
A Gota D'Água: O Divórcio Que a Libertou
Capítulo 2
O cheiro de desinfetante no hospital era forte, quase me sufocava.
Eu estava sentada num banco frio do lado de fora da sala de cirurgia, com a minha mão a tremer enquanto segurava o telemóvel.
O meu marido, Pedro, não atendia.
Liguei de novo. E de novo.
Dentro daquela sala, a minha mãe estava a lutar pela vida. Cancro do pâncreas, em estado avançado. Os médicos disseram que a cirurgia era a nossa única esperança.
Finalmente, a chamada foi atendida. Não era a voz de Pedro, mas sim a da sua irmã, Sofia. A voz dela soava irritada, cheia de impaciência.
"Mariana? O que queres? O Pedro está ocupado."
"Ocupado?", a minha voz saiu rouca, "A minha mãe está na sala de cirurgia, Sofia. Eu preciso dele aqui."
Ouvi um barulho ao fundo, risos. Parecia uma festa.
"Ah, isso", disse Sofia com desdém, "Olha, o Tiago, o meu filho, está a fazer oito anos hoje. É a festa de aniversário dele. Não podemos simplesmente ir embora."
"Ele é o teu sobrinho, Mariana. O Pedro é o tio dele. A família tem de estar unida nestes momentos."
A ironia daquelas palavras quase me fez rir. Família.
"A minha mãe pode morrer, Sofia."
Houve um silêncio, depois um suspiro. "Não sejas tão dramática. A tua mãe vai ficar bem. O Pedro disse que liga mais tarde. Agora tenho de ir, o palhaço chegou."
Ela desligou.
O telemóvel caiu da minha mão, o som ecoou no corredor vazio do hospital.
Eu estava sozinha. Completamente sozinha.
Olhei para a porta da sala de cirurgia. A luz vermelha por cima dela parecia um olho a olhar para mim, sem piscar.
Lembrei-me de como Pedro me tinha prometido, na noite anterior, que estaria ao meu lado. Ele segurou a minha mão e disse: "Vamos passar por isto juntos, meu amor. Eu não te vou deixar."
As suas palavras agora eram apenas um eco vazio.
A festa de aniversário do seu sobrinho era mais importante. Um palhaço era mais importante.
Senti um nó a formar-se na minha garganta.
Eu e Pedro estávamos casados há cinco anos. Nos primeiros anos, ele era atencioso. Mas desde que a sua família se mudou para a nossa cidade, tudo mudou.
A sua mãe, a Dona Helena, e a sua irmã, Sofia, nunca gostaram de mim. Elas achavam que eu não era boa o suficiente para o seu precioso Pedro.
E Pedro, em vez de me defender, começou a ceder a todas as vontades delas.
"Sê paciente, Mariana", ele dizia, "Elas só querem o melhor para mim."
Mas o "melhor" para ele parecia significar o meu sofrimento.
A luz da cirurgia finalmente apagou-se. O médico saiu, com uma expressão cansada.
O meu coração parou.
"Doutor?", sussurrei.
Ele deu um pequeno sorriso. "A cirurgia correu bem. Conseguimos remover o tumor. Ela está estável, mas os próximos dias são cruciais."
Senti as minhas pernas fraquejarem de alívio. As lágrimas que eu tinha segurado finalmente caíram.
"Obrigada, doutor. Muito obrigada."
Aproximei-me do vidro da unidade de cuidados intensivos. A minha mãe estava deitada, pálida, com tubos ligados ao seu corpo. Mas estava a respirar.
Ela estava viva.
Nesse momento, o meu telemóvel vibrou. Era uma mensagem de Pedro.
"Desculpa, amor. A festa estava uma loucura. Como está a tua mãe? Ligo amanhã."
Amanhã.
Uma raiva fria começou a espalhar-se pelo meu peito.
Respondi com uma única frase.
"Pedro, quero o divórcio."
Você pode gostar





