
A Geladeira e o Segredo
Capítulo 2
A geladeira zumbia baixo, um som constante na quietude da casa. Era um barulho que eu nunca notava, mas naquele momento, parecia preencher todo o espaço, todo o silêncio que Ana Paula havia deixado para trás. Abri a porta, procurando algo para beliscar, o dia de trabalho tinha sido longo e eu estava faminto. Meus olhos passaram pelas prateleiras organizadas, um reflexo do cuidado da minha esposa com nosso lar. Iogurtes, queijos, uma jarra de suco. E então, algo fora do lugar.
Atrás de um pote de maionese, escondido no fundo, havia um pequeno frasco de vidro, do tipo que se vê em laboratórios. Era frio ao toque. Dentro, um líquido transparente e algo minúsculo, quase imperceptível, flutuando. Uma etiqueta branca estava colada no vidro, mas as letras estavam borradas pela umidade. Senti um frio percorrer minha espinha, um que não vinha da geladeira. O que era aquilo? Ana Paula estava doente? Ela não me disse nada.
Fechei a porta da geladeira lentamente. A fome tinha desaparecido, substituída por uma ansiedade crescente. Fui para o nosso quarto, o coração batendo descompassado. Onde ela guardaria algo importante? A gaveta de sua mesa de cabeceira. Hesitei por um instante. Invadir sua privacidade era algo que eu nunca tinha feito em cinco anos de casamento. Mas o medo era maior que o respeito.
Abri a gaveta. Papéis, um livro, alguns recibos. E, no fundo, um envelope pardo. Dentro dele, um documento dobrado. Um atestado de uma clínica de saúde. Meu estômago se revirou. Comecei a ler, e o mundo ao meu redor desmoronou.
"Atestado de Procedimento de Interrupção de Gravidez."
O nome da paciente: Ana Paula Siqueira. Meu sobrenome não estava lá. E ao lado, no campo para o nome do parceiro, um nome que fez meu sangue gelar: Marcos Viana. Marcos. O colega de faculdade dela, o cara que eu sempre soube que tinha uma queda por ela, o mesmo Marcos que meu sogro, Seu Jorge, tratava como um afilhado.
O frasco na geladeira. O embrião. O filho deles.
Sentei na beira da cama, o papel tremendo em minhas mãos. Cada palavra era uma facada. A data do procedimento era de duas semanas atrás. A traição, o aborto... tudo feito em segredo, enquanto eu trabalhava para construir a vida perfeita que ela dizia querer. A dor era física, uma pressão no peito que me impedia de respirar. O amor que eu sentia por ela se transformou em pó, cinzas de uma fogueira que de repente se apagara.
Guardei o documento de volta no envelope e o coloquei no bolso da minha calça. Fui até a geladeira, peguei o pequeno frasco e o escondi no fundo de uma gaveta no meu escritório, um lugar que ela nunca mexia. Eu precisava de tempo. Precisava pensar. O Ricardo apaixonado e ingênuo morreu naquela tarde. Em seu lugar, nasceu um homem frio, calculista, consumido por um único desejo: vingança.
Quando ouvi a chave na porta, meu coração não acelerou de alegria como antes. Endireitei-me na cadeira da sala, fingindo ler um livro.
"Oi, amor! Cheguei!"
A voz dela, antes música para os meus ouvidos, agora soava como um arranhão em um disco.
"Oi, querida. Como foi o seu dia?"
Ela se aproximou, me deu um beijo no rosto. O cheiro do perfume dela, o mesmo de sempre, agora me causava náuseas.
"Cansativo. Mas estou feliz de estar em casa."
Ela foi para a cozinha, e eu a ouvi abrir a geladeira. O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de tensão. Eu sabia o que ela estava procurando.
"Ricardo?"
Sua voz estava diferente, um fio de pânico nela.
"Sim?"
"Você mexeu na geladeira? Tinha algo... algo meu guardado aqui."
Levantei os olhos do livro, encontrei o olhar dela. Seus olhos estavam arregalados, a máscara de esposa perfeita começando a rachar.
"Não, por quê? Sumiu alguma coisa?"
Eu menti com uma facilidade que me assustou.
"Sumiu. Uma coisa importante. Um... um exame médico."
Ela gaguejou, procurando uma desculpa.
"Um exame? Não vi nada. Tem certeza que deixou aí?"
A frustração tomou conta do rosto dela. Ela começou a revirar a geladeira, tirando as coisas do lugar, o desespero crescendo a cada segundo.
"Tenho certeza! Eu deixei aqui, bem no fundo! Era muito importante, Ricardo! Muito!"
A voz dela subiu de tom, quase um grito. A importância do frasco era clara. A prova do crime dela.
Eu a observei, sentindo um prazer sombrio em seu pânico. Ela não podia me dizer o que era, não podia admitir a verdade. Estava presa em sua própria teia de mentiras.
"Calma, Ana. Se estava aí, vai aparecer. Talvez você tenha guardado em outro lugar e não se lembra."
Minha voz era calma, razoável. Uma atuação digna de um prêmio.
Ela parou, as mãos na cintura, respirando fundo. Percebeu que não podia continuar a busca sem revelar seu segredo. Seus ombros caíram em derrota. Eu via o medo em seus olhos, a confusão. Ela não conseguia entender como aquilo, tão bem escondido, tinha desaparecido.
Ela se virou e saiu da cozinha sem dizer mais uma palavra. Foi para o quarto e fechou a porta. Eu a ouvi chorando, um choro baixo e abafado. Não senti pena. Senti apenas um ódio frio e crescente.
Fiquei sentado na sala, o livro esquecido no meu colo. Memórias da nossa vida juntos passavam pela minha mente. Lembrei do dia em que a pedi em casamento, da alegria em seus olhos. Lembrei das promessas que fizemos, das noites em que planejamos nosso futuro, os filhos que teríamos. Tudo mentira. Ela, a mulher dedicada e atenciosa, a esposa perfeita, era uma farsa. Uma manipuladora egoísta que me usou, me humilhou e descartou o filho de outro homem como se fosse lixo.
E Marcos. O nome ecoava na minha cabeça. Lembrei dele na nossa formatura, sempre perto dela, sempre com aquele sorriso sedutor. Lembrei das vezes que ele ligava, e Ana Paula sempre dizia que ele era um incômodo, um cara pegajoso do passado que não se tocava.
"Ele não me deixa em paz, Ricardo. É um chato."
Ela reclamava, e eu, como um tolo, acreditava. Eu a defendia.
Lembro de uma vez, há uns dois anos, em que o encontrei em um bar. Ele estava bêbado e veio falar comigo, dizendo coisas sobre como eu tinha roubado a mulher da vida dele. Naquele dia, eu o empurrei contra a parede e disse para ele nunca mais se aproximar da minha esposa.
"Se você chegar perto dela de novo, eu acabo com você."
Que ironia. Eu o ameacei para proteger a mulher que, pelas minhas costas, corria para os braços dele. A dor da traição era profunda, mas a humilhação de ter sido enganado por tanto tempo era ainda pior. Eu não era apenas um marido traído. Eu era um idiota.
Mas o idiota estava prestes a mudar o roteiro. O aniversário de 60 anos do meu sogro estava chegando. Uma grande festa, com toda a família e amigos. Seria o palco perfeito. Eu daria a Seu Jorge o presente que ele tanto sonhava: seu primeiro neto.
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