
A Herdeira Oculta
Capítulo 2
"Juliana está grávida."
A voz de Pedro era calma, quase casual, como se estivesse comentando sobre o tempo. Ele largou a pasta de couro na poltrona da sala e afrouxou a gravata, evitando meu olhar.
Eu fiquei parada no meio da sala, com um pano de prato na mão. O cheiro do jantar que eu tinha preparado com tanto carinho de repente pareceu enjoativo.
"O quê?"
A palavra saiu como um sopro, fraca e incerta.
Ele finalmente me olhou, e seu rosto não tinha culpa, apenas um cansaço estratégico.
"Sofia, me escute. Isso não muda nada entre nós."
Uma risada seca escapou dos meus lábios. Não muda nada? Ele só podia estar brincando.
"Não muda nada? Pedro, você está me dizendo que sua chefe, a mulher que você vive elogiando pela 'visão de negócios' , está esperando um filho seu. Como isso não muda nada?"
Ele se aproximou, tentando pegar minhas mãos, mas eu recuei instintivamente.
"Pense nisso como um sacrifício, meu amor. Um investimento no nosso futuro."
Eu o encarei, incrédula. Investimento? Sacrifício? As palavras pareciam absurdas, saídas de um roteiro de filme ruim.
"Juliana tem tudo, Sofia. Poder, contatos, dinheiro. Ela pode me dar a alavancagem que eu preciso para chegar ao topo. E quando eu chegar lá, tudo isso será nosso."
Ele falava com uma convicção doentia, como se estivesse me apresentando um plano de negócios brilhante.
"E o que acontece com ela e o bebê nesse seu 'plano' ?" perguntei, sentindo um gosto amargo na boca.
"Ela é uma mulher de negócios, pragmática. Ela só precisa de um pai para o filho dela por um tempo. Eventualmente, ela vai se cansar de mim, ou do bebê, ou dos dois. E quando isso acontecer, eu volto para você. Para nós. Teremos a vida que sempre sonhamos."
A calma com que ele descrevia a manipulação de duas mulheres era assustadora. Eu não era o amor da vida dele, era um plano de aposentadoria, um porto seguro para quando a aventura perigosa acabasse.
Meu cérebro deu um estalo.
A ironia era tão densa que quase me sufocou.
Ele, Pedro, o gerente de marketing ambicioso, achava que precisava se envolver com sua chefe por dinheiro e status. Ele não fazia a menor ideia de quem eu era.
Para ele, eu era apenas Sofia. Uma garota simples, órfã, que trabalhava como assistente administrativa em uma empresa pequena para pagar as contas do nosso apartamento alugado.
Ele não sabia que meu sobrenome, que eu nunca usava, era Vasconcelos.
Ele não sabia que meu pai, que ele achava que estava morto, era Antônio Vasconcelos, o dono da maior rede de hotéis de luxo da América Latina, o Luxus Group.
Ele não sabia que o dinheiro que ele tanto almejava, a ponto de destruir vidas para conseguir, era algo que eu poderia dar a ele com um simples telefonema.
Todo o nosso relacionamento, os três anos de namoro, o anel de noivado que agora pesava no meu dedo, tudo parecia uma piada de mau gosto. Eu escondi minha identidade para encontrar alguém que me amasse pelo que eu era, não pelo que eu tinha.
E encontrei Pedro. Que provou, da forma mais cruel possível, que não amava nem uma coisa, nem outra. Ele amava apenas a si mesmo.
O choque inicial se transformou em uma clareza fria e cortante. A dor estava lá, profunda e latejante, mas a humilhação era maior.
Ele continuava falando, tecendo sua teia de mentiras e desculpas esfarrapadas, mas eu já não ouvia mais nada. O som da sua voz era apenas um ruído de fundo para a minha decisão.
"Pedro."
Eu o interrompi. Minha voz soou firme, surpreendendo a nós dois.
"Acabou."
Ele piscou, confuso, como se a palavra fosse em um idioma estrangeiro.
"Acabou o quê? Sofia, você não está entendendo…"
"Não. Eu entendi perfeitamente," eu disse, tirando o anel de noivado do meu dedo. A pedra barata, que eu um dia achei o símbolo do amor verdadeiro, agora parecia um pedaço de vidro sujo. Estendi a mão e o larguei na palma da mão dele. "Acabou. Nós acabamos."
A confusão no rosto dele deu lugar à raiva. Sua máscara de bom moço caiu, revelando o homem calculista e egoísta que ele realmente era.
"Você está terminando comigo? Por isso?" Ele gesticulou, exasperado. "Depois de todo o meu esforço? Você é ingênua, Sofia! Você não entende o que é preciso para vencer na vida! Eu estou fazendo isso por nós, e você joga tudo fora por um capricho moralista?"
Ele me olhava com desprezo, como se a minha dignidade fosse um defeito, um obstáculo para o seu sucesso.
"Pegue suas coisas e saia do meu apartamento," eu disse, a voz gélida.
"Seu apartamento? Fui eu que paguei o aluguel nos últimos seis meses!" ele retrucou, a voz aumentando.
"E eu paguei por todo o resto. Agora, saia."
Ele me encarou por um longo momento, o peito subindo e descendo com raiva. Ele não conseguia acreditar que seu plano B, sua garota simples e obediente, estava se rebelando.
"Você vai se arrepender disso, Sofia," ele cuspiu as palavras. "Quando você estiver sozinha e sem ninguém, vai perceber o que perdeu."
Ele pegou a pasta, vestiu o casaco e bateu a porta ao sair.
O silêncio que ficou era ensurdecedor. Eu olhei para o jantar intocado na mesa, para o apartamento que um dia chamei de lar. Tudo estava contaminado.
Eu não me arrependia. Pela primeira vez em muito tempo, eu sabia exatamente o que precisava fazer.
A Sofia ingênua morreu naquela noite.
E a herdeira dos Vasconcelos estava prestes a acordar.
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