
A Irmandade acima de tudo
Capítulo 3
Foram direto para o lixo.
— Ele só quer me controlar e que eu viva
mais para arrancar mais do meu dinheiro.
— Eu quero que você viva mais, papai —
olhei feio para ele, embora isso não fosse afetá-lo
nem um pouco — E não é por causa do seu
dinheiro.
— Daragáya[3], não venha com essa
vozinha de garota meiga que ama o papai — voltou
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a resmungar — Para onde estava indo?
Se havia alguém que me conhecia bem era
o meu pai. Nós éramos tudo um para outro, após
minha mãe ter morrido no parto, algumas horas
depois de ter me dado à luz. Eu até achei que ele se
casaria de novo e desejei que isso acontecesse para
me dar irmãos, mas acho que seu carinho por
minha mãe foi mais forte do que ele ousava
admitir.
— Eu preciso ir ver a Kyara — decidi ser
honesta — Alguma coisa está acontecendo. Ela
estava radiante com o casamento. Por que foi
cancelado?
Meu pai respirou fundo e pegou minha
mão me conduzindo à sala de estar. Sempre que ele
queria que eu entendesse um assunto sério, agia
assim. Desde criança, olhava dentro dos meus olhos
e dizia com toda calma quando não poderia ter
alguma coisa, porque ele não podia faltar ao
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trabalho para ficar comigo ou porque a mamãe
tinha morrido e que não, eu não tinha matado ela.
Foi assim desde que criança.
— Sei que é muito amiga dela.
— Eu me tornei muito mais agora —
corrigi lembrando que no passado não era tanto
assim.
Kyara sempre foi uma garota legal comigo
no colégio. Não me chamava de esquisitona como a
maioria das garotas e nem se incomodada que
prestasse mais atenção aos meus livros do que no
que me falava. Mas ela sempre estava com Sonya e
essa sempre foi uma grande suka [4]comigo, a quem
eu preferia passar bem longe e ignorar.
Mas sem a presença da irmã má, era como
se Kyara se permitisse brilhar e ela não precisava
apagar a luminosidade das outras pessoas para se
sentir mais bonita e segura de quem era. Conversar
com ela era fácil, ficar em sua presença era calmo.
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— Ela me convidou para ser dama de
honra — relembrei a ele — Sabe o que isso
significa?
— Exatamente o que a palavras dizem,
uma honra. E não existe pessoa no mundo que
mereça ter todas as honras, além de você —
afirmou ele.
Papai não era de ficar tecendo elogios,
nem mesmo para mim, mas quando fazia era na
hora certa e com palavras perfeitas. Eu nunca fui de
ter muitos amigos, principalmente do sexo
feminino. O que elas conversavam nos vestiários e
nos intervalos das aulas não me interessava. Por ser
filha do dono do colégio ou se aproximava de mim
quando tinham algum interesse em relação à escola
ou me afastavam porque tinham interesses que nem
eu, e principalmente meu pai e professores,
deveriam saber.
Passei a vida toda com a cara enfiada nos
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livros, depois, nos computadores. Ambos eram
mais fáceis de entender do que os humanos. Então,
ele sabia que essa nova fase da minha amizade com
Kyara era importante para mim.
— Mas se o Pakhan ordenou que não
queria ser incomodado, nós vamos obedecer.
— Mas alguma coisa aconteceu, não
estamos falando de um convite para um jantar. É
um casamento, papai — insisti e o sondei com o
olhar — A menos que você saiba de algo que eu
não saiba.
Meu envolvimento com a Bratva ficava na
ciência e tecnologia. Eu sabia das coisas que
aconteciam nos bastidores, dos negócios que eram
fechados e nas relações boas e ruins que eram
mantidas. Mas Dmitri me deu algo que talvez eu
não tivesse em outro lugar, a oportunidade de
mostrar que era boa, ou podia ser, no meu trabalho.
Não importava para ele se eu usava saia ou um par
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de calças, salto alto ou tênis, que minha boca
tivesse mais creme para o café do que batom. O que
ele exigia era que eu fosse eficiente.
Em algumas culturas, mulheres andavam
atrás dos maridos, literalmente. Em outras, cobriam
o corpo para andar na rua, e em outras, eram
tratadas apenas como uma máquina procriadora. Na
Tambovskaya isso ainda era assim. Todo país tinha
suas leis, regras e sua cultura. A Bratva era como
um país dentro da Rússia. Eu não conhecia outra
coisa e me adaptava da melhor forma possível.
Eu nunca criaria uma arma nuclear ou um
vírus que se espalhasse matando rapidamente as
pessoas pelo mundo, mas eu faria algo para nos
defender dela.
— Você sabe de algo que eu não sei,
papai?
Ele desviou o olhar e quando fazia isso
significava três coisas: estava mentindo, iria mentir
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ou queria esconder algo. Eu era assim. Filha de
peixe…
— Pai?!
— Só ouvi boatos.
— Que tipo de boatos?
— Não muito coisa ou se é mesmo
verdade, mas algo sobre quererem derrubar o
Milanovic.
Levei minhas mãos à boca, assustada.
— É só isso que tenho a dizer por
enquanto, daragáya.
— Mas, pai…
Se Dmitri e Kyara corriam perigo, eu
precisava saber. Às vezes ser tão focada em meu
trabalho no laboratório me prejudicava. Eu não
tinha interesse nas questões políticas internas da
Bratva.
— Irina, sou um homem muito rico e
influente, dentro da Bratva e fora dela — disse ele e
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tocou minha face com as duas mãos — Mas se
perguntarem qual a minha maior riqueza, não vou
pestanejar em dizer que é você. Por isso, até que eu
ache seguro, você irá ficar em casa. Quando puder,
o Pakhan e sua amiga darão notícias.
— Mas e o meu trabalho no laboratório?
