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Capa do romance A Irmandade acima de tudo

A Irmandade acima de tudo

Está é uma obra de ficção apenas com o intuito de entreter o leitor. Falas, ações e pensamentos de alguns personagens não condizem com os da autora. O livro contém descrições eróticas explícitas, cenas gráficas de violência física, verbal e linguajar indevido. Indicado para maiores de 18 anos. Como a história se passa na Rússia, o significado das palavras estrangeiras encontra-se num glossário oferecido no início do livro. Sobre trademark ™, a autora reconhece aos legítimos donos das empresas e marcas citadas nesta ficção o devido crédito, agradecendo o privilégio de citá-las pelo grau elevado de importância e credibilidade no mercado. PERIGOSAS ACHERON PERIGOSAS NACIONAS Glossário Otets: Pai. Mat': Mãe. Beret: Boina. Blagadaryú: Agradeço. Daragáya: Querida. Mílaya: Querida (sentido romântico). Bratstvo prezhde vsego: A Irmandade acima de tudo (Juramento e lema da irmandade) Kheruvim: querubim Suka: Cadela (suki: cadelas) Zavtrak: Café da manhã. Koroleva: Rainha Ne: Não Da: Sim Sinochek: Filho. Doch: Filha. Bolotnik: Uma besta imunda que vive no PERIGOSAS ACHERON PERIGOSAS NACIONAIS pântano, disfarçada de monte, devorando suas vítimas. Svolach: Idiota. Vot eto pizdets: Que droga! Pizdets: Droga! Idi na hui: Vá se foder! Mudak: Homem que se comporta de forma imprudente Gandon: A palavra é usada em referência a uma pessoa desagradável, mas é bastante vulgar, pode ser usada como nome de rua para preservativos. Zhizn 'ebet meya: A vida está fodendo comigo. Ye-bat: Porra! Suchka: Cadela, ou uma forma carinhosa das mulheres se xingarem tipo: Sua cretina. A palavra é mais usada entre as mulheres. Gavno: Merda! Pakhan: Chefe/Papa Avtoriyet: Segundo em comando. PERIGOSAS ACHERON PERIGOSAS NACIONAIS Sovietinik: Conselheiro Derzhatel: Apoio Obshchak: Grupo de segurança. Obschaka kniga: secretário/livreiro. Boyevik: Guerreiros/soldados Shestyorka: iniciantes/associados Pidoras: gay Kisca: gatinha Sirniki: sobremesa, a massa pode ser frita ou assada, recheada com queijo cottage. Chak-chak: É feito com massa de farinha de trigo e ovos crus em forma de palitos e bolas. Os chak-chak prontos são colocados em um prato e regados com um xarope quente feito à base de mel. Smert': Morte. Ya skuchal po tebe: senti sua falta. Ya lyublyu tebia: eu te amo. Zólattse mayó: meu ouro.
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Capítulo 3

Foram direto para o lixo.

— Ele só quer me controlar e que eu viva

mais para arrancar mais do meu dinheiro.

— Eu quero que você viva mais, papai —

olhei feio para ele, embora isso não fosse afetá-lo

nem um pouco — E não é por causa do seu

dinheiro.

— Daragáya[3], não venha com essa

vozinha de garota meiga que ama o papai — voltou

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a resmungar — Para onde estava indo?

Se havia alguém que me conhecia bem era

o meu pai. Nós éramos tudo um para outro, após

minha mãe ter morrido no parto, algumas horas

depois de ter me dado à luz. Eu até achei que ele se

casaria de novo e desejei que isso acontecesse para

me dar irmãos, mas acho que seu carinho por

minha mãe foi mais forte do que ele ousava

admitir.

— Eu preciso ir ver a Kyara — decidi ser

honesta — Alguma coisa está acontecendo. Ela

estava radiante com o casamento. Por que foi

cancelado?

Meu pai respirou fundo e pegou minha

mão me conduzindo à sala de estar. Sempre que ele

queria que eu entendesse um assunto sério, agia

assim. Desde criança, olhava dentro dos meus olhos

e dizia com toda calma quando não poderia ter

alguma coisa, porque ele não podia faltar ao

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trabalho para ficar comigo ou porque a mamãe

tinha morrido e que não, eu não tinha matado ela.

Foi assim desde que criança.

— Sei que é muito amiga dela.

— Eu me tornei muito mais agora —

corrigi lembrando que no passado não era tanto

assim.

Kyara sempre foi uma garota legal comigo

no colégio. Não me chamava de esquisitona como a

maioria das garotas e nem se incomodada que

prestasse mais atenção aos meus livros do que no

que me falava. Mas ela sempre estava com Sonya e

essa sempre foi uma grande suka [4]comigo, a quem

eu preferia passar bem longe e ignorar.

Mas sem a presença da irmã má, era como

se Kyara se permitisse brilhar e ela não precisava

apagar a luminosidade das outras pessoas para se

sentir mais bonita e segura de quem era. Conversar

com ela era fácil, ficar em sua presença era calmo.

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— Ela me convidou para ser dama de

honra — relembrei a ele — Sabe o que isso

significa?

— Exatamente o que a palavras dizem,

uma honra. E não existe pessoa no mundo que

mereça ter todas as honras, além de você —

afirmou ele.

Papai não era de ficar tecendo elogios,

nem mesmo para mim, mas quando fazia era na

hora certa e com palavras perfeitas. Eu nunca fui de

ter muitos amigos, principalmente do sexo

feminino. O que elas conversavam nos vestiários e

nos intervalos das aulas não me interessava. Por ser

filha do dono do colégio ou se aproximava de mim

quando tinham algum interesse em relação à escola

ou me afastavam porque tinham interesses que nem

eu, e principalmente meu pai e professores,

deveriam saber.

Passei a vida toda com a cara enfiada nos

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livros, depois, nos computadores. Ambos eram

mais fáceis de entender do que os humanos. Então,

ele sabia que essa nova fase da minha amizade com

Kyara era importante para mim.

— Mas se o Pakhan ordenou que não

queria ser incomodado, nós vamos obedecer.

