por Boris, eram as
mentiras que ele poderia inventar. Mas Dmitri
jamais acreditaria nele. Ele sabia que eu o amava.
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Tinha que saber. Mas também, o que poderia
pensar um homem que a noiva desaparece um dia
antes do casamento?
— É mentira! — levantei avançando sobre
Boris — É tudo mentira.
Ele agarrou meu pulso, apertando-o forte
até me fazer contorcer.
— Sim, é tudo mentira, não disse nada a
ele, apenas queria ouvir o desespero dele por você.
E queria ver como você iria reagir a isso — disse
ele em um tom de desprezo — Pelo visto, terei um
longo trabalho. Mas posso ser paciente, Kyara.
Esperei por você todos esses anos. Depois, todos
esses meses longe e, agora, posso esperar mais
algumas semanas. Sei como te amansar e logo
estará pedindo que eu a foda, e terá esquecido
completamente Dmitri Milanovic. Até porque não
terá outra coisa para fazer, ele estará morto.
No fundo, eu sabia que não seria assim,
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com raiva e de forma agressiva, que eu conseguiria
lidar com Boris. Dmitri dizia que nas situações
mais tensas precisava-se ter calma e paciência, mas
era muito difícil conseguir suportar calada a tortura
psicológica que Boris fazia.
— A guerra vai começar, Kya. É melhor
escolher logo de que lado prefere ficar — disse
Boris — Ou fará companhia na mesma vala suja
que Dmitri.
Eu preferia um milhões de vezes morrer e
ser jogada em uma vala imunda ao lado de Dmitri
do que pensar em passar um dia que fosse ao lado
de Boris como sua mulher.
— Pense muito sobre isso — reafirmou ele
abrindo a porta — Tempo é o que não lhe falta.
Pelo contrário, pensei ao vê-lo sair, meu
tempo corria rapidamente como areia pelos vãos
entre meus dedos. Eu precisava continuar a me
fortalecer física e psicologicamente para escapar
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daqui, ou, pelo menos, achar uma forma para que
Dimitri me encontrasse e salvasse a mim e o nosso
bebê.
Não sabia quantas horas tinham se passado
desde que Boris saiu do meu quarto e os breves
cochilos que me permiti ter encolhida na cama, mas
o dia já havia clareado quando abri meus olhos
outra vez.
Era o dia do meu casamento com Dmitri.
Evento para o qual passei semanas me preparando e
ansiando. Um sonho que hoje não iria se realizar.
Abracei meu corpo chorando baixinho. Foram dias
preocupada pelo vestido não estar na medida certa.
Agora, me casaria até com essas roupas que usava
se tivesse o homem que eu amava ao meu lado.
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Ainda estava entregue a essa dor física que
a ausência de Dmitri causava em mim quando a
porta foi aberta. Agradeci silenciosamente e
aliviada por não ser Boris, não tinha forças para
lidar com ele.
Feliks trazia uma bandeja com o café da
manhã. Sem olhar para mim ou dizer qualquer
coisa, colocou a comida sobre o criado-mudo e
saiu.
Comi pelo menos um pouco. Embora
soubesse que deveria me alimentar mais, eu não
conseguia.
Mexia distraidamente algo em meu prato
quando, para minha surpresa, Sonya entrou no
lugar do Boyevik.
Fiquei sem reação por alguns segundos
enquanto ela avançava pelo quarto. Diversos
sentimentos passaram por mim.
Raiva. Mágoa. Tristeza. Dor por ter sido
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enganada e traída.
— Sonya.
Ela corria a mão pelo guarda-roupa e
continuou a fazer isso ignorando meu chamado.
— Sonya! — finalmente consegui reagir
indo até ela — Por que você fez isso?
Inconscientemente eu já tinha essa
resposta. Ela nunca foi para mim, por esses anos
todos, a irmã que eu fui para ela. Fui seu bibelô, a
garota que ela se divertia e culpava pelas
traquinagens que aprontava; a garota que mentia e
cubria seus rastros quando era adolescente e a
mulher que colocou os sonhos de ir embora de lado
para ajudar a evitar que Boris a tornasse uma
mulher infeliz se descobrisse a vida leviana que
levava.