— Pode esperar alguns dias — disse ele
em um tom firme — Ou peça àquele americano que
traga tudo o que você precisa até aqui.
— Não pode esperar, não! — também falei
firme — E ele é metade russo. Você e Guriev
parecem esquecer isso.
— É que Vladic só dá importância ao que
é realmente importante — disse ele sorrindo —
Sabe, eu gosto dele.
— Do Tigran?
— Não! — ele olhou como se estivesse
louca — O Avtorieyt. E já que não posso mais
sonhar em vê-la casada com o Pakhan, o Guriev
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não é uma escolha tão ruim. Não é tão rico, mas
dinheiro nós temos mais que o suficiente para
dezenas de gerações, que aliás, eu espero que
continue a surgir antes de eu morrer.
— Eu não acredito que está querendo que
eu corteje o Guriev.
Pior do que meu pai ficar insistindo em me
ver casada e com filhos antes que ele morresse, era
ele querer me casar com alguém como Vladic.
— Na verdade — ele soltou meu rosto e
balançou o dedo em frente a ele —, Vladic quem
tem que cortejar você. Talvez eu o chame para um
drink e poderemos conversar melhor sobre isso. O
Pakhan vai se casar, ele deve seguir seu exemplo,
não existe pretendente em toda Bratva melhor que
você.
— Não se atreva, papai! — disse exaltada
— Não se atreva a me jogar nos braços do Vladic.
Você prometeu que posso terminar meus estudos.
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— O problema é que sempre me orgulhei
da sua inteligência e, por isso, dei asas demais a
você, Irina. Sua mãe também era inteligente. Uma
professora universitária fantástica. Mas como eu
fiz, está na hora de alguém com mais pulso te
dobrar.
Não deixaria que Vladic ou qualquer outro
homem tentasse me dominar, quando nem meu pai
havia conseguido.
— Não sou uma folha de papel para ser
dobrada — protestei recebendo um olhar duro, que
ignorei — Prefiro entrar para um convento do que
me casar com ele.
— Não vamos à igreja, minha filha — ele
riu — Você foi batizada?
Tanto quanto ele, não sabia ou não me
lembrava disso. Mas eu entraria para a Igreja nem
que tivesse que pular os muros.
— Vou ver sobre isso e sobre Guriev —
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ele se levantou — E nem tente sair de casa. Tem
um boyevik na porta. Obedeça ao Pakhan já que a
mim…
Ele saiu resmungando, mas meus
pensamentos estavam desconectados.
Ah! Eu queria odiar o meu pai, como eu
queria odiar Vladic Guriev.
Eu até tinha que admitir que sentia atração
por Vladic, mas não a ponto de me casar com ele e
sabotaria qualquer intenção em relação a isso que
meu pai tivesse.
Mas eu precisava ruminar isso depois.
Vladic só era mais uma pedra em meu sapato.
Minha prioridade agora era chegar até o Pakhan e
saber como minha amiga estava. Eu esperava que
ela estivesse bem.
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Capítulo 40
Dmitri Milanovic
Toda metade esquerda do meu corpo
pendia para fora da cama e a outra metade me
mantinha nela. Foi assim que despertei,
desengonçado e com a garrafa de vodka vazia em
minha mão. Era preciso mais do que isso para me
garantir uma boa ressaca, mesmo assim, meu
estado era deplorável.
Esfreguei o rosto amassado pelo
travesseiro de Kyara, que eu havia procurado à
noite, ainda continha o perfume dela. Afastei o
travesseiro assim como tentei com todas as forças
afastar a dor que isso me causava. Até ter Kyara de
volta, seria apenas o Pakhan. Era preciso que fosse
dessa forma.
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Antes de sair da cama, peguei o papel com
os votos de Kyara que havia deixado cair no chão e
depositei no mesmo lugar que ela havia deixado.
Levantei e segui para o banheiro onde joguei a
garrafa vazia no cesto de lixo. A água caindo sobre
minha cabeça podia relaxar os músculos tensos em
meu corpo, mas a minha mente seguia frenética.
Saí do box e encarei o espelho enquanto
me secava. Precisava dar um jeito no corte do
supercílio que sempre voltava a sangrar quando
tocado. Havia uma caixa de primeiros socorros no
gabinete. Eu mesmo daria um jeito nessa merda.
Depois dos pontos, segui para o closet e
retirei uma das dúzias de ternos que havia dentro
dele. Calcei os sapatos e olhei para o anel do
Pakhan em meu dedo. Eu tinha mandado que
ajustassem uma réplica, com detalhes mais suaves e
femininos para Kyara, o mesmo anel que meu pai
havia dado à minha mãe, e meu avô, para sua
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esposa.
Colocaria no dedo de Kyara logo após a
aliança na cerimônia de casamento. Ainda estava
guardado no mesmo lugar no bolso do terno que
constava meus votos a ela. Isso não era o nosso
fim, só era um adiamento não planejado.
Desci e fui à sala montada para a
investigação à procura de Ivan. Deveria estar
possesso por Vladic ter permitido que eu apagasse
por tanto tempo, mas ele tinha razão, meu corpo e
mente precisaram dessa pausa para enfrentar as
horas difíceis que teríamos pela frente.
Eu sabia que não havia nenhuma notícia
importante ou avanço no caso, Vladic teria me
acordado imediatamente se tivesse. Mas eu queria
saber em que pé as coisas andavam.
Encontrei Ivan com Vladic e, ao lado
deles, dois dos seus homens. Havia pelo menos uns
dez dentro da sala, avaliando equipamentos,
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concentrados em escutas e analisando mapas.
— Papa — Ivan foi o primeiro a me ver e
cumprimentar.
— Dmitri — Vladic veio até mim e me
deu uma boa estudada com os olhos.
Bati suavemente em seu braço.
— Está tudo bem, Vladic.