— Mas alguma coisa aconteceu, não

estamos falando de um convite para um jantar. É

um casamento, papai — insisti e o sondei com o

olhar — A menos que você saiba de algo que eu

não saiba.

Meu envolvimento com a Bratva ficava na

ciência e tecnologia. Eu sabia das coisas que

aconteciam nos bastidores, dos negócios que eram

fechados e nas relações boas e ruins que eram

mantidas. Mas Dmitri me deu algo que talvez eu

não tivesse em outro lugar, a oportunidade de

mostrar que era boa, ou podia ser, no meu trabalho.

Não importava para ele se eu usava saia ou um par

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de calças, salto alto ou tênis, que minha boca

tivesse mais creme para o café do que batom. O que

ele exigia era que eu fosse eficiente.

Em algumas culturas, mulheres andavam

atrás dos maridos, literalmente. Em outras, cobriam

o corpo para andar na rua, e em outras, eram

tratadas apenas como uma máquina procriadora. Na

Tambovskaya isso ainda era assim. Todo país tinha

suas leis, regras e sua cultura. A Bratva era como

um país dentro da Rússia. Eu não conhecia outra

coisa e me adaptava da melhor forma possível.

Eu nunca criaria uma arma nuclear ou um

vírus que se espalhasse matando rapidamente as

pessoas pelo mundo, mas eu faria algo para nos

defender dela.

— Você sabe de algo que eu não sei,

papai?

Ele desviou o olhar e quando fazia isso

significava três coisas: estava mentindo, iria mentir

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ou queria esconder algo. Eu era assim. Filha de

peixe…

— Pai?!

— Só ouvi boatos.

— Que tipo de boatos?

— Não muito coisa ou se é mesmo

verdade, mas algo sobre quererem derrubar o

Milanovic.

Levei minhas mãos à boca, assustada.

— É só isso que tenho a dizer por

enquanto, daragáya.

— Mas, pai…

Se Dmitri e Kyara corriam perigo, eu

precisava saber. Às vezes ser tão focada em meu

trabalho no laboratório me prejudicava. Eu não

tinha interesse nas questões políticas internas da

Bratva.

— Irina, sou um homem muito rico e

influente, dentro da Bratva e fora dela — disse ele e

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tocou minha face com as duas mãos — Mas se

perguntarem qual a minha maior riqueza, não vou

pestanejar em dizer que é você. Por isso, até que eu

ache seguro, você irá ficar em casa. Quando puder,

o Pakhan e sua amiga darão notícias.

— Mas e o meu trabalho no laboratório?

— Pode esperar alguns dias — disse ele

em um tom firme — Ou peça àquele americano que

traga tudo o que você precisa até aqui.

— Não pode esperar, não! — também falei

firme — E ele é metade russo. Você e Guriev

parecem esquecer isso.

— É que Vladic só dá importância ao que

é realmente importante — disse ele sorrindo —

Sabe, eu gosto dele.

— Do Tigran?

— Não! — ele olhou como se estivesse

louca — O Avtorieyt. E já que não posso mais

sonhar em vê-la casada com o Pakhan, o Guriev

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não é uma escolha tão ruim. Não é tão rico, mas

dinheiro nós temos mais que o suficiente para

dezenas de gerações, que aliás, eu espero que

continue a surgir antes de eu morrer.

— Eu não acredito que está querendo que

eu corteje o Guriev.

Pior do que meu pai ficar insistindo em me

ver casada e com filhos antes que ele morresse, era

ele querer me casar com alguém como Vladic.

— Na verdade — ele soltou meu rosto e

balançou o dedo em frente a ele —, Vladic quem

tem que cortejar você. Talvez eu o chame para um

drink e poderemos conversar melhor sobre isso. O

Pakhan vai se casar, ele deve seguir seu exemplo,

não existe pretendente em toda Bratva melhor que

você.

— Não se atreva, papai! — disse exaltada

— Não se atreva a me jogar nos braços do Vladic.

Você prometeu que posso terminar meus estudos.

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— O problema é que sempre me orgulhei

da sua inteligência e, por isso, dei asas demais a

você, Irina. Sua mãe também era inteligente. Uma

professora universitária fantástica. Mas como eu

fiz, está na hora de alguém com mais pulso te

dobrar.

Não deixaria que Vladic ou qualquer outro

homem tentasse me dominar, quando nem meu pai

havia conseguido.

— Não sou uma folha de papel para ser

dobrada — protestei recebendo um olhar duro, que

ignorei — Prefiro entrar para um convento do que

me casar com ele.

— Não vamos à igreja, minha filha — ele

riu — Você foi batizada?

Tanto quanto ele, não sabia ou não me

lembrava disso. Mas eu entraria para a Igreja nem

que tivesse que pular os muros.

— Vou ver sobre isso e sobre Guriev —

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ele se levantou — E nem tente sair de casa. Tem

um boyevik na porta. Obedeça ao Pakhan já que a

mim…

Ele saiu resmungando, mas meus

pensamentos estavam desconectados.

Ah! Eu queria odiar o meu pai, como eu

queria odiar Vladic Guriev.

Eu até tinha que admitir que sentia atração

por Vladic, mas não a ponto de me casar com ele e

sabotaria qualquer intenção em relação a isso que

meu pai tivesse.

Mas eu precisava ruminar isso depois.

Vladic só era mais uma pedra em meu sapato.

Minha prioridade agora era chegar até o Pakhan e

saber como minha amiga estava. Eu esperava que

ela estivesse bem.

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Capítulo 40

Dmitri Milanovic

Toda metade esquerda do meu corpo

pendia para fora da cama e a outra metade me

mantinha nela. Foi assim que despertei,

desengonçado e com a garrafa de vodka vazia em

minha mão. Era preciso mais do que isso para me

garantir uma boa ressaca, mesmo assim, meu

estado era deplorável.

Esfreguei o rosto amassado pelo

travesseiro de Kyara, que eu havia procurado à

noite, ainda continha o perfume dela. Afastei o

travesseiro assim como tentei com todas as forças

afastar a dor que isso me causava. Até ter Kyara de

volta, seria apenas o Pakhan. Era preciso que fosse

dessa forma.