— Eu sempre amei você, Sonya — disse a
ela. Dizer essas palavras me feriam por dentro —,
mas você nunca me amou, não é mesmo? Fui
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apenas alguém que você manipulou e usou quando
bem quis.
Só depois de ser amada profundamente por
Dmitri, ter o carinho de Vladic, o respeito e afeto
de Irina e todas as outras pessoas novas em minha
vida, e perder tudo isso, que dei-me conta que os
Kamanev, excluindo os que já morreram, nunca
sentiram nada sincero por mim.
Ela parou de passar a mão sobre a madeira
do guarda-roupa e olhou para mim. Eu não
conseguia ver qualquer expressão em seu rosto.
Braveza, mágoa, arrependimento então, nem sinal.
Seu rosto era uma máscara fria e sem expressão.
— Não vai me dizer nada, Sonya?
Ela começou a caminhar e acreditei que
viria até mim quando seguiu até a porta. E tão
surpresa como me deixou ao entrar, ela saiu. Fiquei
parada no lugar com os punhos cerrados, as unhas
machucando as palmas das minhas mãos.
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Não conseguia acreditar nesses breves
minutos. Frustração e raiva começaram a fazer meu
sangue ferver. Eu tinha desperdiçado meu tempo
desejando respostas quando deveria ter feito Sonya
entender que ela precisava me libertar. Que todo
esse plano de Boris era absurdo e que ajudando-o,
sua vida estava em perigo. Não porque como das
outras vezes estivesse preocupada com ela, mas
porque Sonya podia representar minha única
possibilidade de fuga.
Mexi a maçaneta só para constatar que
estava fechada. Bati o punho contra a porta
chamando Sonya na esperança que estivesse no
corredor ou talvez em algum quarto ao lado do
meu. Gritei até minha garganta arder e minha voz
começar a ficar rouca. Alguns minutos após eu ter
desistido e retornado à cama, Feliks entrou, pegou a
bandeja com os restos do café da manhã e saiu.
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Uma coisa era não sair de casa sem Dmitri
e os Boyevik para manter garantida minha
segurança, outra, era me ver trancada em um quarto
mais uma vez. Dessa vez com a certeza de que o
homem que mantinha as chaves iria me fazer mal,
não apenas fisicamente.
Eu tinha que tentar fugir, mas não
conseguia pensar em nada, então, caminhei até a
janela mais uma vez. Grudei minhas mãos e rosto
contra as grades de ferro. Boyevik armados e
cachorros ferozes faziam o patrulhamento lá em
baixo. Havia muitos homens nos muros, espalhados
pelo campo aberto e de onde eu conseguia ver no
enorme portão. Mesmo que eu conseguisse fugir do
quarto, escapar daqui não seria fácil. Havia muita
gente e cães para me perseguir.
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Meu maior medo era levar um tiro, não por
mim, mas colocasse em risco a vida meu filho.
Voltei para a cama e sentei abraçando meus
joelhos. Para fugir, eu precisava conhecer a casa.
Então, meu plano era praticamente igual ao que tive
quando cheguei à casa de Dmitri, conhecer o
terreno e decidir o melhor momento para a fuga.
Só que diferente de Boris, a intenção de
Dmitri nunca foi me manter trancada no quarto, ele
só usou isso nos primeiros dias para me forçar a dar
informações que acreditava que eu soubesse.
Boris queria me dobrar como um bambu
envergando com o vento. Se eu quisesse que me
tirasse do quarto para conhecer a casa e saber onde
estava, precisava jogar como ele e Sonya, de forma
fria e dissimulada.
Se era a Kyara cordial de antes que Boris
queria de volta, seria a camuflagem dela que eu
usaria para escapar. E comecei a agir quando Feliks
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veio ao quarto trazer o almoço. Pedi educadamente
e com um sorriso doce que ele dissesse a Boris que
queria uma audiência com ele.
— Soube que exigiu me ver — disse ele ao
entrar, parando ao lado da porta aberta, mas que
tinha Feliks à sua guarda.