E podia dizer que realmente estava. Eu
precisava manter a cabeça calma e agir com frieza,
isso que traria Kyara e meu filho seguros de volta
para casa. E eu faria tudo para tê-los comigo de
novo, até sufocar meus sentimentos.
— O que você tem de importante, Ivan?
Conseguiu algo com o meu celular.
Até onde eu sabia, queriam investigar de
que lugar originou a ligação de Boris.
— Veio de Moscou e encontramos o
telefone em uma lixeira — disse Vladic — Mas
isso não ajuda muito. Ele pode ter ido de
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helicóptero e voltado para seja lá qual buraco
mantém-se escondido.
Olhei para Ivan e tive certeza que ele
pensava o mesmo.
— Se Boris queria fazer acreditar que
estava em Moscou… — dei voz aos meus
pensamentos.
— É porque ele realmente não está —
disse Vladic.
A procura por Kyara era como tentar
encontrar uma agulha em um palheiro.
— Mais alguma coisa? — perguntei a
Ivan.
— A Srtª Novitsky tem ligado
constantemente.
— Ela era uma das damas de honra. O que
disseram para os envolvidos no casamento e
convidados?
— Apenas que foi adiado e que o Pakhan
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não receberia visitas ou faria audiência até o
próximo comunicado — Disse Vladic.
— Mas Irina é insistente — disse Ivan e
olhou em volta da sala — Nós temos equipamentos
de alta tecnologia aqui, acha que Irina pode ser útil
em alguma outra coisa? Ela é boa com essa coisa
de tecnologia, pode ter alguma coisa nova. Devo
chamá-la?
— Acho melhor não a envolvermos nisso
— disse Vladic.
Acreditava nunca ter chamado a atenção
dele em qualquer circunstância. Vladic era
sarcástico e tinha um humor ácido, mas sempre
agia de acordo com cada ocasião e seu trabalho era
executado de forma exemplar. Mas sua birra, ou
seja lá como devesse denominar a sua relação com
Irina, não era bem-vinda agora.
— Não me interessa suas desavenças com
Irina — disse em tom extremamente seco — Eu
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quero Kyara de volta!
— Não é por isso — protestou ele — Irina
já se envolveu muito no caso Tambovskaya, não é
justo trazê-la para isso também. Com todo respeito,
Pakhan, ela é só uma cientista.
A questão com Irina era outra, eu podia
ver. Puxei Vladic para um canto, mantendo a
conversa entre a gente.
— Ela é importante para você — disse a
ele, estudando seu olhar consternado.
— Não, eu só acho que…
— Corta essa, Vladic, não tenho saco para
essas suas desculpas — cortei-o antes que viesse
com uma justificativa que nem ele mesmo
acreditava — Vou dar mais algum tempo a Ivan.
Eu conseguia entender Vladic querer
proteger Irina de qualquer respingo que essa guerra
pudesse causar, faria o mesmo por Kyara se
estivéssemos em papéis diferentes, mas minha
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família vinha em primeiro lugar. E por considerá-lo
como parte dela, daria esse tempo a Ivan para que
conseguisse mover céus e terra para encontrar
minha mulher e meu filho.
— Mas se ele repetir que Irina pode ser
uma peça importante — disse a ele —, vou mandar
buscá-la. Por agora vou pedir que ele veja se
alguém ligado ao laboratório de Irina pode ser tão
útil quanto ela.
Vladic assentiu e retornamos para o lado
de Ivan. Logo depois minha atenção estava
completamente focada em cada informação nova
que recebia. Uma delas veio de Nikolai algumas
horas mais tarde.
— A arena está pronta — disse ele —
Todos os traidores já se encontram lá e os Kapitany
de Primeira e Segunda Elites que não o traíram
estão sendo enviados para assistir o torneio e
realizar um novo juramento ao Pakhan.
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Não era apenas mais um ritual para
reafirmar minha supremacia. Os Kapitany
possuíam seu próprio exército de Boyevik e eu
precisava de cada soldado que pudesse se aliar aos
meus e partirmos juntos para enfrentar Boris
quando finalmente o encontrasse.
— Ivan, você fica aqui cuidando das
investigações — disse a ele — Mantenha uma linha
direta comigo. Quando tiver que ir para a arena,
quero que todas as informações sejam direcionadas
para lá. Quando der o sinal, partiremos com os
Boyevik.
Boris seria esmagado antes de conseguir
entender o que acontecia à sua volta.
Acertei os últimos detalhes com Nikolai e
só percebi que Vladic tinha saído quando precisei
dizer algo a ele. Concluí que saiu para resolver algo
importante e tornei a me concentrar em Ivan. Isso
era o que me mantinha longe de enlouquecer.
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Vladic Guriev
Fazia dois dias que Kyara tinha sido
sequestrada e iríamos para o terceiro. Embora
Dmitri estivesse agindo com racionalidade, sabia
que por dentro ele estava acabado. Eu conhecia
esse garoto desde que era um bolinho enrolado no
cobertor.
Ainda me lembro de quando criança, me
pendurar em seu berço para poder olhá-lo de perto.
Eu cresci e fui criado não apenas para ser seu
homem de confiança. Fui treinado para dar a minha
vida por ele, e daria.
Estava fazendo o possível para ser a razão
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quando ele era a emoção. Segurando as pontas,
mantendo tudo e todos em ordem, obrigando
Dmitri a manter a calma, mas estava foda. Eu
também gostava de Kyara, gostei dela desde a
primeira vez que a vi e notei que com ela, mesmo
negando, Dmitri era diferente.
As pessoas queriam a glória de ser o
Pakhan, mas não tinham ideia do peso e
responsabilidade que isso trazia. Fiquei feliz que
ele tivesse encontrado alguém que pudesse ficar ao
seu lado e suavizar uma parte de sua vida.