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Antes de sair da cama, peguei o papel com

os votos de Kyara que havia deixado cair no chão e

depositei no mesmo lugar que ela havia deixado.

Levantei e segui para o banheiro onde joguei a

garrafa vazia no cesto de lixo. A água caindo sobre

minha cabeça podia relaxar os músculos tensos em

meu corpo, mas a minha mente seguia frenética.

Saí do box e encarei o espelho enquanto

me secava. Precisava dar um jeito no corte do

supercílio que sempre voltava a sangrar quando

tocado. Havia uma caixa de primeiros socorros no

gabinete. Eu mesmo daria um jeito nessa merda.

Depois dos pontos, segui para o closet e

retirei uma das dúzias de ternos que havia dentro

dele. Calcei os sapatos e olhei para o anel do

Pakhan em meu dedo. Eu tinha mandado que

ajustassem uma réplica, com detalhes mais suaves e

femininos para Kyara, o mesmo anel que meu pai

havia dado à minha mãe, e meu avô, para sua

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esposa.

Colocaria no dedo de Kyara logo após a

aliança na cerimônia de casamento. Ainda estava

guardado no mesmo lugar no bolso do terno que

constava meus votos a ela. Isso não era o nosso

fim, só era um adiamento não planejado.

Desci e fui à sala montada para a

investigação à procura de Ivan. Deveria estar

possesso por Vladic ter permitido que eu apagasse

por tanto tempo, mas ele tinha razão, meu corpo e

mente precisaram dessa pausa para enfrentar as

horas difíceis que teríamos pela frente.

Eu sabia que não havia nenhuma notícia

importante ou avanço no caso, Vladic teria me

acordado imediatamente se tivesse. Mas eu queria

saber em que pé as coisas andavam.

Encontrei Ivan com Vladic e, ao lado

deles, dois dos seus homens. Havia pelo menos uns

dez dentro da sala, avaliando equipamentos,

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concentrados em escutas e analisando mapas.

— Papa — Ivan foi o primeiro a me ver e

cumprimentar.

— Dmitri — Vladic veio até mim e me

deu uma boa estudada com os olhos.

Bati suavemente em seu braço.

— Está tudo bem, Vladic.

E podia dizer que realmente estava. Eu

precisava manter a cabeça calma e agir com frieza,

isso que traria Kyara e meu filho seguros de volta

para casa. E eu faria tudo para tê-los comigo de

novo, até sufocar meus sentimentos.

— O que você tem de importante, Ivan?

Conseguiu algo com o meu celular.

Até onde eu sabia, queriam investigar de

que lugar originou a ligação de Boris.

— Veio de Moscou e encontramos o

telefone em uma lixeira — disse Vladic — Mas

isso não ajuda muito. Ele pode ter ido de

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helicóptero e voltado para seja lá qual buraco

mantém-se escondido.

Olhei para Ivan e tive certeza que ele

pensava o mesmo.

— Se Boris queria fazer acreditar que

estava em Moscou… — dei voz aos meus

pensamentos.

— É porque ele realmente não está —

disse Vladic.

A procura por Kyara era como tentar

encontrar uma agulha em um palheiro.

— Mais alguma coisa? — perguntei a

Ivan.

— A Srtª Novitsky tem ligado

constantemente.

— Ela era uma das damas de honra. O que

disseram para os envolvidos no casamento e

convidados?

— Apenas que foi adiado e que o Pakhan

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não receberia visitas ou faria audiência até o

próximo comunicado — Disse Vladic.

— Mas Irina é insistente — disse Ivan e

olhou em volta da sala — Nós temos equipamentos

de alta tecnologia aqui, acha que Irina pode ser útil

em alguma outra coisa? Ela é boa com essa coisa

de tecnologia, pode ter alguma coisa nova. Devo

chamá-la?

— Acho melhor não a envolvermos nisso

— disse Vladic.

Acreditava nunca ter chamado a atenção

dele em qualquer circunstância. Vladic era

sarcástico e tinha um humor ácido, mas sempre

agia de acordo com cada ocasião e seu trabalho era

executado de forma exemplar. Mas sua birra, ou

seja lá como devesse denominar a sua relação com

Irina, não era bem-vinda agora.

— Não me interessa suas desavenças com

Irina — disse em tom extremamente seco — Eu

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quero Kyara de volta!

— Não é por isso — protestou ele — Irina

já se envolveu muito no caso Tambovskaya, não é

justo trazê-la para isso também. Com todo respeito,

Pakhan, ela é só uma cientista.

A questão com Irina era outra, eu podia

ver. Puxei Vladic para um canto, mantendo a

conversa entre a gente.

— Ela é importante para você — disse a

ele, estudando seu olhar consternado.

— Não, eu só acho que…

— Corta essa, Vladic, não tenho saco para

essas suas desculpas — cortei-o antes que viesse

com uma justificativa que nem ele mesmo

acreditava — Vou dar mais algum tempo a Ivan.

Eu conseguia entender Vladic querer

proteger Irina de qualquer respingo que essa guerra

pudesse causar, faria o mesmo por Kyara se

estivéssemos em papéis diferentes, mas minha

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família vinha em primeiro lugar. E por considerá-lo

como parte dela, daria esse tempo a Ivan para que

conseguisse mover céus e terra para encontrar

minha mulher e meu filho.

— Mas se ele repetir que Irina pode ser

uma peça importante — disse a ele —, vou mandar

buscá-la. Por agora vou pedir que ele veja se

alguém ligado ao laboratório de Irina pode ser tão

útil quanto ela.

Vladic assentiu e retornamos para o lado

de Ivan. Logo depois minha atenção estava

completamente focada em cada informação nova

que recebia. Uma delas veio de Nikolai algumas

horas mais tarde.

— A arena está pronta — disse ele —

Todos os traidores já se encontram lá e os Kapitany

de Primeira e Segunda Elites que não o traíram

estão sendo enviados para assistir o torneio e

realizar um novo juramento ao Pakhan.

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Não era apenas mais um ritual para

reafirmar minha supremacia. Os Kapitany

possuíam seu próprio exército de Boyevik e eu

precisava de cada soldado que pudesse se aliar aos

meus e partirmos juntos para enfrentar Boris

quando finalmente o encontrasse.

