
A Geladeira e o Segredo
Capítulo 3
Os dias seguintes foram um exercício de autocontrole. Eu vivia sob o mesmo teto que a mulher que havia destruído minha vida, agindo como se nada tivesse acontecido. Eu sorria, conversava sobre o trabalho, perguntava sobre o dia dela. Por dentro, eu era um vulcão de raiva e dor, esperando o momento certo para entrar em erupção. A desconfiança era um veneno que corria em minhas veias. Cada ligação que ela recebia, cada mensagem que a fazia sorrir para a tela do celular, era uma nova tortura.
Na sexta-feira, ela disse que ia sair com umas amigas do trabalho. Um happy hour.
"Não me espere para o jantar, amor. Vou chegar tarde."
"Tudo bem. Divirta-se."
Mas eu sabia que era mentira. A ansiedade em sua voz, a maneira como ela evitava meu olhar. Eu esperei quinze minutos depois que ela saiu e peguei as chaves do meu carro. A necessidade de ver com meus próprios olhos era mais forte que qualquer resquício de esperança que eu ainda pudesse ter.
Eu a segui à distância. Ela não foi para o bar onde costumava encontrar as amigas. Em vez disso, dirigiu para um bairro nobre, um lugar que não tínhamos o costume de frequentar. Estacionou em frente a um prédio moderno, com uma fachada de vidro. Eu parei meu carro do outro lado da rua, atrás de uma árvore, o coração martelando contra minhas costelas.
Ela desceu do carro, olhou para os lados e entrou no prédio. Alguns minutos depois, uma luz se acendeu em um apartamento no terceiro andar. E então, eu o vi. Marcos apareceu na sacada. Ele estava sem camisa, segurando duas taças de vinho. Ana Paula se juntou a ele. Ela o abraçou por trás, descansando a cabeça em seu ombro. Ele se virou e a beijou.
Não foi um beijo rápido. Foi um beijo longo, profundo, cheio de uma intimidade que me revirou o estômago. Eles eram um casal. Ali, na sacada, para quem quisesse ver. A imagem queimou em minha retina, uma prova irrefutável que despedaçou qualquer dúvida que eu pudesse ter. A dor era tão intensa que me deixou sem ar. Soquei o volante do carro, um gemido de pura agonia escapando dos meus lábios.
Senti um impulso de sair do carro, de subir naquele apartamento e acabar com aquilo. Mas o plano. A vingança. Eu precisava ser mais inteligente. Engoli a raiva, forcei-me a ficar ali, a observar.
A porta da sacada estava aberta, e com o silêncio da noite, eu conseguia ouvir fragmentos da conversa deles, levados pelo vento.
"...ele não desconfia de nada. É tão ingênuo."
Era a voz de Ana Paula. Ela estava rindo. Rindo de mim.
"Eu te disse que ele era um bobo apaixonado" , respondeu Marcos. "Mas e o susto? O que aconteceu com... aquilo?"
"Sumiu. Simplesmente sumiu da geladeira. Eu quase tive um ataque cardíaco. Ricardo disse que não viu nada. Eu não sei o que pensar."
"Relaxa, meu amor. Deve ter caído, ou ele jogou fora sem ver. O importante é que nos livramos do problema. Agora somos só nós dois."
Livraram-se do problema. O filho deles. Um problema. A frieza com que eles falavam sobre o aborto me enojou. Para eles, era apenas um inconveniente. Para mim, era a prova da depravação deles.
Eles entraram, mas deixaram as cortinas abertas. As luzes da sala de estar projetavam suas sombras na parede. Eu vi quando eles começaram a se despir, os corpos se movendo juntos. A intimidade deles era uma agressão, uma violação pública do nosso casamento. Cada beijo, cada carícia, era uma faca girando na minha ferida.
Não consegui mais olhar. Senti uma onda de náusea e um desespero avassalador. O homem que eu era, o marido que tentava salvar seu casamento, morreu ali, sentado naquele carro, observando as sombras de sua esposa com outro homem. Não havia mais nada para salvar. Não havia mais nada para lutar. A única coisa que restava era o vazio.
Dei a partida no carro e dirigi sem rumo, as lágrimas finalmente escorrendo pelo meu rosto. Eu não queria ir para casa. Nossa casa. O lugar estava contaminado com as mentiras dela. Parei no primeiro bar que encontrei, um lugar escuro e decadente que combinava com meu estado de espírito.
Pedi uma dose de uísque. E depois outra. E outra. O álcool queimava minha garganta, mas não conseguia apagar a imagem deles juntos. Cada gole era uma tentativa de afogar a dor, de silenciar as vozes na minha cabeça. O Ricardo que amava Ana Paula, que perdoaria qualquer coisa, estava sendo afogado em álcool e autopiedade.
Eu bebi até o mundo começar a girar, até o barman me dizer que era hora de fechar. Paguei a conta com dificuldade e cambaleei para fora. O ar frio da noite me atingiu, mas não aliviou a febre que queimava por dentro.
Enquanto eu estava ali, encostado em uma parede, o passado me assombrou. Lembrei de todos os sacrifícios que fiz por ela. Mudei de cidade quando ela conseguiu o emprego dos sonhos. Abri mão de uma promoção para que pudéssemos passar mais tempo juntos. Trabalhei em dois empregos no início para que ela pudesse terminar a faculdade sem dívidas. Cinco anos da minha vida dedicados a ela, a construir um futuro para nós. E no final, tudo foi em vão. Eu era apenas o provedor, o porto seguro conveniente enquanto ela se divertia com o outro. A amargura era um gosto horrível na minha boca, pior do que o do uísque barato.
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