Estava tudo errado. Hoje seria o casamento
deles. Era para estar iniciando mais duas semanas
de lua de mel onde teria que aguentar ouvir pelos
cantos os dois foderem na casa da Suíça.
Deveríamos estar comemorando a chegada do novo
Milanovic e futuro Pakhan.
Em vez disso, tinha aguentado Dmitri
tentando se manter em pé. Eu, muito próximo de
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explodir a bomba relógio dentro de mim enquanto
observava as horas avançarem e Kyara estava sabe-
se lá Deus onde, presa a um maluco.
Enquanto Nikolai falava, eu me
concentrava em manter esses pensamentos
turbulentos no lugar quando meu telefone tocou.
Era Irina. Eu tinha ignorado dezenas de
ligações dela. Primeiro, porque Dmitri estava
desnorteado demais para que eu prestasse atenção
em qualquer outra pessoa que não fosse ele. Já
enfrentamos situações difíceis, como a morte de
Mikhail Milanovic e antes dele, sua esposa. Nós
dois fizemos missões em campo e já colocamos
nossas vidas em risco, mas era diferente. Dmitri
estava apaixonado e ele deixava a porra do coração
falar por ele.
É por isso que não queria Irina metida
nessa merda. Eu não conseguiria me concentrar
sabendo que sua vida poderia estar em risco. O
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lance com a Tambovskaya ainda me deixava muito
puto. Não que eu estivesse perdidamente
apaixonado como Dmitri. Mas a gente tinha uma
ligação de amor e ódio. Mais ódio do que amor e
grande parte, devo admitir, por minha culpa. A
garota me tirava do sério não só pela inteligência,
mas também por não ter se mostrado nem um
pouco mexida por qualquer tentativa de sedução
que eu tivesse jogado sobre ela, então, passei
apenas a provocá-la, raiva era melhor que nenhum
sentimento. E já que estava sendo sincero comigo
mesmo, irritar Irina sempre me deixava de pau
duro.
Ela era uma chata, intelectual arrogante e
nem se vestia do jeito sexy que eu apreciava, acho
que era por isso que mantinha meu interesse nela.
Por baixo de toda frieza e roupa sem graça, deveria
existir uma tigresa selvagem querendo ser domada.
Por experiência sabia que as recatadas ou ignoradas
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por outros homens eram as mais quentes na cama.
O telefone voltou a tocar. Aproveitei que
Dmitri estava ocupado com Ivan e Nikolai e saí.
— O que você quer, Novitsky?
— Vladic? Até que enfim consegui falar
com você — disse ela — Quero saber o que está
acontecendo. O casamento foi cancelado, mas não
dizem nada. Ouço murmúrios aqui e ali. Como está
Kyara? Quero falar com ela.
Tentamos manter o máximo de informação
possível em relação ao sequestro de Kyara em
segredo. Não desejávamos que nenhuma
informação tática do que faríamos chegasse a
Boris, a não ser as que queríamos no momento
certo.
— Isso não é possível — disse a ela — O
mensageiro foi claro. O Pakhan não irá receber
ninguém.
— Não quero ver o Dmitri — ataca ela —
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Quero falar com Kyara!
O atrevimento de Irina me divertia mais do
que irritava. Esse não era o dia. Estava há horas
sem dormir e lidando com uma situação muito
tensa.
— Já disse que não é possível.
— É verdade, não é? — disse ela com
choro na voz — Alguma coisa aconteceu a Kyara.
Foi Kamanev ou a Tambovskaya?
— O Kamanev e é tudo o que eu posso te
contar. Falo com você quando puder.
Encerrei a ligação aos berros dela no
mesmo momento que vi Nikolai se aproximar.
— Ele está reagindo bem — disse ele,
acendendo um cigarro.
— Você acha? — declinei do cigarro que
oferecia e cruzei os braços.
Uma das coisas que Nathasha Milanovic
nos proibia era fumar e beber feito um gambá perto
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dela. Às vezes eu bebia feito um gambá, mas o
cigarro havia declinado. Um guerreiro não tinha
vícios ou se deixava dominar por eles.
— É o que parece.
— E você não o conhece — resmunguei.
— Não tanto quanto você, Vladic —
Nikolai afirmou — Acho que a única pessoa que
realmente o conhece.
— Agora ele tem a Kyara.
— Sim, e eles se amam, mas ela não viu e
viveu toda a história dele, você sim — ele sorriu —
Eu me lembro quando o trouxe para esta casa e
quando os Milanovic chegaram com o bebê. Vocês
passaram a ser inseparáveis sempre. Dmitri sempre
querendo ser igual a você. Imitando até o gesto de
cruzar os braços.
Nikolai tinha razão. Dmitri e eu tínhamos
uma longa história juntos. Muitas algazarras na
infância, aventuras na adolescência e aprendizagem
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durante o crescimento e treinamento para as nossas
funções.
— Mikhail ficaria orgulhoso de você —
disse ele — Tem feito bem seu trabalho cuidando
de Dmitri.
Senti um grande nó na garganta, que
engoli.
— Ele não precisa que ninguém cuide
dele.
— Mesmo assim, você cuida — disse ele
dando um tapa em meu ombro antes de sair.
Estávamos nos preparando para ir à arena
quando um Boyevik pediu um minuto em particular
comigo.
— Senhor, eu sei que a ordem é para não
ser incomodado — iniciou ele nervoso — Mas a
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jovem tentou entrar duas vezes e ela alega que é
algo importante e quando souberem o que tem para
falar, o Pakhan irá querer nossas cabeças por não
ter passado o recado adiante.
— Quando você diz ela — esfreguei
minha têmpora, irritado — Quer dizer a Srtª
Novitsky.
Ele assentiu e eu não estava surpreso por
isso.
— Está aqui?
— No portão — disse ele — Berrando!