— Ivan, você fica aqui cuidando das

investigações — disse a ele — Mantenha uma linha

direta comigo. Quando tiver que ir para a arena,

quero que todas as informações sejam direcionadas

para lá. Quando der o sinal, partiremos com os

Boyevik.

Boris seria esmagado antes de conseguir

entender o que acontecia à sua volta.

Acertei os últimos detalhes com Nikolai e

só percebi que Vladic tinha saído quando precisei

dizer algo a ele. Concluí que saiu para resolver algo

importante e tornei a me concentrar em Ivan. Isso

era o que me mantinha longe de enlouquecer.

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Vladic Guriev

Fazia dois dias que Kyara tinha sido

sequestrada e iríamos para o terceiro. Embora

Dmitri estivesse agindo com racionalidade, sabia

que por dentro ele estava acabado. Eu conhecia

esse garoto desde que era um bolinho enrolado no

cobertor.

Ainda me lembro de quando criança, me

pendurar em seu berço para poder olhá-lo de perto.

Eu cresci e fui criado não apenas para ser seu

homem de confiança. Fui treinado para dar a minha

vida por ele, e daria.

Estava fazendo o possível para ser a razão

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quando ele era a emoção. Segurando as pontas,

mantendo tudo e todos em ordem, obrigando

Dmitri a manter a calma, mas estava foda. Eu

também gostava de Kyara, gostei dela desde a

primeira vez que a vi e notei que com ela, mesmo

negando, Dmitri era diferente.

As pessoas queriam a glória de ser o

Pakhan, mas não tinham ideia do peso e

responsabilidade que isso trazia. Fiquei feliz que

ele tivesse encontrado alguém que pudesse ficar ao

seu lado e suavizar uma parte de sua vida.

Estava tudo errado. Hoje seria o casamento

deles. Era para estar iniciando mais duas semanas

de lua de mel onde teria que aguentar ouvir pelos

cantos os dois foderem na casa da Suíça.

Deveríamos estar comemorando a chegada do novo

Milanovic e futuro Pakhan.

Em vez disso, tinha aguentado Dmitri

tentando se manter em pé. Eu, muito próximo de

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explodir a bomba relógio dentro de mim enquanto

observava as horas avançarem e Kyara estava sabe-

se lá Deus onde, presa a um maluco.

Enquanto Nikolai falava, eu me

concentrava em manter esses pensamentos

turbulentos no lugar quando meu telefone tocou.

Era Irina. Eu tinha ignorado dezenas de

ligações dela. Primeiro, porque Dmitri estava

desnorteado demais para que eu prestasse atenção

em qualquer outra pessoa que não fosse ele. Já

enfrentamos situações difíceis, como a morte de

Mikhail Milanovic e antes dele, sua esposa. Nós

dois fizemos missões em campo e já colocamos

nossas vidas em risco, mas era diferente. Dmitri

estava apaixonado e ele deixava a porra do coração

falar por ele.

É por isso que não queria Irina metida

nessa merda. Eu não conseguiria me concentrar

sabendo que sua vida poderia estar em risco. O

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lance com a Tambovskaya ainda me deixava muito

puto. Não que eu estivesse perdidamente

apaixonado como Dmitri. Mas a gente tinha uma

ligação de amor e ódio. Mais ódio do que amor e

grande parte, devo admitir, por minha culpa. A

garota me tirava do sério não só pela inteligência,

mas também por não ter se mostrado nem um

pouco mexida por qualquer tentativa de sedução

que eu tivesse jogado sobre ela, então, passei

apenas a provocá-la, raiva era melhor que nenhum

sentimento. E já que estava sendo sincero comigo

mesmo, irritar Irina sempre me deixava de pau

duro.

Ela era uma chata, intelectual arrogante e

nem se vestia do jeito sexy que eu apreciava, acho

que era por isso que mantinha meu interesse nela.

Por baixo de toda frieza e roupa sem graça, deveria

existir uma tigresa selvagem querendo ser domada.

Por experiência sabia que as recatadas ou ignoradas

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por outros homens eram as mais quentes na cama.

O telefone voltou a tocar. Aproveitei que

Dmitri estava ocupado com Ivan e Nikolai e saí.

— O que você quer, Novitsky?

— Vladic? Até que enfim consegui falar

com você — disse ela — Quero saber o que está

acontecendo. O casamento foi cancelado, mas não

dizem nada. Ouço murmúrios aqui e ali. Como está

Kyara? Quero falar com ela.

Tentamos manter o máximo de informação

possível em relação ao sequestro de Kyara em

segredo. Não desejávamos que nenhuma

informação tática do que faríamos chegasse a

Boris, a não ser as que queríamos no momento

certo.

— Isso não é possível — disse a ela — O

mensageiro foi claro. O Pakhan não irá receber

ninguém.

— Não quero ver o Dmitri — ataca ela —

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Quero falar com Kyara!

O atrevimento de Irina me divertia mais do

que irritava. Esse não era o dia. Estava há horas

sem dormir e lidando com uma situação muito

tensa.

— Já disse que não é possível.

— É verdade, não é? — disse ela com

choro na voz — Alguma coisa aconteceu a Kyara.

Foi Kamanev ou a Tambovskaya?

— O Kamanev e é tudo o que eu posso te

contar. Falo com você quando puder.

Encerrei a ligação aos berros dela no

mesmo momento que vi Nikolai se aproximar.

— Ele está reagindo bem — disse ele,

acendendo um cigarro.

— Você acha? — declinei do cigarro que

oferecia e cruzei os braços.

Uma das coisas que Nathasha Milanovic

nos proibia era fumar e beber feito um gambá perto

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dela. Às vezes eu bebia feito um gambá, mas o

cigarro havia declinado. Um guerreiro não tinha

vícios ou se deixava dominar por eles.

— É o que parece.

— E você não o conhece — resmunguei.

— Não tanto quanto você, Vladic —

Nikolai afirmou — Acho que a única pessoa que

realmente o conhece.

— Agora ele tem a Kyara.