Boris até era um rapaz bonito, mas
monstruoso por dentro, o que o tornava desprezível
no final.
— Eu solicitei — o sorriso que tentei
emitir soava tão falso que meus lábios tremeram,
me fazendo baixar a cabeça para o prato — Almoça
comigo?
Não obtive nenhuma resposta por um
tempo considerável, até que ergui novamente o
olhar. Boris me encarava com incredulidade,
depois, com suspeita. Eu precisava ser mais
convincente. Ele era louco, mas não burro.
— Não envenenei a comida, Boris — disse
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soltando um risinho e levei uma colherada a boca
— A menos que tenham descoberto que as tintas
nas paredes possam ser usadas como veneno, você
não tem que se preocupar.
Seriam tóxicas ao ponto de causar mesmo
que um desconforto temporário? Irina certamente
saberia se algo como isso era possível.
— É uma pena, mas já fiz minha refeição
— apesar disso, ocupou a segunda cadeira na mesa
de dois lugares — Talvez possamos jantar juntos.
Assenti, mas por dentro tremia com a
possibilidade. Um jantar daria ideias românticas a
Boris e isso era tudo o que eu queria evitar.
— Estava pensando, como você disse, eu
tinha muito para pensar — em diversas formas
muitos cruéis de como Dmitri iria acabar com ele
quando o encontrasse foi uma delas — Você
planejou isso há muito tempo, não é?
Precisava mantê-lo falando para que seu
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foco nunca ficasse em mim, ou melhor, no meu
corpo, como seus olhos estavam.
— Pegar você de volta ou destruir o
Pakhan?
— Vamos começar pelo Pakhan — disse
voltando a comer.
Boris sempre gostou de falar de si mesmo
e das coisas horríveis que fazia como se fossem
dignas de admiração. Massagear o seu ego era a
melhor forma de aproximação. Ela adorava
bajuladores.
— Desde que procurei Milanovic, o filho,
a primeira vez e ele me tratou como se fosse nada.
Eu quase sorri. Esse era o Dmitri que eu
conhecia e amava. Desejei tê-lo conhecido muito
antes. Sem dúvida alguma teria me apaixonado da
mesma forma.
— Eu disse sobre as mudanças que
precisavam acontecer na Bratva, mas ele não me
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ouviu — o ódio em sua voz era tão claro como a
água que eu bebia — Os Milanovic são fracos. O
velho era um decadente que só precisou de um
empurrãozinho para ir dessa para uma pior.
Cuspi a água sobre o prato e procurei
rapidamente o guardanapo enquanto tentava
controlar uma crise de tosse.
— O que… o que você quer dizer?
— Implantei uma espiã na casa dos
Milanovic e entreguei o veneno que causou o
ataque cardíaco dele.
Olhei para ele sem conseguir acreditar.
Boris era ainda mais maquiavélico do que eu
pensei.
— Acha que um plano como o meu foi
pensado da noite para o dia? Acha mesmo que sou
só um cara com raiva ou ciúme de Dmitri? —
indagou se exaltando — Não, minha querida.
Dembinsky, Plotnikov, Matvee, Kovalyov e
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Vakhstein, viemos pensando sobre isso há algum
tempo.
Prendi com força o talher em minha mão,
tentando focar a maior parte da minha atenção
nisso. Boris matou o pai de Dmitri, homem que ele
amava e admirava. Já era a terceira pessoa que eu
sabia que Boris havia executado. Roman, por na
adolescência ter se apaixonado por mim. Fjodor
Kamanev e, agora, Mikhail Milanovic. Quantas
pessoas mais que não mereceram morrer, estavam
na lista de Boris que só parecia crescer?
— Otets Fjodor…
— Meu pai? — ele indagou mostrando seu
desprezo — Não sabia de nada ou teria corrido ao
Milanovic dizendo que seu filho havia ficado
louco.
E ele não estaria errado.