Eu poderia rir se a situação não fosse
dramática.
— Leve-a para o escritório do Pakhan e
peça que alguém diga a ele que me aguarde por um
instante.
Daria as respostas que Irina tanto queria e
a despacharia de volta para a segurança de sua casa.
Aqui não era lugar para ela. Estávamos atrás de
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Boris, mas isso não queria dizer que ele não estava
arquitetando alguma forma de nos atacar.
— Você é um imbecil, Guriev! — foi a
primeira coisa que ela disse ao me ver.
Seu rosto vermelho pela raiva ou por ter
passado um bom tempo gritando no portão, como
disse o boyevik, se possível, a deixou mais graciosa,
pelo menos aos meus olhos.
— E você, intrometida — rebati cruzando
meus braços para evitar ir até ela e sacudi-la —
Que parte do ‘não podemos lidar com suas
infantilidades agora’ você não entendeu?
— Infantilidades?
— Porra, Irina! — fiz algo que não
costumava fazer, perdi a cabeça — Kyara está nas
mãos do Boris. O Dmitri está quase maluco e, para
piorar tudo isso, sabemos que ela está gravida. Isso
está bom para você? Pode voltar para casa e nos
deixar cuidar do assunto ou vai continuar a agir
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como uma suka mimada?
Vi seu corpo tremer e ela avançou
lentamente até mim, lançando-me seu olhar
raivoso.
— Essa cadela mimada — disse com a
calma que diferia da fúria em seu rosto — Pode
encontrar a Kyara.
— O que você quer dizer? — perguntei
perturbado — Sabe onde Kyara está?
— Não foi isso o que eu disse, Vladic.
— Acabou de me dizer isso, sim.
— Eu disso que sei um jeito de encontrá-
la.
Ela se afastou de mim cruzando os braços
exatamente como eu fazia.
— Eu implantei um chip rastreador nela —
disse ao me dar um sorriso presunçoso — Então,
Vladic, ainda quer que essa cadela mimada se
retire?
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Ye-bat![5]
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Capítulo 41
Kyara Smirnov
Seja forte.
Foi o que passei a dizer a mim, mas como
eu poderia ser forte se a cada hora, cada minuto e
cada dia que passava parecia uma tortura. O dia
anterior foi o pior de todos, pois, teria sido o dia do
meu casamento. O dia que leria meus votos para
Dmitri e, juntos, juraríamos ser um do outro até que
a morte se colocasse entre nós.
A única coisa boa, se é que poderia dizer
assim, foi que Boris não cumpriu a promessa de se
unir a mim no jantar, nem mesmo Feliks apareceu,
apenas um outro boyevik, que deixou a comida no
quarto e não retornou nem mesmo para recolher a
louça usada depois.
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Mesmo com o avanço das horas e uma
indicação de que Boris não viria mesmo até o
quarto onde me mantinha trancada, na hora do
banho, prendi uma cadeira contra a porta e arrastei
outra até o banheiro.
Eu me limpei o mais rápido que consegui,
mal me sequei com a toalha antes de vestir a roupa
rapidamente. Jeans e uma camiseta, sobre ela um
suéter confortável. Precisava ser prática e vestir
algo que não me atrapalhasse a fugir, caso alguma
oportunidade surgisse.
À noite, e para dormir, era sempre pior.
Despertei várias vezes durante a madrugada com a
sensação de que estava sendo vigiada, ou com
temor de ser tocada novamente. Era uma sensação
tão ruim e angustiante que pegar no sono outra vez
se transformava em uma grande batalha, aos
primeiros sinais de luz do dia desisti.
Quanto tempo mais?.
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Vinha tentando manter a fé de que esse
grande inferno que vivia iria chegar ao fim.
Procurando não enlouquecer ao vagar por cada
centímetro do quarto ou olhando os guardas lá fora,
observando o que dava de suas rotinas e troca de
plantão.
Às vezes, pensar em Dmitri, nos
momentos doces e felizes que tivemos, ajudava a
renovar minhas esperanças; às vezes, pensar em
nosso futuro juntos com nosso bebê fazia minhas
forças renascerem. Outras vezes, como agora, isso
machucava muito.
Apertava a barra de ferro na janela – que
era onde eu passava a maior parte do tempo fora da
cama, quando a porta foi aberta atrás de mim. Eu
virei rapidamente em direção a ela. Vi Sonya entrar
e o boyevik que fazia a guarda na porta fechá-la
atrás dela.
— Oi, Kya — disse ela.
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— Por quê, Sonya? — essa era a única
coisa que eu desejava que ela me dissesse — Por
que fez isso comigo?
Ela não me deu uma resposta, não de
imediato, e eu começava a me perguntar se era
mais um plano entre ela e Boris. Alguma forma
nova e cruel de tentar me enlouquecer e
desestabilizar.
— Não foi algo contra você — ela
suspirou e apoiou as costas contra a porta ao
levantar o queixo para mim — Acha que tive
muitas escolhas? Ou estava do lado de Boris ou
fora do caminho dele.
Por que eu deveria me surpreender ou
ainda ficar magoada com a justificativa de Sonya?
Ela é uma Kamanev e eles sempre colocaram os
desejos e necessidades deles acima de todos. Sonya
tinha agido assim a vida inteira.
— Você poderia ter me procurado. Poderia
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ter pedido ajuda e eu a teria socorrido como sempre
fiz — não queria deixar transparecer minha mágoa,
mas era impossível, eu não sabia ou conseguia ser
fria como Sonya — Em vez disso, traiu a minha
confiança. Me roubou do meu lar, dos braços do
homem que amo, do pa…
Calei-me rapidamente dando as costas a
ela. Não podia contar a Sonya sobre meu bebê,
concluí abraçando meu ventre. Ela contaria a Boris
se pudesse tirar alguma vantagem sobre isso.
