
A Infiltração Fatal
Capítulo 2
A água já me chegava aos tornozelos.
O meu carro, um pequeno utilitário que o meu marido Tiago insistiu ser "perfeito para a cidade", estava parado no meio da rua inundada na Baixa de Lisboa. A chuva não parava, batia no tejadilho com uma força assustadora.
Estava grávida de nove meses. O nosso filho, o nosso tão desejado Martim.
Agarrei no telemóvel com os dedos a tremer. A bateria estava nos 15%. Marquei o número do Tiago.
"Estou?" A voz dele soou distante, com música de fundo.
"Tiago, preciso de ajuda! O carro ficou parado na inundação, a água está a entrar!"
A minha voz saiu esganiçada, cheia de pânico. A contração que senti na barriga foi forte, aguda.
Houve uma pausa do outro lado. Ouvi a voz de uma mulher a rir ao fundo. Clara, a prima dele.
"Sofia, tem calma," disse ele, com um tom de enfado. "É só chuva. Já deves saber como fica a Baixa quando chove mais forte. Tenta sair do carro e vai para um sítio mais alto."
"Não consigo! As portas não abrem, a pressão da água é demasiada! Tiago, por favor, vem buscar-me. Eu estou com dores."
"Agora não posso," respondeu ele, a impaciência a crescer-lhe na voz. "A Clara está em pânico por causa de uma pequena infiltração no apartamento dela. Já sabes como ela é. Tive de vir aqui acalmá-la."
Uma pequena infiltração.
Eu estava presa numa armadilha de metal, com a água a subir, a carregar o filho dele, e a emergência era uma pequena infiltração.
"Tiago..." comecei a chorar, sem conseguir controlar. "O bebé... acho que ele vai nascer."
"Não sejas dramática, Sofia. Liga para o 112, eles resolvem isso. Tenho de ir, a Clara está a chamar-me. Falamos depois."
E desligou.
Olhei para o ecrã do telemóvel. Chamada terminada.
Tentei ligar outra vez. Caixa de correio. E outra vez. Caixa de correio.
Ele tinha desligado o telemóvel. Ou rejeitado as minhas chamadas.
A água já me molhava os joelhos. O meu corpo tremia de frio e de medo. A dor na minha barriga voltou, mais intensa.
O meu filho ia nascer ali. Sozinha.
A última coisa que vi antes de perder os sentidos foi o nível da água a cobrir o volante.
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