— Nós primeiro tivemos que manter
Dmitri e Vladic bem ocupados para não conseguir
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prestar atenção no que acontecia debaixo de seu
nariz — ele riu se achando um grande gênio —
Quem poderia imaginar que envenenariam o
Pakhan dentro de sua própria casa? Um dos seus.
Se antes eu desprezava Boris, agora, eu o
odiava com todas as forças. Só vi Mikhail
Milanovic uma vez, de longe, na época seu olhar
frio me assustou, mas depois de conhecê-lo através
de seu filho, que usava no trabalho a mesma
armadura, compreendia os dois. Era um escudo
necessário para intimidar e manter o controle.
Ainda assim, malucos como Boris tendiam a surgir
das trevas.
— Meu pai era um fraco que não merecia
estar em meus planos — continuou Boris — E
enquanto avançamos, precisávamos de mais
dinheiro e mais recursos. Eu tive que eliminar o
velho e tomar o controle da família. Mas essa é
uma história muito longa, Kya. Infelizmente, não
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tenho como ficar e passar a tarde contando tudo a
você.
E eu sentia que já tinha escutado o
suficiente. Boris era terrivelmente diabólico.
— É sobre isso que queria falar —
apressei-me em dizer antes que ele saísse — Não
suporto mais ficar trancada no quarto. Posso andar
pela casa e conhecer o jardim?
Ele me estudou por um tempo e abri um
enorme sorriso para ele, fingindo ver Vladic ou
alguém que eu sentia carinho à minha frente.
Precisava ser convincente por mais que isso me
enojasse.
— Hoje não. Mas amanhã eu mesmo a
levo para dar uma volta — disse ele em um tom
brando como se eu fosse uma doente precisando de
cuidados — Descanse, você ainda está muito
abalada.
Sustentei o sorriso até que Boris,
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acompanhado de Feliks, saíssem do quarto. Depois,
joguei o guardanapo em direção à porta, o tecido
não chegou à metade do caminho.
Um dia, Boris Kamanev, esse assassino
odioso, iria pagar por tudo que estava fazendo.
Eu tinha fé nisso porque eu tinha fé em
Dmitri.
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Capítulo 39
Dmitri Milanovic
Com toda a tensão, o corte que fiz em meu
supercílio voltou a sangrar. Estava no quarto
refazendo o curativo quando Vladic surgiu.
— Deu um fim a Dembinsky?
Eu precisava pensar em qualquer coisa que
não fosse Kyara para não começar a perder a razão,
e só tentar fazer isso estava sendo difícil pra cacete.
— Sim, e descobri algumas coisas que…
Se eu não estivesse em meu estado
anormal teria descoberto, foi o que faltou ele dizer.
Apenas fechei a cara, não pela insubordinação, mas
porque ele estava correto. Eu estava deixando meus
sentimentos me dominarem, isso não podia
acontecer nunca.
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— O que você descobriu, Vladic?
— Você quer se sentar?
— Não sou a porra de uma mulherzinha —
olhei zangado para ele.
Isso. Eu tinha que me concentrar na raiva,
lutadores em competição faziam isso, ficavam na
raiva para buscar energia, por isso não era
incomum lutadores passarem semanas antes da luta
provocando um a outro, inflamavam as torcidas e
faziam com que eles mantivessem o foco de quem e
por que deveriam vencer.
— O que você descobriu? — perguntei,
agora com calma. Uma gota de sangue deslizou
pelo meu rosto e Vladic me analisou antes de
responder.
— Precisa ver esse corte. O Dr. Kushin
está lá embaixo, pode dar alguns pontos.
— Não precisava chamar o médico. Eu
mesmo poderia dar os pontos mais tarde.
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Será que como Boris, Vladic me achava
um fraco também?
— Não fiz só por você. Sei que é casca
grossa — explicou ele cruzando os braços — Fiz
por Kyara. Ela pode…
Mais uma vez ele não concluiu. Não
sabíamos como iríamos encontrar Kyara e ela
poderia realmente precisar de ajuda médica.