— Ouça, Sonya. Eu sei o quanto o seu
irmão pode ser cruel e violento. Apesar de dizer
que não teve escolha, agora você tem — virei-me
para ela — Pode mudar isso. Ajude-me a sair
daqui.
Ela me deu um sorriso escarnecido.
— Facilitar sua fuga será um milhão de
vezes pior do que ter me recusado a trazê-la —
disse ela — Além disso, agora é tarde demais.
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Boris irá enfrentar Milanovic. Ele não está sozinho,
Kyara. Há outros Kapitany com ele. A guerra foi
declarada e nós estamos em lados opostos.
E eu nunca quis estar no meio dessa
guerra, eu sempre a temi. Mas se tinha que escolher
um lado, escolhia o lado de Milanovic. Sempre
seria Dmitri.
— Sonya, por favor — supliquei
esperando que ela ouvisse a voz da razão — Dmitri
nunca irá perdoar você. Ele pode…
Não consegui concluir a frase.
— Me matar? O Boris também pode. Isso
não é injusto, Kyara? Dois homens brigando pelo
seu amor — disse ela com rancor — Dois deles
desejando minha morte, não importe que decisão eu
tome.
Era típico de Sonya me fazer sentir
culpada quando eu não era. Fui parar na casa de
Dmitri por causa dela, para tirá-la de uma de suas
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confusões. Estar presa aqui era por culpa dela
também.
— De qualquer forma, estamos muito
longe. O Pakhan nunca irá encontrar onde você
está, mesmo que Boris perca.
O Pakhan nunca irá encontrar...
Sua afirmação ameaçou me desestabilizar,
então, algo que ainda não tinha refletido veio como
uma ferroada em minha cabeça, fazendo-me erguer
a mão até o canto da minha orelha.
O chip!
Com o chip que Irina havia implantado em
mim havia grandes chances de Dmitri conseguir me
localizar muito em breve.
— Dmitri vai me encontrar, Sonya, sei
disso.
Ela balançou a cabeça e deu as costas a
mim, batendo o punho contra a porta até esta ser
aberta.
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— Você sempre foi muito inocente, Kya, e
é isso que pode destruir você, não o Boris, ou eu.
Não sou sua inimiga, embora pareça. Sinto muito
por tudo. Espero que um dia possa me entender.
— Sonya, por favor — caminhei até ela,
mas a porta foi fechada rapidamente.
Apoiei minhas costas e fiz uma oração que
reafirmava minha confiança em Dmitri. Ele iria me
encontrar. Eu tinha certeza disso. Só precisava
continuar me mantendo segura e buscando
oportunidades de sair daqui.
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Capítulo 42
Boris Kamanev
Analisei as facas alinhadas sobre a mesa e
escolhi uma delas, a que tinha uma lâmina mais
alongada e o cabo de madeira mais curto. Encarei o
alvo com uma foto retalhada de Dmitri Milanovic e
atirei.
Bem no meio de sua testa.
Peguei outra e outra faca até a pilha em
cima da mesa desaparecer e o boyevik ir até elas e
voltar a empilhá-las uma a uma sobre a mesa onde
me encontrava. Eu tinha passado a última hora
praticando e retalhando todas as fotos que o
boyevik trocava, imaginando ser o desprezível
Milanovic. Só que agora me sentia cansado e
aborrecido. Queria entrar em ação, mas não poderia
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dar meu próximo passo até que Feliks aparecesse
trazendo as informações que pedi.
Estava estranhando o silêncio do Kapitan
Dembinsky desde que trouxe Kyara até aqui. Os
outros Kapitany também não entraram em contato
para darmos seguimento ao plano e esse era o
momento de atacar Dmitri, o momento que ele se
encontrava desestabilizado para encontrar a noiva
perdida e que não estaria com cabeça para pensar
em mais nada. Milanovic mostraria a todos o que
sempre pensei dele, que era um fraco.
— Senhor?
Olhei para a porta de onde vinha o
chamado e vi Feliks que finalmente havia retornado
de sua missão.
— Deixe-as aí — disse ao homem
organizando minhas facas e fiz um sinal para que
Feliks entrasse — As usarei mais tarde, pode ir.
Esperei o homem se retirar e após ele
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fechar a porta, ordenei que Feliks relatasse o que
descobriu sobre o que está acontecendo em
Moscou.
— Nenhum dos Kapitany pôde ser
localizado — disse ele — Não considera no
mínimo estranho?
Isso era estranho, mas não alarmante.
Além de Plotnikov, Matveev, Dembinsky,
Vakhstein e Kovalyov, mais quatro Kapitany, todos
de Segunda Elite, haviam se unido à minha causa
de derrubar o atual Pakhan. Os seus boyevik tinham
sido enviados a mim. Eram cerca de 120 homens
mantendo esse lugar seguro.
Eu só tinha que manter Dmitri
desestabilizado até finalizar o meu plano, talvez na
próxima ligação eu colocasse Kyara na linha, isso
certamente o deixaria alucinado.
Uma gargalhada incontrolável ecoou pela
sala e fez Feliks me olhar entre intrigado e receoso.
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Devia me achar louco. Já havia alertado que muitas
coisas que havia feito pareciam loucura, mas as
minhas loucuras tinham me trazido até aqui, prestes
a me tornar o novo Pakhan da Bratva.
— Devem estar reunidos em algum lugar.
Sabem que a casa do Pakhan não é segura agora —
dei de ombros.
Não estava nos planos sequestrar a noiva
de Milanovic no dia anterior ao seu casamento. O
plano original era atacar a casa do Pakhan durante
a festa de casamento, eliminando todos os que se
atrevessem a ficar em nosso caminho. Mas eu não
podia colocar em risco a vida de Kyara. Além
disso, eu dava as ordens, e não eles.