— Sim, e eles se amam, mas ela não viu e

viveu toda a história dele, você sim — ele sorriu —

Eu me lembro quando o trouxe para esta casa e

quando os Milanovic chegaram com o bebê. Vocês

passaram a ser inseparáveis sempre. Dmitri sempre

querendo ser igual a você. Imitando até o gesto de

cruzar os braços.

Nikolai tinha razão. Dmitri e eu tínhamos

uma longa história juntos. Muitas algazarras na

infância, aventuras na adolescência e aprendizagem

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durante o crescimento e treinamento para as nossas

funções.

— Mikhail ficaria orgulhoso de você —

disse ele — Tem feito bem seu trabalho cuidando

de Dmitri.

Senti um grande nó na garganta, que

engoli.

— Ele não precisa que ninguém cuide

dele.

— Mesmo assim, você cuida — disse ele

dando um tapa em meu ombro antes de sair.

Estávamos nos preparando para ir à arena

quando um Boyevik pediu um minuto em particular

comigo.

— Senhor, eu sei que a ordem é para não

ser incomodado — iniciou ele nervoso — Mas a

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jovem tentou entrar duas vezes e ela alega que é

algo importante e quando souberem o que tem para

falar, o Pakhan irá querer nossas cabeças por não

ter passado o recado adiante.

— Quando você diz ela — esfreguei

minha têmpora, irritado — Quer dizer a Srtª

Novitsky.

Ele assentiu e eu não estava surpreso por

isso.

— Está aqui?

— No portão — disse ele — Berrando!

Eu poderia rir se a situação não fosse

dramática.

— Leve-a para o escritório do Pakhan e

peça que alguém diga a ele que me aguarde por um

instante.

Daria as respostas que Irina tanto queria e

a despacharia de volta para a segurança de sua casa.

Aqui não era lugar para ela. Estávamos atrás de

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Boris, mas isso não queria dizer que ele não estava

arquitetando alguma forma de nos atacar.

— Você é um imbecil, Guriev! — foi a

primeira coisa que ela disse ao me ver.

Seu rosto vermelho pela raiva ou por ter

passado um bom tempo gritando no portão, como

disse o boyevik, se possível, a deixou mais graciosa,

pelo menos aos meus olhos.

— E você, intrometida — rebati cruzando

meus braços para evitar ir até ela e sacudi-la —

Que parte do ‘não podemos lidar com suas

infantilidades agora’ você não entendeu?

— Infantilidades?

— Porra, Irina! — fiz algo que não

costumava fazer, perdi a cabeça — Kyara está nas

mãos do Boris. O Dmitri está quase maluco e, para

piorar tudo isso, sabemos que ela está gravida. Isso

está bom para você? Pode voltar para casa e nos

deixar cuidar do assunto ou vai continuar a agir

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como uma suka mimada?

Vi seu corpo tremer e ela avançou

lentamente até mim, lançando-me seu olhar

raivoso.

— Essa cadela mimada — disse com a

calma que diferia da fúria em seu rosto — Pode

encontrar a Kyara.

— O que você quer dizer? — perguntei

perturbado — Sabe onde Kyara está?

— Não foi isso o que eu disse, Vladic.

— Acabou de me dizer isso, sim.

— Eu disso que sei um jeito de encontrá-

la.

Ela se afastou de mim cruzando os braços

exatamente como eu fazia.

— Eu implantei um chip rastreador nela —

disse ao me dar um sorriso presunçoso — Então,

Vladic, ainda quer que essa cadela mimada se

retire?

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Ye-bat![5]

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Capítulo 41

Kyara Smirnov

Seja forte.

Foi o que passei a dizer a mim, mas como

eu poderia ser forte se a cada hora, cada minuto e

cada dia que passava parecia uma tortura. O dia

anterior foi o pior de todos, pois, teria sido o dia do

meu casamento. O dia que leria meus votos para

Dmitri e, juntos, juraríamos ser um do outro até que

a morte se colocasse entre nós.

A única coisa boa, se é que poderia dizer

assim, foi que Boris não cumpriu a promessa de se

unir a mim no jantar, nem mesmo Feliks apareceu,

apenas um outro boyevik, que deixou a comida no

quarto e não retornou nem mesmo para recolher a

louça usada depois.

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Mesmo com o avanço das horas e uma

indicação de que Boris não viria mesmo até o

quarto onde me mantinha trancada, na hora do

banho, prendi uma cadeira contra a porta e arrastei

outra até o banheiro.

Eu me limpei o mais rápido que consegui,

mal me sequei com a toalha antes de vestir a roupa

rapidamente. Jeans e uma camiseta, sobre ela um

suéter confortável. Precisava ser prática e vestir

algo que não me atrapalhasse a fugir, caso alguma

oportunidade surgisse.

À noite, e para dormir, era sempre pior.

Despertei várias vezes durante a madrugada com a

sensação de que estava sendo vigiada, ou com

temor de ser tocada novamente. Era uma sensação

tão ruim e angustiante que pegar no sono outra vez

se transformava em uma grande batalha, aos

primeiros sinais de luz do dia desisti.

Quanto tempo mais?.

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Vinha tentando manter a fé de que esse

grande inferno que vivia iria chegar ao fim.

Procurando não enlouquecer ao vagar por cada

centímetro do quarto ou olhando os guardas lá fora,

observando o que dava de suas rotinas e troca de

plantão.

Às vezes, pensar em Dmitri, nos

momentos doces e felizes que tivemos, ajudava a

renovar minhas esperanças; às vezes, pensar em

nosso futuro juntos com nosso bebê fazia minhas

forças renascerem. Outras vezes, como agora, isso

machucava muito.

Apertava a barra de ferro na janela – que

era onde eu passava a maior parte do tempo fora da

cama, quando a porta foi aberta atrás de mim. Eu

virei rapidamente em direção a ela. Vi Sonya entrar

e o boyevik que fazia a guarda na porta fechá-la

atrás dela.

— Oi, Kya — disse ela.

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— Por quê, Sonya? — essa era a única

coisa que eu desejava que ela me dissesse — Por

que fez isso comigo?

Ela não me deu uma resposta, não de

imediato, e eu começava a me perguntar se era

mais um plano entre ela e Boris. Alguma forma

nova e cruel de tentar me enlouquecer e

desestabilizar.