— Obrigado, Vladic — dessa vez me
sentei na cama esfregando meu rosto — Não pensei
nisso. Acho que não tenho pensado em muitas
coisas, além de encontrá-la logo. Você viu naquele
dia como o Boris olhava para ela. Não é só para me
atingir, ele a quer. Nesse momento, ele pode…
— Dmi, a Kyara sabe se cuidar — disse
Vladic colocando a mão em meu ombro — Lembra
como foi com a gente? Ela tem garras. Só precisa
se manter segura até a gente chegar.
Ele tinha razão, Kyara tinha unhas afiadas
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quando precisava ter, mas Boris era um louco,
somente uma mente insana tentaria algo como ele
fez, enfrentar e desafiar o Pakhan.
— Ele me ligou há pouco — informei a ele
— O Boris. O desgraçado riu na minha cara.
— Contou a Ivan?
— Entreguei o telefone para que tentasse
rastrear a ligação. O número era restrito.
Louco ou não, burro o Boris não era.
— Mas o que você descobriu com
Dembinsky? — voltei ao assunto principal da sua
vinda ao meu quarto — Ele disso algo ao sair que
não me interessei.
— Tem a ver com seu pai e Kamanev.
Ergui da cama em uma postura rígida.
— Você vai me dizer que…
— Isso mesmo — Vladic me interrompeu
— Foi o Boris que manipulou a Yasha para
envenenar o seu pai. Lembra que muitas coisas
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estranhas aconteceram naquele tempo? — houve
incêndios, furtos e mortes, até achamos que a
Tambovskaya estava agindo, mas o líder deles
alegou que não tinham nada a ver com os ataques
que estávamos recebendo — Foi apenas para o
manter distraído do seu pai. E o veneno fez parecer
infarto.
— Eliminar meu pai foi o primeiro passo
para que Boris chegasse onde ele queria — concluí
por fim — Agora, ele quer a Bratva e a Kyara
também. Tudo o que ele sempre mais quis estava
comigo. Mas ele não terá nenhum dos dois. E vou
fazer com que ele pague por ter dado uma morte
tão desonrosa ao meu pai.
— Pode ter certeza que estarei ao seu lado
quando isso acontecer — jurou Vladic.
Meus olhos estavam úmidos, mas não me
permiti liberar as emoções. Estava feito, otets
Milanovic estava morto ao lado de minha mat’; que
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os dois tivessem o descanso merecido.
Cheguei ao escritório e o Dr. Kushin me
encarou com seus olhos de texugo assustado. A
briga com Vladic deixaria Kyara chateada quando
me visse, mas com os devidos cuidados logo os
hematomas desapareceriam.
— Acho que vou precisar de pontos,
doutor.
— Não será o primeiro — ele fez uma
tentativa de gracejar, mas ao notar que nenhuma
expressão surgiu em meu rosto, ficou sério e
indicou a cadeira para que eu me sentasse enquanto
ele colocava sua maleta na mesa — Sei que pode se
remendar sozinho, sempre pôde.
Era parte de ser um guerreiro, e embora
não exercesse a função de um, precisava saber
como lutar, mas também como cuidar dos
ferimentos que recebia.
— Mas o Sr. Guriev também explicou que
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estou aqui de plantão para atender a futura Sra.
Milanovic. Esperamos que nada aconteça. Ela
estava tão feliz com o casamento. Espero que ela
esteja bem, principalmente no estado dela.
— Estado dela? — ele tinha acabado de
colocar a luva e estava com a seringa na mão
quando me virei bruscamente para ele — Que
estado?
Ele mesmo tinha garantido que Kyara
estava bem quando a consultou no dia que a
encontrei desmaiada no banheiro.
O Dr. Kushin ficou pálido e deu alguns
passos para trás. Vladic, que estava atrás, impediu
que se asfaltasse mais com o corpo servindo como
barreira.
— Fale logo, homem! — urrei ao ficar em
pé — O que a Kyara tem?
— Ela disse que iria contar na lua de mel
— disse ele nervoso, tremendo a agulha na sua mão
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— Mas eu pensei que iria contar logo. As mulheres
quase nunca conseguem guardar um segredo, ainda
mais um assim. Pensei que contaria no mesmo dia.
