
A Guerra Começou: Não Sou Mais a Vítima
Capítulo 2
O cheiro a antisséptico enchia as minhas narinas. Abri os olhos e a luz branca do teto do hospital feriu-me a vista. A minha garganta estava seca, arranhava.
A minha mãe estava sentada numa cadeira ao lado da cama, o rosto dela marcado pela preocupação. Quando me viu acordar, os olhos dela encheram-se de alívio.
"Sofia, finalmente. Assustaste-me de morte."
Tentei falar, mas a minha voz saiu como um sussurro rouco.
"O Miguel?"
A expressão da minha mãe escureceu. Ela não precisou de dizer nada. Ele não estava ali.
Com a mão a tremer, peguei no meu telemóvel na mesa de cabeceira. O ecrã mostrava sete chamadas não atendidas para ele. Senti um nó a formar-se no meu estômago.
Liguei-lhe outra vez. O som da chamada ecoava no silêncio do quarto. Um, dois, três toques. Finalmente, ele atendeu. A voz dele soava irritada, distante.
"O que foi? Estou ocupado."
"Ocupado?", a minha voz falhou. "Miguel, eu quase morri. Tive um choque anafilático. Onde é que tu estás?"
Ouvi um suspiro do outro lado da linha, um som de pura impaciência.
"Eu sei, a tua mãe ligou-me. Mas a Beatriz entrou em pânico. Ela está traumatizada, Sofia. A culpa está a consumi-la. Tive de ficar aqui para a acalmar."
Beatriz. A minha cunhada. A pessoa que cozinhou o jantar. A pessoa que sabe perfeitamente que sou mortalmente alérgica a marisco.
"Ela está traumatizada?", repeti, incrédula. "E eu? Eu estou num hospital, Miguel."
"Não dramatizes. Foi um acidente. A Beatriz está desfeita. Ela não para de chorar. Preciso de cuidar dela. Os médicos já estão a cuidar de ti, não é?"
A frieza nas palavras dele atingiu-me com mais força do que qualquer reação alérgica. Ele não estava preocupado. Estava aborrecido. A minha emergência médica era um inconveniente para ele.
"Um acidente...", murmurei para mim mesma.
Do outro lado, ouvi a voz chorosa e fraca da Beatriz.
"Miguel, é a Sofia? Diz-lhe que eu peço muita desculpa. Eu sinto-me tão mal, sinto que vou desmaiar. Eu não queria..."
A voz dela foi interrompida por um soluço.
Miguel falou, a voz dele agora suave e cheia de conforto, um tom que ele raramente usava comigo.
"Calma, Bia. Eu estou aqui. Não te preocupes com nada. Descansa."
Ele desligou o telefone. Na minha cara.
Olhei para o ecrã escuro do telemóvel. O silêncio no quarto era ensurdecedor.
A minha mãe pegou na minha mão. A pele dela estava quente contra a minha, que estava gelada.
"Minha filha..."
"Eu quero o divórcio, mãe."
As palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse sequer processá-las completamente, mas eu sabia que eram verdadeiras. Era a única verdade que restava.
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