— Não foi algo contra você — ela

suspirou e apoiou as costas contra a porta ao

levantar o queixo para mim — Acha que tive

muitas escolhas? Ou estava do lado de Boris ou

fora do caminho dele.

Por que eu deveria me surpreender ou

ainda ficar magoada com a justificativa de Sonya?

Ela é uma Kamanev e eles sempre colocaram os

desejos e necessidades deles acima de todos. Sonya

tinha agido assim a vida inteira.

— Você poderia ter me procurado. Poderia

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ter pedido ajuda e eu a teria socorrido como sempre

fiz — não queria deixar transparecer minha mágoa,

mas era impossível, eu não sabia ou conseguia ser

fria como Sonya — Em vez disso, traiu a minha

confiança. Me roubou do meu lar, dos braços do

homem que amo, do pa…

Calei-me rapidamente dando as costas a

ela. Não podia contar a Sonya sobre meu bebê,

concluí abraçando meu ventre. Ela contaria a Boris

se pudesse tirar alguma vantagem sobre isso.

— Ouça, Sonya. Eu sei o quanto o seu

irmão pode ser cruel e violento. Apesar de dizer

que não teve escolha, agora você tem — virei-me

para ela — Pode mudar isso. Ajude-me a sair

daqui.

Ela me deu um sorriso escarnecido.

— Facilitar sua fuga será um milhão de

vezes pior do que ter me recusado a trazê-la —

disse ela — Além disso, agora é tarde demais.

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Boris irá enfrentar Milanovic. Ele não está sozinho,

Kyara. Há outros Kapitany com ele. A guerra foi

declarada e nós estamos em lados opostos.

E eu nunca quis estar no meio dessa

guerra, eu sempre a temi. Mas se tinha que escolher

um lado, escolhia o lado de Milanovic. Sempre

seria Dmitri.

— Sonya, por favor — supliquei

esperando que ela ouvisse a voz da razão — Dmitri

nunca irá perdoar você. Ele pode…

Não consegui concluir a frase.

— Me matar? O Boris também pode. Isso

não é injusto, Kyara? Dois homens brigando pelo

seu amor — disse ela com rancor — Dois deles

desejando minha morte, não importe que decisão eu

tome.

Era típico de Sonya me fazer sentir

culpada quando eu não era. Fui parar na casa de

Dmitri por causa dela, para tirá-la de uma de suas

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confusões. Estar presa aqui era por culpa dela

também.

— De qualquer forma, estamos muito

longe. O Pakhan nunca irá encontrar onde você

está, mesmo que Boris perca.

O Pakhan nunca irá encontrar...

Sua afirmação ameaçou me desestabilizar,

então, algo que ainda não tinha refletido veio como

uma ferroada em minha cabeça, fazendo-me erguer

a mão até o canto da minha orelha.

O chip!

Com o chip que Irina havia implantado em

mim havia grandes chances de Dmitri conseguir me

localizar muito em breve.

— Dmitri vai me encontrar, Sonya, sei

disso.

Ela balançou a cabeça e deu as costas a

mim, batendo o punho contra a porta até esta ser

aberta.

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— Você sempre foi muito inocente, Kya, e

é isso que pode destruir você, não o Boris, ou eu.

Não sou sua inimiga, embora pareça. Sinto muito

por tudo. Espero que um dia possa me entender.

— Sonya, por favor — caminhei até ela,

mas a porta foi fechada rapidamente.

Apoiei minhas costas e fiz uma oração que

reafirmava minha confiança em Dmitri. Ele iria me

encontrar. Eu tinha certeza disso. Só precisava

continuar me mantendo segura e buscando

oportunidades de sair daqui.

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Capítulo 42

Boris Kamanev

Analisei as facas alinhadas sobre a mesa e

escolhi uma delas, a que tinha uma lâmina mais

alongada e o cabo de madeira mais curto. Encarei o

alvo com uma foto retalhada de Dmitri Milanovic e

atirei.

Bem no meio de sua testa.

Peguei outra e outra faca até a pilha em

cima da mesa desaparecer e o boyevik ir até elas e

voltar a empilhá-las uma a uma sobre a mesa onde

me encontrava. Eu tinha passado a última hora

praticando e retalhando todas as fotos que o

boyevik trocava, imaginando ser o desprezível

Milanovic. Só que agora me sentia cansado e

aborrecido. Queria entrar em ação, mas não poderia

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dar meu próximo passo até que Feliks aparecesse

trazendo as informações que pedi.

Estava estranhando o silêncio do Kapitan

Dembinsky desde que trouxe Kyara até aqui. Os

outros Kapitany também não entraram em contato

para darmos seguimento ao plano e esse era o

momento de atacar Dmitri, o momento que ele se

encontrava desestabilizado para encontrar a noiva

perdida e que não estaria com cabeça para pensar

em mais nada. Milanovic mostraria a todos o que

sempre pensei dele, que era um fraco.

— Senhor?

Olhei para a porta de onde vinha o

chamado e vi Feliks que finalmente havia retornado

de sua missão.

— Deixe-as aí — disse ao homem

organizando minhas facas e fiz um sinal para que

Feliks entrasse — As usarei mais tarde, pode ir.

Esperei o homem se retirar e após ele

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fechar a porta, ordenei que Feliks relatasse o que

descobriu sobre o que está acontecendo em

Moscou.

— Nenhum dos Kapitany pôde ser

localizado — disse ele — Não considera no

mínimo estranho?

Isso era estranho, mas não alarmante.

Além de Plotnikov, Matveev, Dembinsky,

Vakhstein e Kovalyov, mais quatro Kapitany, todos

de Segunda Elite, haviam se unido à minha causa

de derrubar o atual Pakhan. Os seus boyevik tinham

sido enviados a mim. Eram cerca de 120 homens

mantendo esse lugar seguro.

Eu só tinha que manter Dmitri

desestabilizado até finalizar o meu plano, talvez na

próxima ligação eu colocasse Kyara na linha, isso

certamente o deixaria alucinado.

Uma gargalhada incontrolável ecoou pela

sala e fez Feliks me olhar entre intrigado e receoso.

