
A Imperatriz que Sepulta Seu Passado
Capítulo 2
Na manhã seguinte, uma solicitação genérica de amizade apareceu no meu telefone: "Bia Torres quer ser sua amiga". Meu polegar pairou sobre a tela, dividido entre a curiosidade mórbida e o instinto de excluir. A curiosidade venceu. Aceitei.
Meu coração martelava enquanto eu rolava pelo perfil dela. Era um destaque cuidadosamente curado de opulência e glamour. Fotos de festas luxuosas, roupas de grife, férias exóticas. Então eu vi. Uma foto de Alexandre e Bia, de braços dados, rindo, os rostos próximos, banhados pelo brilho suave da luz de velas. A legenda dizia: "Meu tipo favorito de noite romântica. Tão grata por este homem."
Meus olhos dispararam para a data abaixo da foto. 15 de outubro. Meu aniversário. Alexandre me disse que estava voando para Tóquio para uma reunião de negócios urgente, uma negociação crítica que ele não podia perder. Ele até me enviou uma mensagem de texto protocolar mais tarde naquela noite, desejando-me feliz aniversário e prometendo compensar quando voltasse.
Lembrei-me daquele aniversário. Passei sozinha, comendo comida chinesa de caixinha, tentando me convencer de que a ausência dele era um sinal de sua dedicação ao nosso futuro compartilhado, ao império que supostamente estávamos construindo juntos. Lembrei-me do ano anterior, quando comemoramos meu aniversário com champanhe barato na varanda do nosso apartamento minúsculo, rindo tanto que quase caímos. Ele me prometeu a eternidade então, uma vida inteira de alegrias simples compartilhadas.
Será que ele sequer se lembrava dessas promessas agora? Alguma coisa importava para ele? Senti uma onda de náusea me invadir. Não conseguia mais olhar. Fechei o aplicativo, a sensação nauseante de traição formando um nó frio no meu estômago.
Joguei meu telefone no banco do passageiro e acelerei em direção ao hospital. Precisava de respostas sobre meu pai. Irrompi pelas portas, indo direto para o posto de enfermagem no andar dele. A enfermeira-chefe, uma mulher mais velha chamada Marta que conhecia meu pai há anos, olhou para cima, os olhos se arregalando de surpresa.
— Cíntia? Não te vejo aqui há séculos. Está tudo bem?
— Marta, preciso saber sobre a condição do meu pai — disse, minha voz tensa. — Ele deveria ter feito uma cirurgia. Já aconteceu?
A testa de Marta franziu.
— Ah, Cíntia, o Alexandre não te contou? O hospital mudou de dono no mês passado. Estamos sob nova direção agora, e houve algumas... mudanças.
Minha cabeça se ergueu bruscamente.
— Mudou de dono? Não, não fui informada. — Alexandre era responsável por tudo, nossas finanças, os cuidados do meu pai. Ele nunca mencionou isso.
— A condição do meu pai — insisti novamente, ignorando a notícia perturbadora. — A cirurgia foi realizada?
Marta hesitou, olhando em volta nervosamente.
— Bem, Sra. Ferraz, a boa notícia é que ele está estável. Os novos médicos decidiram contra a cirurgia imediata. Eles o colocaram em uma nova medicação experimental. Dizem que é muito promissora, mas tem... efeitos colaterais.
— Efeitos colaterais? — cortei-a, uma pontada de desconforto se espalhando por mim. — Que tipo de efeitos colaterais? E quem autorizou essa mudança? Eu sou a parente mais próxima!
Marta torceu as mãos.
— Foi a assistente do Alexandre, Bia Torres. Ela veio ontem de manhã, logo depois que seu pai foi internado. Disse que o Alexandre estava muito ocupado para vir pessoalmente, mas que ele queria explorar todas as opções para seu pai. Ela autorizou o novo tratamento.
Minha visão embaçou. Bia. Claro. A mulher que havia planejado meticulosamente minha humilhação pública agora estava brincando de médica com a vida do meu pai.
— Ela autorizou? — repeti, minha voz mal passando de um sussurro. — Por que não fui informada? Eu sou a filha dele!
— Assumimos que o Alexandre tinha te contado — disse Marta, a voz cheia de preocupação genuína. — A Bia foi muito insistente. Disse que você estava... indisposta. E francamente, querida, ela foi bastante desagradável. Exigente, na verdade. Disse que se não seguíssemos as instruções dela, o Alexandre cortaria todo o financiamento do hospital.
O mundo inclinou-se em seu eixo. Alexandre. Bia. Meu pai. Tudo estava conectado em uma teia de engano e malícia. Meu pai, que viveu sua vida com tanta integridade, agora era um peão no jogo distorcido deles.
Tropecei para fora do hospital, o sol brilhante da tarde parecendo um soco no estômago. O cheiro de antisséptico agarrava-se às minhas roupas, um lembrete constante da traição estéril. Minha mente corria, juntando os fragmentos. Bia mudou o tratamento dele. Alexandre sabia. Ele permitiu. Era essa a maneira dele de me punir? Ou era algo muito mais sinistro?
