
A garota que eu perdi
Capítulo 2
Depois
A luz caminhou pelo quarto, então o dia já deve estar no fim. Acabei virando o relógio. Não aguentava mais pensar no tempo preso dentro dos números do relógio - o tempo que geralmente não vemos quando está acontecendo e que se perde junto com tantos outros tempos perdidos, mas que nos perguntamos onde foi parar depois.
Meus dedos buscam o celular. E por mais que eu saiba que ela não quer falar comigo, ainda abro seu contato e olho a sua foto. Eu me lembro dessa foto.
--
Antes
- Olhe para mim. – eu digo, sentado no sofá da minha sala, totalmente relaxado.
- O quê? – ela me encara. Seus olhos estão sérios.
É por causa de um assunto que estou empurrando o quanto posso. Quanto drama pode haver numa mulher só?
- Sorria! – exclamo – Você fica mais bonita sorrindo. – incentivo, sorrindo para demonstrar.
Ela sorri. É um sorriso seco e sem graça que não chega aos seus olhos. Eu ignoro e tiro a foto mesmo assim. Coloco como perfil de seu contato no meu celular.
- Viu? – mostro a foto, em sinal da minha razão. Ela mal move os olhos em direção ao aparelho. Eu o guardo, já impaciente. – Pare de ser tão chata, você acaba com o clima de tudo.
- Você me ignorou a semana toda. Você visualizou as mensagens e não respondeu. – diz lentamente.
- Já falei que estudo muito, que fico ocupado. – argumento, minha voz já levantando o tom.
- Tempo para ver você tem, mas não tem para responder?
Levanto, com um suspiro, e saio, deixando-a sozinha com seus pensamentos.
Minha mãe e Fátima estão fazendo uma bagunça na mesa quando entro na cozinha. Todo sábado minha irmã quer fazer algo especial para o “maravilhoso” namorado – eu me pergunto se ela está tentando fisga-lo com isso, porque não vai funcionar, mas decido nem entrar no assunto.
- A princesa não quer nos ajudar? – minha mãe diz como brincadeira, erguendo uma sobrancelha, mas sei que é sério.
- Ela está ocupada. – dou de ombros.
- Ela sempre tem...
- Passa o trigo. – Fátima corta o assunto, estendendo a mão sem paciência.
Posso ver a preocupação em seus olhos, a testa franzida e o rosto vermelho. Minha irmã está usando todas as armas que conhece, mas provavelmente sabe que não vai funcionar outra vez.
- Acho que você está colocando demais. – minha mãe alerta, observando a forma como Fátima joga o trigo com força dentro de uma tigela.
Afasto a fumaça que sobe em nossos olhos enquanto minha irmã solta um gemido de frustração.
- Outra catástrofe! – ela reclama, colocando as mãos nos cabelos, depois se afasta em direção ao seu quarto.
No mesmo momento, minha mãe olha para mim de novo.
- Está vendo o esforço de sua irmã? É assim que se faz.
Reviro os olhos, sem dizer nenhuma palavra, e volto para a sala. Prefiro o silêncio carrancudo de minha namorada do que todas as indiretas que sei que minha mãe é capaz de fazer.
Você pode gostar





