
A Imperatriz que Sepulta Seu Passado
Capítulo 3
O saguão elegante e moderno do Grupo Junqueira parecia estranho, apesar de eu mesma tê-lo projetado. A recepção, antes uma visão familiar, agora era ocupada por um rosto novo. Uma jovem com olhos afiados e inquisitivos olhou para cima quando me aproximei.
— Com licença, a senhora tem hora marcada? — perguntou ela, a voz educada, mas firme.
— Não — respondi, minha voz estável. — Sou Cíntia Ferraz. Esposa de Alexandre Junqueira.
Os olhos dela se arregalaram, um lampejo de surpresa, depois curiosidade mal velada, cruzando suas feições. Meu status como "a esposa" sempre foi nebuloso, um título que Alexandre raramente exibia. Minha ausência da face pública da empresa significava que muitos funcionários novos nem sabiam que eu existia.
Ela pegou o telefone, o olhar ainda fixo em mim.
— Bia, a Sra. Ferraz está aqui para ver o Sr. Junqueira.
Alguns momentos depois, Bia emergiu do elevador, seu cabelo perfeitamente penteado e maquiagem impecável um contraste gritante com sua aparência desgrenhada de ontem. Seus olhos, no entanto, continham um brilho frio e predatório sob a inocência fingida.
— Cíntia? Ah, meu Deus — exclamou ela, a voz carregada de falsa preocupação. — Que surpresa! O Alexandre ainda não chegou, mas por favor, suba. Podemos esperá-lo no escritório dele.
Ela usou o pronome "nós" com ênfase deliberada, uma afirmação sutil de sua nova posição.
Eu a segui, meus olhos examinando os corredores familiares. Ela se movia com uma facilidade perturbadora, navegando pelo labirinto corporativo como se fosse dona dele. Aquele era meu mundo, minha criação, mas eu me sentia uma intrusa, um fantasma assombrando os corredores do meu próprio passado. Cada canto, cada elemento de design, sussurrava sobre as noites sem dormir que despejei neste lugar, os sonhos que compartilhei com Alexandre. Eu havia imaginado uma vida inteira aqui, trabalhando ao lado dele, construindo algo duradouro. Em vez disso, tornei-me a "esposa desempregada", uma sócia silenciosa apagada da narrativa da empresa.
— Chegamos — anunciou Bia, empurrando a porta pesada do escritório de Alexandre.
Preparei-me para um confronto, uma ameaça velada, uma declaração presunçosa de sua vitória. Mas ela simplesmente sorriu, uma curva melosa e perturbadora nos lábios, e fechou a porta atrás de nós.
Meu olhar varreu a sala. Era o escritório de Alexandre, mas parecia distintamente dela. Um lenço de seda delicado drapeado sobre a cadeira dele, um tubo meio vazio de creme para as mãos caro ao lado do teclado, e uma pequena vela perfumada, ainda quente, perfumava o ar com uma fragrância doce e enjoativa. Aquilo não era apenas um escritório; era um santuário, um espaço compartilhado onde construíam uma vida, uma paródia perversa daquela que Alexandre e eu sonhamos anos atrás. Aqueles não eram apenas objetos; eram declarações, gritos silenciosos de posse.
Meus olhos pousaram em uma fotografia com moldura de prata na mesa dele. Um menino, não mais velho que cinco anos, com o cabelo escuro e os olhos travessos de Alexandre, estava rindo, com o braço em volta de um golden retriever. Minha respiração falhou.
Minha mão tremeu quando a alcancei, meus dedos traçando o rosto inocente do menino. Folheei o pequeno álbum ao lado, cada página um instantâneo da infância: primeiros passos, festas de aniversário, peças da escola. E em quase todas as fotos, lá estava Alexandre, com o braço em volta do menino, o rosto irradiando um calor e orgulho que eu não o via expressar há anos.
Então, lá estava. Um retrato de família. Alexandre, Bia e o menino, todos sorrindo, perfeitamente posados, uma imagem de felicidade doméstica. Meu mundo, já despedaçado, estilhaçou-se em mais um milhão de pedaços. Uma criança. Alexandre tinha um filho. O filho deles.
— Ele é um menino lindo, não é? — A voz de Bia, suave e enganosamente gentil, cortou o silêncio. Ela estava ao meu lado, segurando uma caneca fumegante de chá, os olhos fixos na fotografia. — O Alexandre o adora.
Ela tomou um gole de chá, depois continuou, a voz ganhando um tom arrepiante.
— Foi um acidente, sabe. Aquela primeira noite. O Alexandre estava... perturbado. Você não estava muito por perto, ele disse. Ele tinha bebido, e alguém colocou algo na bebida dele. Ele pensou que eu fosse você. — Ela fez uma pausa, deixando as palavras pairarem no ar. — Ele ficou tão envergonhado na manhã seguinte. Ordenou que eu ficasse quieta. Mas depois de algumas semanas, ele não suportou a ideia de eu ir embora. Ele me mudou para um apartamento, depois me trouxe para cá, como assistente dele. Disse que precisava de mim por perto.
Olhei para ela, vendo-a verdadeiramente pela primeira vez. Seus olhos, seu sorriso, a curva de seu maxilar. Ela não era uma réplica exata, mas havia uma semelhança impressionante. Eu estava olhando para uma versão mais jovem e menos calejada de mim mesma, uma substituta cuidadosamente escolhida para preencher um vazio.