Ele estava enrolando para conseguir minha
piedade, mas só estava me deixando mãos irritado.
— Kushin?
— Ela vai ser a esposa do Pakhan, eu
também tenho que ter a confiança dela. Eu juro que
ela disse que ia contar.
Avancei até Kushin, disposto a arrancar a
confissão nem que fosse com meu punho enfiado
na garganta dele.
— Fale de uma vez — disse Vladic.
— Ela está grávida.
Foi como se eu tivesse levado um soco no
estômago, e pareceu tão real que cambaleei alguns
passos para trás.
— O que disse? — indaguei desnorteado.
— A Srtª Smirnov está grávida. Apenas
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algumas semanas, mas sim. Isso explica o desmaio
daquele dia e outros sintomas.
Kyara estava grávida de um filho meu!
A mulher que eu amava, com quem iria me
casar nas próximas horas, carregava um bebê no
ventre enquanto era mantida prisioneira nas mãos
de um lunático que me odiava.
— Você não me contou nada! — avancei
na direção dele, mas Vladic rapidamente levou o
homem para trás, segurando agora a mim — Sua
obrigação era me contar independente do que ela
dissesse.
Eu a teria protegido melhor. Se eu
soubesse que Kyara estava grávida acho que nem
teria saído de perto dela.
— Dmitri, a gente precisa dele. E foi um
pedido dela, a futura koroleva. Provavelmente ela
queria te fazer uma surpresa. Você, matar o Kushin,
vai deixar Kyara triste — ele olhou por sobre o
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ombro o médico que praticamente chorava — E o
mesmo aconteceria com a sua mat’ [1]se estivesse
viva.
Acontece que eu já não estava
raciocinando bem apenas por saber que Kyara
havia sido sequestrada, agora, saber que meu filho
no ventre dela também corria perigo no mesmo dia
que descobri o assassino do meu pai, me tirava todo
o raciocínio lógico.
Se Boris soubesse disso, que o fruto do
nosso amor estava crescendo dentro dela... Não
conseguia nem imaginar o que ele seria capaz de
fazer, apenas para me desestabilizar. Encontrá-la
agora não era questão apenas de precisa tê-la
comigo, mas de sobrevivência para Kyara e o bebê.
— Tire-o daqui — disse a Vladic ao me
curvar e agarrar firme a borda da mesa — Agora!
Assim que senti a porta fechar às minhas
costas, passei o braço sobre a mesa jogando tudo no
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chão, inclusive a maleta do médico, espalhando boa
parte dos utensílios dentro dela sobre o carpete.
Vidros se quebraram, outros materiais rolaram pelo
chão.
Não satisfeito com isso, fui encolerizado
em direção à estante de livros e a derrubei também.
Tudo o que havia no escritório que pudesse ser
derrubado ou danificado sofreu as consequências
da minha ira.
— Maldito! — urrei erguendo a grande e
pesada mesa, virando-a contra o chão — Maldito!
Maldito!
Como já não havia mais nada a ser
atacado, comecei a socar a parede com força.
Cada murro que eu dava, imaginava ser
Boris Kamanev e isso me fazia socar a parede cada
vez mais.
— Pare com isso! — Vladic me conteve e
me afastou da parede manchada de sangue —
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Quebrar a sua mão não vai te ajudar.
— Meu filho — desabei contra o chão e
Vladic se ajoelhou ao meu lado.
Algo tão bonito e que eu não soube pelos
lábios dela; não pude comemorar enquanto via seus
olhos brilharem de felicidade. O desgraçado
Kamanev também tinha roubado isso de mim.
— Cara, alguns meses atrás você nem
pensava em se casar — disse Vladic me amparando
pelos ombros — Agora, terá uma esposa e um
garoto gritando por você pelos cantos.
— Ou uma menina — consegui dizer —
Como a Kyara. Vai ser bonita pra caralho.
— Vamos fazer um acordo — disse ele se
afastando de mim e rastejando pela confusão na
sala até achar a única garrafa no bar que eu não
tinha desperdiçado em minha fúria — Prometo que
encontraremos Kyara e seu filho, porque só eu
estando morto para não ver esse menino nascer.