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Devia me achar louco. Já havia alertado que muitas

coisas que havia feito pareciam loucura, mas as

minhas loucuras tinham me trazido até aqui, prestes

a me tornar o novo Pakhan da Bratva.

— Devem estar reunidos em algum lugar.

Sabem que a casa do Pakhan não é segura agora —

dei de ombros.

Não estava nos planos sequestrar a noiva

de Milanovic no dia anterior ao seu casamento. O

plano original era atacar a casa do Pakhan durante

a festa de casamento, eliminando todos os que se

atrevessem a ficar em nosso caminho. Mas eu não

podia colocar em risco a vida de Kyara. Além

disso, eu dava as ordens, e não eles.

Agora, eu só precisava reuni-los mais uma

vez e explicar que o meu plano era melhor que o

deles e com menos baixas de nossos soldados.

— Vá até Moscou — nesse primeiro

momento, ele só havia verificado essas informações

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com seus contatos — Use o helicóptero, não levará

mais do que algumas horas para ir e voltar. Veja o

que está acontecendo. Não me ligue, as linhas

podem estar sendo rastreadas.

Embora estivesse usando dois telefones

descartáveis, já que o terceiro havia jogado fora

após minha ligação para Dmitri, precisava admitir

que os Obshchak comandados por Ivan Trotsky

eram competentes. E havia a filha de Novitsky,

Irina, outra coisa que me irritava nessa

administração fraca; mulheres deveriam ficar em

casa mantendo-se belas para seus maridos e dando

a eles herdeiros.

— Todo o cuidado é necessário — disse a

Feliks antes que ele saísse — Queremos pegar

Dmitri de surpresa e não o contrário.

— Farei como quer.

— Feliks? — o chamei antes que abrisse a

porta — Lembra do que te prometi? Sonya será sua

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e você será meu Avtoriyet.

Se Feliks estivesse pensando em vacilar, o

que tinha a ganhar com sua fidelidade atiçou sua

chama da ambição e o fez seguir firme ao meu

lado. Era um tolo que nem desconfiava que seu

destino já estava selado assim que eu me tornasse o

Pakhan. Sonya seria dada a um outro Kapitan de

minha confiança. Eu não mancharia o sangue de

minha família com um soldado ambicioso e burro.

— Volto em breve, senhor — disse ele ao

sair.

Por enquanto, e para o bem dos meus

planos, Feliks era essencial. Olhei para a mesa e

para a nova foto de Dmitri presa ao alvo, eu queria

fazer outra coisa.

Fui até o meu quarto e abri a porta do

closet. Passei a mão pelas fantasias até encontrar a

que mais me agradava. Sorri maliciosamente ao

imaginar como Kyara ficaria nela e esfreguei o meu

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pau, que já começava a enrijecer apenas com as

imagens se formando em minha cabeça. Depois

abri uma caixa onde guardava vários brinquedinhos

sexuais, tirei alguns acessórios de dentro dela.

— Stepanov, venha comigo — disse ao

boyevik em minha porta que me seguiu até o quarto

em que mantinha Kyara trancada.

O soldado na porta a abriu para que eu

entrasse. Avistei Kyara na cama, ela se encolheu ao

me vir entrar. Isso era algo que me incomodava,

continuar esperando de boa vontade que ela

enxergasse de uma vez por todas que eu era o

homem certo para ela, mas já que fazê-la entender

com impassibilidade não estava funcionando,

talvez fosse o momento de mostrar quem realmente

estava no comando e aqui ela não tinha escolha.

Eu dou as ordens e ela se curva a mim.

Dentro e fora do quarto.

— Vou atender seu pedido de sair do

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quarto por alguns minutos — meu olhar libidinoso

varreu o pouco que via de seu corpo encolhido —

Mas será nos meus termos e condições.

Aproximei-me da cama, deliciado com seu

olhar assustado e sua reação quase me fez rir.

— Coloque isso — joguei a roupa de

couro preta em cima da cama ao lado dela.

Vi a pequena chama de esperança nos

olhos dela mudar para um olhar nauseado ao

encarar a fantasia, depois, os elevou descrente até

mim.

— O que... que é isso?

Com certeza o bundão do Milanovic não

fazia a mínima ideia do que fazer para agradar uma

mulher na cama, mas eu iria ensinar Kyara muitas

coisas.

— Se vai agir como uma suka — disse a

ela abrindo um sorriso debochado —, vista-se

como tal. Agora vá se vestir ou eu mesmo faço isso

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agora.

Dei dois passos em direção a ela que

rapidamente se levantou e correu com a fantasia até

o banheiro. Uma gargalhada cruel, tenho que

confessar, ecoou pelo quarto. Eu me sentia

diabólico e isso me deixava excitado.

Quando o tempo que achei suficiente

passou, bati com força na porta do banheiro. Estava

sendo complacente demais com Kyara e não podia

cometer os mesmos erros que Milanovic me

mostrando fraco para ela.

— Saia daí, Kyara, ou juro que derrubo

essa maldita porta!

Bati mais uma vez e quando estava prestes

a me afastar e mandar que Stepanov cumprisse a

minha ameaça, a porta começou a ser aberta

lentamente. Kyara surgiu de cabeça baixa, os olhos

fixos no chão se recusando a me encarar.

— Boris... por favor — ela lamentava e,

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infelizmente, não dava para afirmar se o tom

choroso refletia em seus olhos.

Aproximei-me dela e segurei o seu queixo

com força, obrigando-a a me encarar: — Está linda,

Kya.

Puxei-a para meus braços, esfreguei meu

rosto em seu pescoço, o que a fez se retorcer. Mexi

com o rabo de cavalo acoplado à fantasia de cadela

que dei a ela e meu corpo começou a reagir a isso.

— Stepanov? — chamei o homem que

surgiu atrás de mim — Passe as correntes, pulseiras

e a coleira.

Foi delicioso me deparar com o ar

assustado de Kyara quando a soltei para pegar os

objetos que o boyevik me entregava. Dei-me conta

nesse momento que apreciava muito mais seu olhar

de medo do que o apaixonado que sempre desejei

ver espelhado neles.