Uma risada amarga escapou dos meus lábios. Um som seco e sem humor que surpreendeu até a mim.
— Então, você é a substituta — disse, minha voz fria, desprovida de emoção. — A dublê conveniente para a esposa que "nunca estava por perto".
O sorriso de Bia vacilou por um momento, depois se endireitou.
— Ele foi muito claro sobre os sentimentos dele por mim depois que contei sobre o bebê. Ele ficou em êxtase. Disse que era um sinal, um novo começo. Ele me comprou aquele colar, sabe — ela gesticulou para o pingente de diamante brilhante em sua garganta. — E me prometeu tudo. — Seus olhos brilharam com triunfo. — Ele me escolheu, Cíntia. Ele escolheu nossa família. Você... você é apenas uma relíquia.
Minha mão, segurando o chá, tremeu imperceptivelmente. O calor infiltrava-se pela porcelana, mas eu não sentia nada além de gelo. Olhei para as fotos novamente, depois de volta para o rosto presunçoso e vitorioso dela. Então, com um movimento súbito e deliberado, joguei o chá quente no rosto dela.
Bia gritou, um grito cru e não adulterado de choque e dor. Ela tropeçou para trás, agarrando o rosto, depois desabou no chão, puxando o cabelo dramaticamente, seus soluços transformando-se em lamentos torturados. Ela até conseguiu dar um tapa na própria bochecha, adicionando uma marca vermelha fresca à pele manchada de chá. Uma verdadeira performance.
Nesse momento, a porta do escritório se abriu com força. Alexandre estava lá, uma sacola de compras de grife em uma mão, um sorriso suave e amoroso no rosto. Seus olhos, geralmente tão afiados, estavam suaves de afeto. Ele devia estar trazendo roupas novas para Bia, outro símbolo de sua devoção.
Seu sorriso desapareceu no momento em que viu Bia no chão, chorando, e eu de pé sobre ela, meu rosto uma máscara de fúria fria. Seus olhos se estreitaram, cheios de raiva imediata e pura.
— Cíntia! O que você fez?! — ele rugiu, largando a sacola. Correu para o lado de Bia, puxando-a para seus braços, ignorando-me completamente. — Bia, meu amor, você está bem? O que ela fez com você?
Bia soluçou no peito dele, a voz abafada, mas teatral.
— Ela... ela simplesmente entrou, Alexandre. Estava tão brava. Tentei acalmá-la, mas ela simplesmente... ela simplesmente jogou chá quente na minha cara! E disse... disse coisas terríveis sobre nosso bebê!
Zombei, um som curto e agudo de descrença.
— Nosso bebê, Alexandre? É assim que você o chama agora? — Levantei a foto da família, minha mão tremendo levemente. — O que é isso, Alexandre? Sua vida secreta? Sua família perfeita?
Ele recuou, os olhos disparando para a foto, depois de volta para Bia, que agora segurava o estômago, choramingando.
— Cíntia, não é o que parece. Você não entende.
— Ah, eu entendo perfeitamente — rebati, minha voz carregada de veneno. — Entendo que você construiu uma segunda vida, uma segunda família, nas sombras, enquanto eu estava ao seu lado. Entendo que você permitiu que essa... essa mulher mudasse o tratamento médico do meu pai. E entendo que você tem mentido para mim há anos.
O rosto dele endureceu.
— O que você quer, Cíntia? Dinheiro? É por isso que você está aqui, me chantageando? — As palavras dele foram como um golpe físico.
— Chantagem? — Ri novamente, um som áspero e quebradiço. — Você acha que eu quero seu dinheiro? Depois de tudo? Você realmente pensa tão pouco de mim? — Dei um passo mais perto, meus olhos flamejando. — Você me prometeu uma família, Alexandre. Você me prometeu uma vida inteira. E então me disse... me disse que eu não podia ter filhos. — As palavras foram arrancadas da minha garganta, cruas e dolorosas. — Você se lembra disso, Alexandre? Lembra por que não posso ter filhos?
Os olhos dele piscaram, uma pitada de algo ilegível ali.
— Cíntia, não. Não toque nesse assunto.
— Por que não? — cuspi, os anos de dor reprimida explodindo. — Porque é inconveniente? Porque te lembra da verdade? Eu quase morri, Alexandre! Trabalhando até ficar doente pela sua empresa, sofrendo uma hemorragia gástrica, perdendo minha chance de ser mãe! E você... você prometeu que ficaríamos bem, que não precisávamos de filhos. Você até sugeriu uma vasectomia, mas nunca fez!
Ele recuou como se tivesse levado um tapa.
— Eu... eu sei que te devo, Cíntia. Vou consertar as coisas. Mas não se atreva a machucar meu filho. Ou a Bia.
— Machucá-los? — perguntei, uma calma arrepiante se instalando sobre mim. — Ah, Alexandre, não vou encostar um dedo neles. Mas vou pegar o que é meu. Cada centavo do que me é devido. Começando com o divórcio. — Puxei o documento branco e nítido, suas bordas ainda afiadas, e o joguei na mesa dele. — Assine.
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