Agora, eu só precisava reuni-los mais uma
vez e explicar que o meu plano era melhor que o
deles e com menos baixas de nossos soldados.
— Vá até Moscou — nesse primeiro
momento, ele só havia verificado essas informações
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com seus contatos — Use o helicóptero, não levará
mais do que algumas horas para ir e voltar. Veja o
que está acontecendo. Não me ligue, as linhas
podem estar sendo rastreadas.
Embora estivesse usando dois telefones
descartáveis, já que o terceiro havia jogado fora
após minha ligação para Dmitri, precisava admitir
que os Obshchak comandados por Ivan Trotsky
eram competentes. E havia a filha de Novitsky,
Irina, outra coisa que me irritava nessa
administração fraca; mulheres deveriam ficar em
casa mantendo-se belas para seus maridos e dando
a eles herdeiros.
— Todo o cuidado é necessário — disse a
Feliks antes que ele saísse — Queremos pegar
Dmitri de surpresa e não o contrário.
— Farei como quer.
— Feliks? — o chamei antes que abrisse a
porta — Lembra do que te prometi? Sonya será sua
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e você será meu Avtoriyet.
Se Feliks estivesse pensando em vacilar, o
que tinha a ganhar com sua fidelidade atiçou sua
chama da ambição e o fez seguir firme ao meu
lado. Era um tolo que nem desconfiava que seu
destino já estava selado assim que eu me tornasse o
Pakhan. Sonya seria dada a um outro Kapitan de
minha confiança. Eu não mancharia o sangue de
minha família com um soldado ambicioso e burro.
— Volto em breve, senhor — disse ele ao
sair.
Por enquanto, e para o bem dos meus
planos, Feliks era essencial. Olhei para a mesa e
para a nova foto de Dmitri presa ao alvo, eu queria
fazer outra coisa.
Fui até o meu quarto e abri a porta do
closet. Passei a mão pelas fantasias até encontrar a
que mais me agradava. Sorri maliciosamente ao
imaginar como Kyara ficaria nela e esfreguei o meu
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pau, que já começava a enrijecer apenas com as
imagens se formando em minha cabeça. Depois
abri uma caixa onde guardava vários brinquedinhos
sexuais, tirei alguns acessórios de dentro dela.
— Stepanov, venha comigo — disse ao
boyevik em minha porta que me seguiu até o quarto
em que mantinha Kyara trancada.
O soldado na porta a abriu para que eu
entrasse. Avistei Kyara na cama, ela se encolheu ao
me vir entrar. Isso era algo que me incomodava,
continuar esperando de boa vontade que ela
enxergasse de uma vez por todas que eu era o
homem certo para ela, mas já que fazê-la entender
com impassibilidade não estava funcionando,
talvez fosse o momento de mostrar quem realmente
estava no comando e aqui ela não tinha escolha.
Eu dou as ordens e ela se curva a mim.
Dentro e fora do quarto.
— Vou atender seu pedido de sair do
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quarto por alguns minutos — meu olhar libidinoso
varreu o pouco que via de seu corpo encolhido —
Mas será nos meus termos e condições.
Aproximei-me da cama, deliciado com seu
olhar assustado e sua reação quase me fez rir.
— Coloque isso — joguei a roupa de
couro preta em cima da cama ao lado dela.
Vi a pequena chama de esperança nos
olhos dela mudar para um olhar nauseado ao
encarar a fantasia, depois, os elevou descrente até
mim.
— O que... que é isso?
Com certeza o bundão do Milanovic não
fazia a mínima ideia do que fazer para agradar uma
mulher na cama, mas eu iria ensinar Kyara muitas
coisas.
— Se vai agir como uma suka — disse a
ela abrindo um sorriso debochado —, vista-se
como tal. Agora vá se vestir ou eu mesmo faço isso
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agora.
Dei dois passos em direção a ela que
rapidamente se levantou e correu com a fantasia até
o banheiro. Uma gargalhada cruel, tenho que
confessar, ecoou pelo quarto. Eu me sentia
diabólico e isso me deixava excitado.
Quando o tempo que achei suficiente
passou, bati com força na porta do banheiro. Estava
sendo complacente demais com Kyara e não podia
cometer os mesmos erros que Milanovic me
mostrando fraco para ela.
— Saia daí, Kyara, ou juro que derrubo
essa maldita porta!
Bati mais uma vez e quando estava prestes
a me afastar e mandar que Stepanov cumprisse a
minha ameaça, a porta começou a ser aberta
lentamente. Kyara surgiu de cabeça baixa, os olhos
fixos no chão se recusando a me encarar.
— Boris... por favor — ela lamentava e,
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infelizmente, não dava para afirmar se o tom
choroso refletia em seus olhos.
Aproximei-me dela e segurei o seu queixo
com força, obrigando-a a me encarar: — Está linda,
Kya.
Puxei-a para meus braços, esfreguei meu
rosto em seu pescoço, o que a fez se retorcer. Mexi
com o rabo de cavalo acoplado à fantasia de cadela
que dei a ela e meu corpo começou a reagir a isso.
— Stepanov? — chamei o homem que
surgiu atrás de mim — Passe as correntes, pulseiras
e a coleira.
Foi delicioso me deparar com o ar
assustado de Kyara quando a soltei para pegar os
objetos que o boyevik me entregava. Dei-me conta
nesse momento que apreciava muito mais seu olhar
de medo do que o apaixonado que sempre desejei
ver espelhado neles.
— Me dê seus pulsos, Kya — ordenei
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vendo o horror estampado nela se intensificar.
— O que... o que você pretende fazer?
Estiquei a mão passando-a em seu rosto
angustiado. Era como provocar um bichinho
indefeso com um espeto. Isso era muito divertido.
— Não me pediu para sair um pouco deste
quarto? — disse apertando seu queixo com certa
brutalidade.