— Me dê seus pulsos, Kya — ordenei

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vendo o horror estampado nela se intensificar.

— O que... o que você pretende fazer?

Estiquei a mão passando-a em seu rosto

angustiado. Era como provocar um bichinho

indefeso com um espeto. Isso era muito divertido.

— Não me pediu para sair um pouco deste

quarto? — disse apertando seu queixo com certa

brutalidade.

Sua aflição me impulsionava, sempre

gostei de lidar com dor nas mulheres que levava

para a minha cama, poder fazer isso com Kyara

elevava ainda mais minha libido.

— Precisa colocar a coleira primeiro.

— Eu não quero!

Ela tentou fugir, mas agarrei seus pulsos

com ainda mais agressividade e com a ajuda de

Stepanov, que passou a segurá-la no lugar, prendi

uma das pulseiras em seu pulso. O mesmo foi feito

na outra mão e a coleira em seu pescoço, todas

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unidas às correntes que se tornavam uma só em

minha mão.

— Eu sou seu senhor, Kyara — com um

puxão brusco nas correntes a fiz dar alguns passos

— Quanto antes entender isso, mas fácil a vida

ficará para você.

As lágrimas que há muito custo ela tentava

segurar, começaram a deslizar pelo seu rosto.

Submissão poderia ser considerada uma situação

humilhante se a parte submissa não estivesse

acostumada, mas eu estava aqui para doutrinar

Kyara. Seria minha cadelinha e se sujeitaria a tudo

que eu pedisse a ela.

— Hora de seu passeio, minha suka —

disse ao arrastá-la para fora do quarto.

O soldado na porta a olhou rapidamente,

mas vi o vislumbre de admiração nos olhos dele,

antes que rapidamente desviasse o olhar. Eu não me

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importava que outros admirassem o que me

pertencia, principalmente as mulheres. Que

invejassem o que eu tinha desde que não tocassem

como Milanovic se atreveu a fazer.

Sempre que lembrava que o desgraçado a

tocou, que a fez dele antes de mim, me colocava

insano.

Kyara sempre foi e sempre seria minha.

Andamos por um longo corredor e

passamos por algumas portas até chegarmos a uma

escada larga. Tratava-se de um castelo antigo feito

de pedras, com muitas entradas e saídas que

precisavam ser protegidas.

Quando chegamos a uma sala, observei

seis boyevik carregando fuzis andando entre si,

fazendo a guarda. Como o soldado parado na porta

de Kyara, esses também mostraram surpresa e

interesse em vê-la vestida assim.

Estava muito claro em seu rosto e na

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forma que abaixava a cabeça tentando cobrir o

rosto com os cabelos, que ela se sentia humilhada,

não apenas pela situação, mas pela forma com que

cada um dos homens por quem passávamos a

encarava.

Isso era bom, mostrava a Kyara quem

estava e sempre estaria no controle de sua vida, eu.

O lado de fora do castelo, cercado por

montanhas a perder de vista e muitas árvores em

volta, servia como uma opção de defesa. Também

havia um muro de pedra e, como dentro da casa,

muitos boyevik em movimento, armados. Eu havia

me preparado para uma guerra, mas esperava não

precisar chegar a tanto.

Notei Kyara vacilar quando a puxei pela

corrente mais uma vez.

— Está temerosa, Kya?

Eu conseguia identificar o pavor

emanando dela, um sorriso satisfeito se alargou em

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meu rosto.

— Eu tenho tudo sob controle — disse

puxando a corrente em seu pescoço, trazendo-a

para junto de mim — Inclusive você.

Sonya Kamanev

Kyara, de um jeito ou de outro, tinha

sempre o que queria. Foi assim desde criança. Com

aquela cara de idiota e olhar inocente fazia com que

os idiotas comessem na palma de sua mão sem

precisar se esforçar muito. Primeiro, minha mãe

que acolheu a menina chorona pela morte dos pais

como se fosse sua filha. Depois, meu pai que

mesmo quando eu o Boris aprontávamos e

colocávamos a culpa em Kyara, pegava leve nas

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reprimendas e castigos. Acho que ele sentia culpa

pelos pais dela terem morrido inocentemente e por

causa dele.

Boris também, apesar da implicância e

certa crueldade na infância, havia caído nos

encantos de Kyara. Agora Dmitri Milanovic, o

Pakhan, tinha olhos apaixonados por ela. Com seu

jeito sonso conseguia tudo. Por um tempo, foi útil

para mim. Ela nunca desmentia quando eu colocava

a culpa nela e sempre encobria o que eu fazia fora

de casa, e pudesse desagradar meus pais e irmãos.

Ela também era fácil de manipular, embora

depois de ter ido morar com o Pakhan tenha ficado

mais questionadora. E eu não podia dizer o que

realmente pensava sobre ela antes que isso tudo

terminasse.

Boris tinha garantido que tinha condições

de vencer essa guerra e eu estava ao lado dele

porque realmente não havia escolha. Mas eu não

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podia descartar a ideia de que o Pakhan vencesse

meu irmão. E se isso acontecesse, Kyara era a única

que poderia me manter viva. Apelar para seus

sentimentos de irmã era o caminho certo. Por isso

demorei a vê-la, e quando a vi, não disse nada mais

que o essencial. Ela precisava acreditar que Boris

me forçava e minha recusa em ajudá-la a fugir

devia-se apenas ao fato de temê-lo, o que não era

de todo mentira. Porém, antes, eu queria saber que

lado venceria para depois tomar qualquer decisão.

E a única parte realmente ruim nessa

espera era ter que ficar nesse mausoléu que Boris

chamava de fortaleza. Então, para aliviar um pouco

a monotonia, busquei minha bolsa jogada dobre a

cama e procurei uma das cápsulas dentro dela.

Abri a tampa e joguei o pó branco em cima

da mesa. Procurei o cartão de crédito dentro da

bolsa e ajeitei a droga até que se formasse um

filete, não deixando nada ser desperdiçado. Fiz um

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canudo com a nota, depois, me inclinei sobre a

mesa. Tapei a narina esquerda com o polegar e

aspirei o pó branco sobre a mesa até que não

restasse nenhum miligrama.

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