Eu não podia ir para casa. Não para a casa que não era mais um lar, cheia dos fantasmas de uma vida que eu não reconhecia mais. Caminhei sem rumo, a cidade um borrão ao meu redor, até me encontrar parada em frente ao nosso primeiro prédio de apartamentos, o prédio sem elevador alugado onde Alexandre e eu começamos nossas vidas juntos.
Parecia menor, mais gasto do que eu lembrava. Um prédio de tijolos vermelhos desbotados, janelas riscadas de fuligem, uma planta solitária lutando pela vida em uma escada de incêndio. Lembrei-me das noites intermináveis que passamos lá, a comida barata, os sonhos que sussurrávamos um para o outro no escuro. Éramos tão pobres, tão cheios de esperança. Alexandre prometeu que um dia teríamos uma casa grande o suficiente para todos os nossos sonhos. Ele me prometeu a eternidade.
Estendi a mão para a maçaneta, uma necessidade desesperada de recuperar um pedaço daquele passado inocente. Mas quando minha mão tocou o metal frio, eu ouvi. Um gemido baixo e gutural, seguido pela risadinha sem fôlego de uma mulher. Meu sangue gelou. Os sons eram inconfundíveis, íntimos, crus.
Congelei, minha mão ainda na maçaneta. A risadinha parou, substituída por uma voz masculina, a voz de Alexandre, rouca e satisfeita. Ele murmurou algo que não consegui entender, mas o tom era claro o suficiente. Era uma voz que eu não ouvia dirigida a mim há anos. Então, outra risadinha, mais perto desta vez.
Minha mente ficou em branco. Fiquei ali, uma estátua esculpida em gelo, ouvindo a sinfonia horrível da traição do meu marido, tocando no mesmo lugar onde nosso amor floresceu. Um clique pequeno, quase imperceptível, ecoou pelo prédio quando minha mão, ainda segurando a maçaneta, se moveu ligeiramente.
Os sons íntimos lá dentro cessaram abruptamente. A voz de uma mulher, a voz de Bia, afiada com suspeita, cortou o silêncio repentino.
— Você ouviu isso, Alexandre? Tem alguém lá fora.
A voz de Alexandre, carregada de aborrecimento, seguiu.
— Provavelmente são só os vizinhos, Bia. Não seja tão paranoica.
Meu coração se estilhaçou, pedaço por pedaço agonizante. Os últimos vestígios de amor, de esperança, de qualquer pingo de dignidade que eu pensava ainda possuir, desmoronaram em pó. Eu queria gritar, enfurecer-me, arrombar a porta e confrontar os dois. Mas uma calma estranha se instalou sobre mim. Não havia mais nada pelo que lutar. Nada mais para salvar.
Percebi então que eu não era mais aquela garota jovem e impulsiva. Eu era uma mulher, despida pela traição, mas não quebrada. Ainda não. Eu não daria a eles a satisfação de ver minha dor.
A porta rangeu ligeiramente. Ouvi um suspiro lá de dentro, depois a voz de Alexandre, mais afiada agora.
— Quem está aí?
Virei-me e fugi. Corri escada abaixo, meus pés batendo, meus pulmões queimando, o som da minha própria respiração irregular ecoando em meus ouvidos. As lágrimas vieram então, quentes e ardentes, embaçando o corredor já escuro. Não me importava quem me visse. Apenas corri.
Um homem na rua olhou para mim, perplexo.
— Está chovendo? — murmurou ele, protegendo o rosto.
Não, não estava chovendo. Era só eu. Meu mundo estava desmoronando.
Naquela noite, encontrei-me no escritório mal iluminado de um renomado advogado de divórcio, um contraste gritante com meu próprio estúdio bem iluminado. Sentei-me à frente dele, meu rosto uma máscara de exaustão.
— Quero o divórcio — declarei, minha voz desprovida de emoção.
Ele perguntou sobre bens, sobre pensão alimentícia, sobre os anos que despejei na empresa de Alexandre. Listei as infidelidades de Alexandre, sua negligência, a indiferença fria que havia esvaziado nosso casamento. Mas quando ele perguntou sobre a profundidade da nossa conexão, o porquê de tudo isso, eu vacilei. As palavras ficaram presas na minha garganta. A dor era crua demais, profunda demais.
— Apenas... apenas me tire dessa — sussurrei finalmente, minha voz falhando. — Não quero nada. Apenas o divórcio. Só quero sair.
Ele olhou para mim, um lampejo de pena em seus olhos.
— Tem certeza, Sra. Ferraz? Você tem direito à metade de tudo.
— Tenho certeza — disse, minha voz firme apesar do tremor em minhas mãos. O pensamento de lutar por uma parte dos espólios deles me revoltava. Eu só queria que tudo acabasse. Eu queria ser livre.
Na manhã seguinte, armada com uma petição de divórcio recém-assinada, entrei novamente no arranha-céu reluzente que abrigava o Grupo Junqueira, o império que ajudei a construir.
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