Sua aflição me impulsionava, sempre
gostei de lidar com dor nas mulheres que levava
para a minha cama, poder fazer isso com Kyara
elevava ainda mais minha libido.
— Precisa colocar a coleira primeiro.
— Eu não quero!
Ela tentou fugir, mas agarrei seus pulsos
com ainda mais agressividade e com a ajuda de
Stepanov, que passou a segurá-la no lugar, prendi
uma das pulseiras em seu pulso. O mesmo foi feito
na outra mão e a coleira em seu pescoço, todas
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unidas às correntes que se tornavam uma só em
minha mão.
— Eu sou seu senhor, Kyara — com um
puxão brusco nas correntes a fiz dar alguns passos
— Quanto antes entender isso, mas fácil a vida
ficará para você.
As lágrimas que há muito custo ela tentava
segurar, começaram a deslizar pelo seu rosto.
Submissão poderia ser considerada uma situação
humilhante se a parte submissa não estivesse
acostumada, mas eu estava aqui para doutrinar
Kyara. Seria minha cadelinha e se sujeitaria a tudo
que eu pedisse a ela.
— Hora de seu passeio, minha suka —
disse ao arrastá-la para fora do quarto.
O soldado na porta a olhou rapidamente,
mas vi o vislumbre de admiração nos olhos dele,
antes que rapidamente desviasse o olhar. Eu não me
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importava que outros admirassem o que me
pertencia, principalmente as mulheres. Que
invejassem o que eu tinha desde que não tocassem
como Milanovic se atreveu a fazer.
Sempre que lembrava que o desgraçado a
tocou, que a fez dele antes de mim, me colocava
insano.
Kyara sempre foi e sempre seria minha.
Andamos por um longo corredor e
passamos por algumas portas até chegarmos a uma
escada larga. Tratava-se de um castelo antigo feito
de pedras, com muitas entradas e saídas que
precisavam ser protegidas.
Quando chegamos a uma sala, observei
seis boyevik carregando fuzis andando entre si,
fazendo a guarda. Como o soldado parado na porta
de Kyara, esses também mostraram surpresa e
interesse em vê-la vestida assim.
Estava muito claro em seu rosto e na
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forma que abaixava a cabeça tentando cobrir o
rosto com os cabelos, que ela se sentia humilhada,
não apenas pela situação, mas pela forma com que
cada um dos homens por quem passávamos a
encarava.
Isso era bom, mostrava a Kyara quem
estava e sempre estaria no controle de sua vida, eu.
O lado de fora do castelo, cercado por
montanhas a perder de vista e muitas árvores em
volta, servia como uma opção de defesa. Também
havia um muro de pedra e, como dentro da casa,
muitos boyevik em movimento, armados. Eu havia
me preparado para uma guerra, mas esperava não
precisar chegar a tanto.
Notei Kyara vacilar quando a puxei pela
corrente mais uma vez.
— Está temerosa, Kya?
Eu conseguia identificar o pavor
emanando dela, um sorriso satisfeito se alargou em
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meu rosto.
— Eu tenho tudo sob controle — disse
puxando a corrente em seu pescoço, trazendo-a
para junto de mim — Inclusive você.
Sonya Kamanev
Kyara, de um jeito ou de outro, tinha
sempre o que queria. Foi assim desde criança. Com
aquela cara de idiota e olhar inocente fazia com que
os idiotas comessem na palma de sua mão sem
precisar se esforçar muito. Primeiro, minha mãe
que acolheu a menina chorona pela morte dos pais
como se fosse sua filha. Depois, meu pai que
mesmo quando eu o Boris aprontávamos e
colocávamos a culpa em Kyara, pegava leve nas
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reprimendas e castigos. Acho que ele sentia culpa
pelos pais dela terem morrido inocentemente e por
causa dele.
Boris também, apesar da implicância e
certa crueldade na infância, havia caído nos
encantos de Kyara. Agora Dmitri Milanovic, o
Pakhan, tinha olhos apaixonados por ela. Com seu
jeito sonso conseguia tudo. Por um tempo, foi útil
para mim. Ela nunca desmentia quando eu colocava
a culpa nela e sempre encobria o que eu fazia fora
de casa, e pudesse desagradar meus pais e irmãos.
Ela também era fácil de manipular, embora
depois de ter ido morar com o Pakhan tenha ficado
mais questionadora. E eu não podia dizer o que
realmente pensava sobre ela antes que isso tudo
terminasse.
Boris tinha garantido que tinha condições
de vencer essa guerra e eu estava ao lado dele
porque realmente não havia escolha. Mas eu não
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podia descartar a ideia de que o Pakhan vencesse
meu irmão. E se isso acontecesse, Kyara era a única
que poderia me manter viva. Apelar para seus
sentimentos de irmã era o caminho certo. Por isso
demorei a vê-la, e quando a vi, não disse nada mais
que o essencial. Ela precisava acreditar que Boris
me forçava e minha recusa em ajudá-la a fugir
devia-se apenas ao fato de temê-lo, o que não era
de todo mentira. Porém, antes, eu queria saber que
lado venceria para depois tomar qualquer decisão.
E a única parte realmente ruim nessa
espera era ter que ficar nesse mausoléu que Boris
chamava de fortaleza. Então, para aliviar um pouco
a monotonia, busquei minha bolsa jogada dobre a
cama e procurei uma das cápsulas dentro dela.
Abri a tampa e joguei o pó branco em cima
da mesa. Procurei o cartão de crédito dentro da
bolsa e ajeitei a droga até que se formasse um
filete, não deixando nada ser desperdiçado. Fiz um
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canudo com a nota, depois, me inclinei sobre a
mesa. Tapei a narina esquerda com o polegar e
aspirei o pó branco sobre a mesa até que não
restasse nenhum miligrama.
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