
A Herdeira Oculta
Capítulo 3
No dia seguinte, comecei a encaixotar minha vida. Cada objeto parecia carregar o peso da traição de Pedro. As fotos, os presentes, os pequenos bilhetes. Joguei tudo no lixo, sem hesitar. Eu precisava apagar qualquer vestígio dele.
Eu estava dobrando uma blusa quando a chave girou na fechadura. Pedro entrou, o rosto tenso.
"O que você está fazendo?" ele perguntou, vendo as caixas espalhadas pelo chão.
"Estou me mudando. Achei que tinha deixado isso claro," respondi, sem olhá-lo.
Ele bufou, andando de um lado para o outro na sala. Pegou o celular e discou um número. A voz dele mudou instantaneamente, tornando-se melosa e preocupada.
"Oi, meu amor… Sim, sou eu. Como você está se sentindo? E o nosso pequeno campeão? Comeu direitinho hoje?"
Meu estômago se revirou. Ele estava falando com Juliana, na minha frente, como se eu fosse um móvel invisível na sala.
"Não se preocupe, eu vou resolver tudo por aqui. Ela já está de saída. Sim, hoje mesmo. Logo, logo teremos nosso espaço só para nós… Também te amo, meu amor. Beijo."
Ele desligou e me encarou com frieza. A dualidade daquele homem era assustadora.
"Viu? As coisas estão andando. Você só precisa cooperar."
"Cooperar com a minha própria humilhação? Não, obrigada," eu disse, fechando uma caixa com fita adesiva. O som rasgando o silêncio pareceu pontuar minha raiva.
Mal terminei de falar, a campainha tocou. Pedro abriu a porta e lá estava ela.
Juliana.
Ela era exatamente como eu imaginava pelas descrições de Pedro. Alta, impecavelmente vestida com um terninho caro que não conseguia esconder a pequena protuberância em sua barriga. O cabelo loiro estava preso em um coque perfeito, e o olhar dela era frio e avaliador.
Ela entrou no apartamento como se já fosse a dona, ignorando completamente a minha presença. Deu um beijo demorado em Pedro, uma clara demonstração de posse.
"Então, essa é a sua… ex?" ela disse, a voz carregada de desdém, finalmente se virando para mim. Ela me olhou de cima a baixo, um sorriso de escárnio nos lábios.
"Coitadinha. Parece tão… simples."
Eu me mantive em silêncio, sentindo o sangue ferver nas minhas veias.
Juliana passou a mão pela barriga de forma teatral.
"Pedro me contou que você não está lidando muito bem com a notícia. Mas você precisa entender, querida. Algumas pessoas nasceram para serem coadjuvantes. E outras, como eu, para serem protagonistas."
Ela se aproximou de mim, o perfume caro dela invadindo meu espaço.
"Eu e Pedro temos um futuro brilhante pela frente. E nosso filho terá tudo do bom e do melhor. Você não se encaixa nessa equação."
Eu olhei para Pedro, esperando que ele dissesse algo, qualquer coisa. Que defendesse os três anos que passamos juntos. Mas ele permaneceu em silêncio, de cabeça baixa, um cão adestrado ao lado de sua dona.
"Sofia, não complique as coisas," foi tudo o que ele conseguiu dizer.
A decepção era um veneno lento. Eu já sabia que ele era um covarde, mas ver aquilo ao vivo era ainda mais doloroso.
Juliana sorriu, satisfeita com a submissão dele.
"Ótimo. Já que estamos todos na mesma página," ela disse, virando-se para mim novamente, o tom agora imperativo. "Quero que você saia daqui. Hoje."
O ar ficou pesado. A audácia dela era inacreditável.
"Este apartamento está alugado no meu nome também," eu argumentei, minha voz tremendo um pouco.
Juliana riu, uma risada curta e cruel.
"E? Eu posso comprar este prédio inteiro se eu quiser, querida. Não me faça perder meu tempo com detalhes insignificantes." Ela se virou para Pedro. "Resolva isso."
Pedro se aproximou de mim, o rosto contorcido em uma súplica patética.
"Sofia, por favor. É melhor você ir. Para evitar mais problemas."
Problemas para quem? Para ele, claro. Para o futuro brilhante dele construído sobre a minha humilhação.
"Eu vou," eu disse, a voz baixa, mas firme. "Mas não por que vocês estão mandando. E sim porque eu não aguento mais olhar para a cara de vocês."
Peguei minha bolsa e a última caixa, que continha meus documentos e alguns itens pessoais. Caminhei em direção à porta, passando por eles como se fossem dois estranhos.
"Ah, Sofia," chamou Juliana, quando eu já estava no corredor. "Boa sorte para encontrar um lugar para morar. Ouvi dizer que os aluguéis estão caros para quem ganha um salário mínimo."
Pedro não disse uma palavra. Apenas observou enquanto a mulher que ele um dia pediu em casamento era expulsa de casa.
Fechei a porta atrás de mim, e o som do clique da fechadura foi o ponto final mais definitivo da minha vida. Eu estava sozinha, humilhada e sem teto. Mas eu também estava livre.
Eles não faziam ideia do que estava por vir. Eles achavam que tinham me destruído, mas na verdade, eles tinham acabado de me libertar.
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