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Sequei o meu rosto e aceitei a mão que ele
me dava. Só Vladic para conseguir um pálido
sorriso de mim.
— Você afoga suas mágoas — me
estendeu a garrafa — Pelo menos por essas horas,
Dmitri, você está precisando. E quando descer pela
manhã, preciso que esteja forte.
Eu não queria anestesiar minha dor na
bebida. E muito menos, esperar todo esse tempo
para que Kyara fosse encontrada.
— Ivan…
— Está fazendo o possível, cara — disse
ele insistindo para que eu pegasse a garrafa de
vodka — Todos nós estamos. Mas isso pode durar
algumas horas, como pode durar dias.
No fundo, eu sabia que ele tinha razão.
Um dos motivos que mais me deixava puto com
tudo isso é que eu sabia que Boris estava agindo às
minhas costas. Sabia os motivos das reuniões e iria
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pegá-lo no que eu acreditei ser o momento certo,
mas Boris moveu uma peça que eu não sabia estar
na jogada.
Kyara!
— Você me avisou, Vladic — murmurei
pegando a garrafa — É culpa minha. É tudo culpa
minha.
— O único culpado é o Kamanev — disse
ele — Você fez o que achava certo. Eu achei certo.
Você é meu irmão — disse colocando a mão em
meu ombro — Deixe-me carregar um pouco esse
fardo para você.
Nós éramos irmãos de coração, mas se
fôssemos de sangue, não sei se eu o amaria tanto,
talvez houvesse entre a gente inveja e competição.
Eu preferia um irmão que eu escolhia para ser. Não
eram assim os amigos de verdade, quem
escolhíamos para estar do nosso lado e chamar de
irmão?
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— Está bem — disse passando pelo
amontado de lixo que havia espalhado — Confio
em você, Vladic.
Saí em direção ao meu quarto, já tomando
alguns goles pelo caminho.
Eu havia me tornado o que Boris me
alegava ser: um fraco, porque nesse momento, eu
não tinha condições alguma de lidar com a
frustração e raiva que toda essa merda me causava.
Ao chegar ao quarto, um detalhe novo me
chamou atenção, a folha dobrada em cima da
mesinha de cabeceira do lado onde Kyara
costumava dormir. Caminhei até ela, sentei no
chão, as costas apoiadas contra a cama e comecei a
ler.
Eram os votos de casamento. Votos que
prometemos não ler, mas eu não tinha como não
quebrar essa promessa. Estava faminto por um
pouco de Kyara perto de mim.
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“Eu não sou muito boa com as palavras,
acho que poucas pessoas têm esse dom, mas aqui
expresso com toda sinceridade o que há em meu
coração.
Dimitri.
Meu amor... meu cavaleiro de armadura
negra. Não o que me levou para o seu lindo
castelo, mas o que me libertou das muralhas que eu
mesma havia erguido em volta de mim. Você não
tem apenas duas cores, Dmitri, você é todo o meu
arco-íris.
É seu amor que me liberta todos os dias.
Nunca me senti tão livre, tão protegida e tão
amada. Quero ficar sempre presa em teus braços,
eu te escolhi e te escolheria mil vezes...”
O discurso continuava inflamado, mas já
não conseguia ler. A dor em meu peito era forte
demais. Coloquei a garrafa ao meu lado junto com
a carta enquanto a madrugada escura lá fora surgia.
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Até isso me fazia lembrar Kyara e de quantas vezes
ela passou admirando o céu.
Será que olhava para ele agora?
— Querubim, onde você estiver, estou
pensando em você.
Dmitri Milanovic sofria terrivelmente por
Kyara, mas estava na hora de eu deixar o meu lado
negro falar por mim.
Ele era implacável e traria os dois de volta.
Irina Novitsky
Não haverá mais casamento e o Pakhan
não quer ser incomodado.
Essa foi a única informação que tive
quando o boyevik bateu à minha porta uma hora
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antes de eu começar a me preparar para a
cerimônia. Para mim, a informação e a ordem não
foram suficientes.
Por que Kyara não me ligou avisando?
Afinal, eu era uma das damas de honra. Por que
Dmitri, e até mesmo o insuportável do Guriev, não
entraram em contato comigo se tinham meu
telefone? Por que nenhum deles respondia
nenhuma das minhas dezenas de ligações o dia
todo?
Caramba! Eu tinha me tornado mais do
que a cientista maluca que Dmitri supervisionava.
Eu era a amiga da sua futura esposa, amiga de
todos eles, menos de Guriev. Minha relação com
Vladic era estranha de se explicar. Eu o detestava,
mas ele mexia comigo como nenhum outro homem
foi capaz até hoje. Até Dmitri, a quem sempre
considerei um homem lindo, e o cientista novato e
atraente que eu tinha solicitado que trouxessem dos
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Estados Unidos, não exerciam a mesma fascinação
sobre mim.
Vladic era um grosso, ignorante e burro.
Bom, não realmente burro. Dentro do que ele fazia,
no que ele foi treinado para fazer, não havia pessoa
mais eficiente e preparada que ele. Talvez quem
chegasse mais perto fosse Ivan Trotsky, o chefe dos
Obshchak[2]. Que também tinha muitos músculos,
tatuagens e fazia mais a linha galã de cinema do
que Vladic.
Ele não tinha o rosto perfeitinho. O nariz
era quebrado devido as porradas que deve ter
levado guerreando, treinando o porquê agia como
um cretino mesmo. As orelhas típicas de um
lutador, queixo quadrado e duro. Uma muralha de
músculos, músculos por toda a parte para ser mais
exata e eu sempre admirei mais a massa encefálica
do que a muscular, sorri ao pensar nisso, podia usar
isso contra Vladic quando o encontrasse de novo.
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Os olhos nem eram azuis, mas de um
castanho comum, contudo, traziam algo que o
suavizava; sempre tinha um ar divertido ou de
deboche, principalmente comigo, o que me irritava
mais ainda. Ah, ele também tinha um traseiro de
dar inveja, mesmo que na maioria das vezes
estivesse de terno. Sim, eu havia reparado na bunda
de Vladic. Era quase impossível não reparar, já que
todas as vezes que ele ia embora, meus olhos
fulminantes estavam sobre suas costas, bom,
deveria estar nas suas costas.
A boca também me agradava, bem
desenhada e generosa o suficiente para me fazer
querer mordê-la. E as mãos dele eram firmes e
grandes, já me apertaram firme algumas vezes,
fossem para impedir uma queda ou para me
atormentar.
Isso era uma coisa que ele também sabia
fazer muito bem, foder com a minha mente por
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simplesmente estar no mesmo ambiente que eu. O
problema com Vladic é que ele tinha jeito de
homem, aquele tipo das cavernas que eu deveria
odiar (e eu odiava), mas que também me atraía.
Mas por que eu estava pensando em
Guriev quando minha preocupação deveria ser
Kyara e o casamento que não aconteceria?
Alguma coisa estava muito errada e após
horas tentando entrar em contato com um dos três,
decidi ir até a casa Milanovic e eu mesma encontrar
as respostas.
— Onde você vai? — estava perto de tocar
a maçaneta quando ouvi a voz de meu otets atrás de
mim.
— Vou ver a Kyara — virei para ele e o
encontrei com seu cigarro na mão e copo de vodka
na outra — Pai, o que o Dr. Ian Kovsky disse sobre
não fumar e não beber?
Ele teve um princípio de infarto há alguns
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meses quando seu médico o tinha proibido de
fumar, beber e aconselhado a ter uma vida mais
saudável. Eu ficava de olho e pagava muito bem
Oleg Bezrukov, seu secretário, para ficar de olhos
bem abertos em relação ao meu pai. Depois da
morte do Pakhan, o pai de Dmitri, por infarto,
fiquei ainda mais paranoica em vigiá-lo.
— Aquele merda não sabe de nada —
resmungou ele, mas deixou que eu tirasse o copo e
o cigarro de suas mãos.
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